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Há 87 anos, Dimitrov impôs a primeira derrota ao nazifascimo

Atualizado: Jul 2

Diante da necessidade de resgatar a história de luta dos revolucionários contra o fascismo, publicamos aqui o discurso de Dimitrov perante os tribunais fascistas, como forma de divulgar a atitude revolucionária e o exemplo deste herói, que apesar de não ser advogado, assumiu sua própria defesa e transformou o julgamento de Leipzig em uma tribuna de denúncia dos crimes do fascismo e a defesa do comunismo, da União Soviética, da Internacional, das forças da paz e do socialismo.



"Os nazistas já se encontravam em uma posição avançada para seus planos de confrontação mundial. Hitler havia sido escolhido como chanceler pelo presidente alemão Hindenburg, e a única força capaz de barrar os nazistas no parlamento era a bancada comunista. Banir o Partido Comunista era, portanto, o próximo passo dos nazistas.


A melhor oportunidade surgiu no dia 27 de fevereiro de 1933, quando um jovem holandês de origem germânica, Marinus von der Lubbe, militante de uma pequena organização chamada Conselhos Comunistas (de ideologia anarco-comunista), incendiou o Reichstag, sede do parlamento alemão. Os nazistas se apressaram em acusar o Partido Comunista Alemão (KPD) pelo incêndio. Vários militantes do KPD foram presos e Dimitrov acusado de arquitetar o plano.


Preso e levado a um tribunal nazista, Dimitrov foi acusado pessoalmente por Herman Göring, um dos principais dirigentes do partido nazista. Apesar de não ser advogado, Dimitrov assumiu sua própria defesa, transformando o julgamento de Leipzig em uma tribuna de denúncia dos crimes do fascismo e de defesa do comunismo na Bulgária e no mundo. Segundo o advogado estadunidense Arthur Garfield Hays – figura proeminente na defesa dos direitos humanos nos EUA –, “a defesa de Dimitrov foi a mais magnífica demonstração de coragem moral já vista em qualquer lugar


Incapaz de encontrar provas contra Dimitrov, o regime nazista foi obrigado a libertá-lo, mas as consequências políticas do incêndio doReichstagjá tinham sido produzidas. Quase todas as liberdades democráticas foram cassadas por um decreto assinado por Hitler e Hindenburg. Novas eleições foram convocadas com milhares de membros do KPD presos e os nazistas conquistaram a maioria no parlamento." (Extraído de Geórgi Dimitrov: herói da luta contra o nazifascismo)

O fascismo no banco dos reús: Dimitrov contra Göring

(Discurso final perante o tribunal nazista pronunciado em 1 de dezembro de 1933)


Dimitrov: Segundo o artigo 258 do Código Processual, tenho direito de falar como defensor e também como acusado.


O Presidente: Você tem o direito de falar por último e pode agora fazer uso desse direito.


Dimitrov: Em virtude do citado Código, tenho direito a contestar a acusação e, por tanto, de falar por último.


Senhores juízes, senhores fiscais, senhores defensores. Desde o começo da vista deste processo, há três meses, como acusado, dirigi uma carta ao Presidente do Tribunal. Naquela carta dizia que lamentava que as minhas intervenções deram lugar a incidentes, mas que rejeitava categoricamente que a minha conduta se interpretasse como um abuso deliberado do direito a formular perguntas e emitir declarações com fins propagandísticos.


Compreende-se que, desde o momento que fui acusado, apesar de ser inocente, tentei me defender por todos os meios que disponho...


Reconheço - dizia na minha carta - que não todas as perguntas foram formuladas corretamente, do ponto de vista da sua forma jurídica. Isto se explica pelo meu desconhecimento das leis alemãs. Ademais, é a primeira vez na minha vida que me vejo em um processo semelhante. Se tivesse um defensor da minha eleição, poderia evitar na sua totalidade estes incidentes desfavoráveis para a minha própria defesa. Nomeei a uma série de advogados: a Dechev, a Moro-Giaferi, a Campinchi, a Torrès, a Grigorov, a Leon Gallager (de Norteamérica) e ao Dr. Lehmann (de Saarbrücken). Mas o Tribunal do Reich, usando um outro pretexto, rejeitou todas as minhas designações, até negou permissão de entrada ao senhor Dechev.


