200 anos de Friedrich Engels

“Engels deu uma contribuição própria à teoria do socialismo científico, que foi a de estender à natureza a concepção materialista da dialética, uma vez que Marx se dedicou ao ser social. A contribuição engelsiana conferiu ao marxismo o caráter de filosofia, com a generalização metodológica e teórica, contendo uma concepção de mundo, não apenas da sociedade.”



O nome dele não aparece na denominação da filosofia, mas é impossível pensar em marxismo e não aparecer em nossa mente a imagem de Friedrich Engels ao lado de Karl Marx, seu amigo inseparável. Este se definia como, no máximo, segundo violino da orquestra do comunismo, mas é modéstia. Mesmo nas obras que Marx escreveu sozinho, estão presentes ideias das conversas, estudos e reflexões que faziam juntos. E a militância compartilhada.


O nascimento foi em 28 de novembro de 1820 na província renana da Prússia, território da Alemanha. Seu pai, Friedrich Engels Sr., empresário industrial; sua mãe, Elisabeth Franziska, mulher ligada às artes e à literatura. Na escola, já demonstrava uma inteligência múltipla, capaz de aprendizagem e compreensão de disciplinas variadas, além de escrever poemas, compor músicas, deixar felizes seus mestres. Mas não entrou na universidade porque o pai o queria como empresário e comerciante para dar continuidade aos seus negócios. Aos 17 anos, concluído o Liceu (atual Ensino Médio), foi estagiar nas empresas do pai, que depois o empregou numa empresa exportadora de um amigo na cidade portuária de Bremen. Nas horas vagas, continuou estudando afincadamente. Era, ainda, um esportista, praticando montaria a cavalo, esgrima, natação e patinação.


Engels viveu sua juventude numa Europa efervescente, ainda lutando contra o absolutismo e resquícios do feudalismo, principalmente na Alemanha, onde o capitalismo se desenvolveu tardiamente, dependendo das grandes potências da época (França e Inglaterra). Em ascensão, a burguesia lutava por um regime democrático e republicano e essa luta despertava a atração do jovem, que ficava muito triste ao ver a situação em que viviam os operários. Aos 19 anos, começou a escrever para os jornais, denunciando a exploração e as injustiças praticadas pelos governos e pelos poderosos. A um amigo da escola, que lhe criticava por essas preocupações e mostrava o caminho da felicidade na fazenda da família, Engels escreveu: “Atividade, vida, coragem juvenil, esse o verdadeiro sentido. A torrente do tempo irá devorar vossa economia idílica e então estareis num beco sem saída”.


Em 1841, retorna para a casa do pai, em vista de prestar o serviço militar, que será em Berlim, fato que ele comemora, uma vez que a atividade comercial lhe satisfazia cada vez menos. Em Berlim, frequentou a universidade na condição de ouvinte, onde conheceu e se aproximou dos discípulos do filósofo Hegel, que se dividiam numa ala dogmática, idealista, e outra que buscava aplicar o método hegeliano à vida real, com a qual ele se entrosou.


Marx era deste grupo, mas Engels não o conheceu nesta época. Travava-se um grande debate em torno do significado da liberdade, que os dogmáticos definiam como livre arbítrio. Engels se opõe a tal visão, refletindo que a verdadeira liberdade é a atividade consciente decorrente da compreensão da necessidade existente no mundo. Engels se desligará dos jovens hegelianos de esquerda em 1851, por considerar que eles adotavam uma fraseologia revolucionária desligada de qualquer atividade prática.


Casando com a classe operária


Concluído o serviço militar, acabou a folga. O pai mandou-o para Manchester, Inglaterra, para trabalhar numa fábrica têxtil (Ermes & Engels) da qual era sócio, em 1842. Nesta viagem, de passagem por Colônia (Alemanha), visitou a redação da revista progressista Rheinisch Zeitung, cujo chefe de redação era Karl Marx. Tiveram uma breve conversa.


Em Manchester, Engels ficou abismado com o grau de exploração dos operários e a precariedade de sua vida. Decidiu estudar a fundo, não só nos livros, jornais e revistas, mas no contato direto, tanto nas fábricas quanto indo às casas dos operários, que viviam em condições subumanas. Era acompanhado pela jovem Mary Burns, empregada da fábrica do seu pai. A amizade terminou em casamento. Foram dois anos de estudos e pesquisas que resultaram na obra clássica “A Situação da Classe Operária na Inglaterra” (1845).