Não tenho nenhuma desconfiança pessoal contra o senhor Doutor Paul Teichert, nem como pessoa nem como advogado, mas na atual situação da Alemanha, Teichert não merece a confiança necessária como advogado de ofício. Por isso, tento me defender eu mesmo, e as vezes, do ponto de vista jurídico, cometo erros.


Para a minha defesa diante deste Tribunal e, também para a correta marcha do processo, me dirijo outra vez, a última, a este Tribunal Supremo, pedindo que se designe ao advogado Marcel Villard, que já recebeu a autorização da minha irmã, para fazer a minha defensa. Se esta minha última proposta é também rejeitada, infelizmente, não terei outro meio a não ser de defender a mim mesmo na medida das minhas forças e com o que melhor sei.


Como esta proposta também foi rejeitada, decidi me defender. Já que não preciso do mel e do veneno da eloquência do defensor que me é imposto, me defendi o tempo todo sem a ajuda do advogado.


Naturalmente que não faço do meu o informe o informe do advogado Teichert. O que vou dizer em seguida é só o que deixam dizer perante o Tribunal até agora, é o que se deve ter em conta para a defesa. Eu não gostaria de ofender a Torgler que, ao meu entender, já foi ofendido o bastante por seu defensor, mas devo dizer abertamente: prefiro ser condenado à morte injustamente pela justiça alemã do que ser absolvido por uma defesa como a de Torgler feita pelo Dr. Sack.


O Presidente (interrompendo a Dimitrov): Aqui você não tem direito de criticar.


Dimitrov: A minha linguagem é apaixonada e dura, eu sei, mas também a minha luta e a minha vida foram sempre duras e apaixonadas. A minha linguagem é uma linguagem franca e sincera. Estou acostumado a chamar as coisas pelo seu nome. Não sou um advogado que defende por dever ao seu cliente.


Defendo a mim mesmo, como comunista acusado. Defendo a minha honra pessoal de comunista, a minha honra revolucionária.


Defendo as minhas ideias, as minhas convicções comunistas. Defendo o sentido e o conteúdo da minha vida.


Por esta razão, cada palavra pronunciada por mim perante o Tribunal é, poderíamos dizer, sangue do meu sangue e carne da minha carne. Cada palavra minha é a expressão da minha indignação mais profunda contra esta acusação injusta, contra o fato de que se atribuir aos comunistas um crime tão anticomunista.


Fui repreendido reiteradamente por não levar a sério ao Tribunal Supremo alemão. Esta censura é absolutamente injusta.


É certo que para mim, como comunista, a suprema lei é o programa da Internacional Comunista e o Tribunal Supremo a Comissão de Controle da Internacional Comunista.

Mas, como acusado, o Tribunal Supremo é para mim um tribunal perante o que é mestre para adotar uma atitude séria, não só pelo fato de estar integrado por juízes duma especial qualificação, senão também porque este Tribunal é um órgão sumamente importante do poder do Estado, um importante órgão do regime social imperante, Tribunal que pode condenar insuperavelmente a maior pena. Posso dizer com total tranquilidade perante o Tribunal, e, pelo tanto, perante a opinião pública também, que dizem a verdade e só a verdade em todas as intervenções. No que toca ao meu Partido situado na ilegalidade, me abstive de fazer qualquer classe de declaração. Falei sempre com seriedade e com sentimento da profunda convicção.


O Presidente: Não irei tolerar você de novo aqui, nesta sala, fazendo propaganda comunista. Estava fazendo todo o tempo. Vou te tirar a palavra caso continue.