Aproximou-se do Cartismo, movimento de massas dos trabalhadores ingleses, que promovia grandes greves com reivindicações econômicas e preparava projetos de lei para pressionar o Parlamento a aprová-los. O movimento acreditava na transformação social por meio da institucionalidade, mas acabou esmagado pela repressão armada. Avaliando a experiência cartista, Engels escreveu: “A Revolução por via legal é impossível”.


Contatou também os socialistas utópicos que propunham o associativismo como caminho para superação do capitalismo; dialoga com Robert Owen. Como os ingleses eram bastante isolados, proporciona-lhes o conhecimento do movimento operário na França e na Alemanha, bem como das experiências dos utópicos franceses.


Em fins de agosto de 1844, retorna à Alemanha. Encontra Marx em Paris. Desta vez, a conversa é profunda e firma uma amizade e parceria que mudarão a história da Humanidade. Sua primeira obra conjunta é “A Sagrada Família”, na qual desenvolvem uma crítica demolidora dos jovens hegelianos, estabelecendo uma concepção materialista da história e do papel da filosofia, que não deve ser de interpretar o mundo, mas de transformá-lo. De volta a terra natal, contata o movimento socialista, ainda influenciado pelos ideais utópicos, mas se anima com o potencial existente, relatando para Marx: “O êxito é colossal. O Comunismo é o tema central das conversas e cada dia nos traz novos partidários”.


Os conflitos com o pai levam-no a mudar-se para Bruxelas, onde se encontrava Marx. Seguem para a Inglaterra onde ficam um mês realizando estudos conjuntos e articulações, especialmente com os cartistas de esquerda e a Liga dos Justos, uma grupo comunista clandestino, resultando na criação de uma organização chamada Democratas Fraternos, que eles consideram eivada de ilusões pequeno-burguesas, mas pretendem transformar em proletária e revolucionária. Partem para sua segunda obra conjunta “A Ideologia Alemã”, que contém as bases do socialismo científico.


De 1846 a 1848, Engels se instala em Paris com a missão de criar comitês socialistas, trabalho difícil, haja vista a grande influência dos utópicos. Marx, por sua vez, é chamado para reorganizar a Liga dos Justos, que se transforma em Liga dos Comunistas e substitui a palavra de ordem “todos os homens são irmãos”, por “Proletários de todos os países, uni-vos”.


Além da organização dos comunistas, Engels e Marx se empenharam na criação de uma Frente Democrática, a partir de Bruxelas, reunindo cartistas ingleses e democratas da Alemanha, França, Suíça e Holanda. Eles analisavam que a Europa vivia uma etapa de revoluções burguesas e que os operários deveriam participar ativamente delas, mas com sua própria organização para garantir que não parassem com as derrotas das monarquias, mas continuassem até a instauração do comunismo. Em novembro de 1847, o 2º Congresso da Liga dos Comunistas encarrega Marx e Engels da redação de um Manifesto à humanidade, o qual será lançado em 1848, com o nome de Manifesto do Partido Comunista.


Gênio militar


O lançamento do Manifesto coincide com uma onda revolucionária na Europa, iniciada na França e que se estendeu por todo o continente. Marx e Engels participaram ativamente na Bélgica. Marx foi logo expulso do país, mas Engels permaneceu, saindo depois para Paris e daí para a Alemanha, onde a luta continua, mesmo depois de os operários parisienses serem afogados num mar de sangue.


Em 1849, a repressão alemã ainda encontra resistências locais. Numa delas, na cidade de Elfeberd, está Engels, à frente de um destacamento de 400 operários armados, e demonstra que, além de teórico e militante, é um especialista em artes militares, desassombrado e ousado. Sai da cidade, por pressão da pequena-burguesia, que temia perder o comando para os comunistas, e vai lutar na região do Palatinado, onde enfrenta o exército prussiano, mas é derrotado e escapa pela fronteira suíça.


Ante a vitória da reação, Marx e Engels rumam para a Inglaterra. Eles avaliam que o movimento operário só poderá se reerguer diante de uma grande crise econômica, que não virá de imediato. Desse modo, os anos seguintes serão de aprofundamento dos estudos e da organização interna. Engels aceita voltar a trabalhar nas fábricas do pai em Manchester, consciente da necessidade, até para assegurar o sustento de Marx e sua família a fim de que este pudesse prosseguir na sua tarefa fundamental.