Dimitrov: Devo rejeitar categoricamente a afirmação de tenho propósitos de propaganda. Poderá pensar que a minha defesa perante o Tribunal compartilhado certa eficácia propagandística. Admito que a minha conduta perante o Tribunal pode servir de exemplo para um comunista acusado. Mas não era esse o objetivo da minha defesa. O meu objetivo consistiu em rejeitar a acusação, segundo a qual, Dimitrov, Torgler, Popov e Tanev, o Partido Comunista da Alemanha e a Internacional Comunista tem algo a ver com o incêndio.


Sei que na Bulgária ninguém crê na nossa suposta participação no incêndio do Reichstag. Sei que no estrangeiro não há, em geral, ninguém que acredita nisto. Mas as circunstâncias ademais são distintas: podem achar tais afirmações estranhas. Por isso queria demonstrar que o Partido Comunista não teve nem tem nada a ver com o tal delito.

Se se fala de propaganda, tem que dizer que muitas das intervenções feitas perante o Tribunal tiveram este caráter. Também as intervenções de Göbbels e de Göring exercerão uma ação indireta de propaganda em prol dos comunistas, mas ninguém pode fazer deles responsáveis disso. (Animação e risos na sala)


A imprensa não só me difamou de todos os jeitos possíveis - isto é o que menos me preocupa - mas, em relação a mim, ela chamou o povo búlgaro de “selvagem” e “bárbaro”, fui chamado de “o tenebroso sujeito balcânico”, o “búlgaro selvagem”, e isto não pode passar por alto.


É certo que o fascismo búlgaro é selvagem e bárbaro. Mais a classe trabalhadora, os campesinos e os intelectuais populares da Bulgária, que estão do lado do povo, não são, de nenhum jeito, bárbaros ou selvagens. O nível material e cultural dos Balcãs não é indubitavelmente tão elevado como o de outros países europeus; mas, espiritual e politicamente, as massas populares do meu país não ocupam um nível mais baixo que as massas dos demais países europeus. Na Bulgária, as nossas lutas políticas, as nossas aspirações políticas, não são inferiores às de outros países. Um povo que viveu durante quinhentos anos baixo o jugo estrangeiro, sem perder o seu idioma, nem a sua nacionalidade, uma classe trabalhadora e uma massa campesina como as nossas que lutam, e seguem a fazendo contra o fascismo búlgaro e pelo comunismo, um povo assim não é bárbaro nem selvagem. Os bárbaros e selvagens na Bulgária são só os fascistas. Mas, pergunto, senhor Presidente: Em que país não são os fascistas bárbaros e selvagens?


O Presidente (interrompendo a Dimitrov): Você não mencionou, claro, a situação política de Alemanha?


Dimitrov (com um sorriso irônico): Naturalmente que não, senhor Presidente!

Muito antes da época em que o imperador alemão Carlos V tinha dito que "só falava em alemão com seus cavalos" e que os fidalgos alemães e a gente instruída escreviam só em latim e sentiam vergonha da língua alemã, na “bárbara” Bulgária, os apóstolos Cirilo e Método criaram e difundiram a antiga escritura búlgara. O povo búlgaro lutou com todas as suas forças e com todo entusiasmo contra o jugo estrangeiro. Por isso protesto contra os ataques dos que está sendo objeto o povo búlgaro. Não tenho porque me envergonhar de ser búlgaro e estou orgulhoso de ser filho da classe trabalhadora da Bulgária. Antes de abordar a questão de fundo, devo dizer o seguinte: o Dr. Teichert repreendeu que não nos colocássemos nós mesmos na situação de acusados pelo incêndio do Reichstag. A isto deve contestar que passou muito tempo desde que nos detiveram em 9 de março até que se abriu este processo. Neste tempo puderam investigar todos os fatores que deixavam margem para suspeitas. Durante a instrução do sumário falei com funcionários responsáveis da chamada “Comissão do Incêndio do Reichstag”. Estes funcionários disseram que os búlgaros não eram culpados do incêndio do Reichstag. Só se nos acusava de viver com passaportes falsos, baixo nomes falsos, sem inscrição, etc...