Foram 20 anos de “Cativeiro do Egito”, dizia Marx. Mas, Engels, que tinha uma energia extraordinária, continuou aprofundando seus estudos em diversas áreas, mantendo correspondência permanente com Marx, e participando de articulações dentro do possível. Em 1864, é fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), também conhecida como Primeira Internacional.


Em tempo integral


Engels libertou-se do “cativeiro egípcio” no segundo semestre de 1870, quando se mudou para Londres e foi eleito para o Conselho Geral da AIT. A década seguinte foi de intensa luta ideológica. Primeiro, no combate ao anarquismo no interior da Internacional, que culminou com a expulsão dos bakuninistas; a seguir, contra o reformismo liderado por Lassalle no Partido Proletário alemão. No campo do reformismo, E.K. Dühring, professor da Universidade de Berlim lançou a proposta de “um novo comunismo”, que se construiria sem luta de classes. O livro “Anti-Dühring”, escrito com a colaboração de Marx, não se limita a responder ao professor. É uma exposição sistemática do materialismo histórico e dialético e apresenta um balanço da evolução das ciências da natureza. Mostra o funcionamento das leis da dialética na natureza e na sociedade.


Todo apoio à Comuna


Março de 1871. O proletariado parisiense toma o poder e convoca a população para construir a nova sociedade, anunciando as primeiras medidas neste caminho. Algumas províncias se levantam no interior, mas são logo sufocadas. O exército burguês se reorganiza e se alia com seu arqui-inimigo até então, os invasores alemães, para retomar o domínio econômico e político. Em maio, depois de heroicos e sangrentos combates, a Comuna é derrotada. Desde o início da luta, Engels interveio no Conselho Geral da Internacional no sentido de dar todo o apoio aos comunnards, dos quais, muitos, inclusive, eram filiados à organização. O apoio efetivamente aconteceu, tanto no período da luta quanto depois, com ajuda aos exilados e denúncia em todo o mundo da repressão feroz e do genocídio praticado contra os operários de Paris e suas famílias.


Contribuição original


Engels deu uma contribuição própria à teoria do socialismo científico, que foi a de estender à natureza a concepção materialista da dialética, uma vez que Marx se dedicou ao ser social. A contribuição engelsiana conferiu ao marxismo o caráter de filosofia, com a generalização metodológica e teórica, contendo uma concepção de mundo, não apenas da sociedade.


Seus últimos 12 anos de vida, Engels dedicou-os à edição do segundo e terceiro volumes de “O Capital”. Ao morrer, no dia 14 de março de 1883, Karl Marx tinha concluído apenas o primeiro volume. Deixou anotações sem ordem, e Engels, o único capaz de empreendimento tão arrojado, dedicou-se a decifrar a letra do companheiro, apreender a essência do seu pensamento, concatenar as ideias e dar uma estrutura lógica, o mais próxima possível do modo de Marx expressá-las.


Engels passou a orientar o movimento operário europeu, respondendo a consultas sobre método, problemas localizados, criticando e estimulando camaradas. E nunca abandonou a condição de cientista social. A partir das pesquisas antropológicas de H. Morgan, lidas e anotadas por Marx, formulou a teoria marxista do Estado, na obra “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, cujos pressupostos já estavam em sua obra anterior e na de Marx, mas não de forma sistêmica e embasada na história e na antropologia. Seu último trabalho (1895) foi o prefácio à reedição de “As Lutas de Classe na França”, de Karl Marx. Nele, Engels faz considerações sobre o desenvolvimento da luta de classes e situa, pela primeira vez na teoria marxista, a distinção entre guerra de movimento e guerra de posições.


Na amplidão dos mares


No dia 5 de agosto de 1895, vitimado por um câncer no esôfago, falece Engels. Nos seus funerais, Wilhelm Liebknecht, líder operário alemão, discursou: “Nele, teoria e prática se fundiram num todo único”. Presentes, atendendo ao seu pedido, apenas alguns parentes e amigos. Um grupo menor ainda, no qual estava Eleanor, filha caçula de Marx, atendeu a outro desejo, lançando as cinzas do seu cadáver no mar de Eastbourne, a duas milhas da costa. Segundo Lênin, Engels foi “depois de Marx, o mais notável sábio e mestre do proletariado contemporâneo”.

José Levino

Historiador

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