O Presidente: O que você acaba de dizer não foi discutido neste processo; portanto, você não tem direito de falar disso.


Dimitrov: Senhor Presidente, neste tempo teve que analisar todos os dados para descarregar oportunamente esta acusação. Na acusação disse que Dimitrov, Popov e Tanev afirmam ser imigrantes búlgaros. Porém, apesar disto, tem que considerar como provado que residiam na Alemanha para fazer trabalho clandestino. São, disse na ata da acusação, os "agentes do Partido Comunista de Moscou para preparar a insurreição armada".

Na página 83 da ata de acusação disse que, apesar de manifestar Dimitrov que esteve ausente de Berlim entre o 25 e o 28 de fevereiro, isto não altera nada, nem o livra da acusação de cumplicidade com o incêndio do Reichstag. Assim o testemunham - indica mais adiante a ata de acusação - não só as declarações de Hellmer senão também outros muitos feitos que indicam que...


O Presidente (interrompendo a Dimitrov): Você não deve dar leitura a ata de acusação porque já conhecemos o suficiente.


Dimitrov: Devo dizer que três quartos de todos os fiscais e defensores disseram aqui, perante o Tribunal, há tempo já que é conhecido por todos e, apesar isto, eles repetiram de novo. (Animação e riso na sala)


Hellmer disse que Dimitrov e Van der Lubbe estiveram no restaurante Bayernhof. Mais para frente lemos na ata de acusação:


"Ainda que Dimitrov não foi surpreendido em flagrante, interveio, porém, na preparação do incêndio do Reichstag. Viajou para Munique para preparar seu álibi. Os folhetos encontrados com ele demonstra que participava no movimento comunista alemão."

Tal era a base desta acusação prematura que resultou ser um aborto.


O Presidente (interrompendo a Dimitrov): Você não deve usar expressões como essa referindo-se a acusação.


Dimitrov: Buscarei outra expressão.


O Presidente: Mas não tão inadmissível.


Dimitrov: Volto aos métodos da acusação e a ata de acusação. O carácter deste processo estava traçado de antemão pela tese de que o incêndio do Reichstag era obra do Partido Comunista de Alemanha, e incluso do comunismo mundial. Este ato anticomunista, o incêndio do Reichstag, foi cobrado dos comunistas, apresentado como o sinal para a insurreição comunista, como sinal para fazer violar a Constituição alemã.


Imprimiram para todo o processo um selo anticomunista com ajuda desta tese. Na ata de acusação disse:


"...A acusação estima que este atentado criminal seria a chamada, o sinal, para os inimigos do Estado, quem se propunha empreender depois um ataque geral contra o Estado alemão com fim de destruí-lo e instaurar no seu lugar a ditadura do proletariado, o Estado Soviético, por obra e graça da Terceira Internacional..."


Senhores juízes: não é a primeira vez que responsabilizam aos comunistas semelhantes atentados. Não posso citar aqui todos os exemplos desta índole. Mencionarei o atentado ferroviário de Alemanha, (...) cometido por um aventureiro e provocador anormal. Difundiu-se daquele, durante semanas inteiras, não só na Alemanha senão também noutros países, a afirmação de que aquele atentado era obra do Partido Comunista da Alemanha, de que era um ato terrorista dos comunistas. Depois o autor resultou ser o anormal e aventureiro Matuschka, detido e condenado posteriormente. Lembrarei outro exemplo, o assassinato do presidente da República Francesa por Gorgulov. Também se disse então em todos os países que este atentado era obra dos comunistas. Gorgulov era apresentado como um comunista, como um agente soviético. E que resultou? Que o atentado fora organizado pelos guardas brancos, e Gorgulov resultou ser um provocador que queria conseguir a ruptura das relações entre França e a União Soviética.


Lembrarei também o atentado contra a catedral de Sófia. Este atentado não foi organizado pelo Partido Comunista da Bulgária. Mas o Partido foi perseguido. Dois mil operários, campesinos e intelectuais foram assassinados brutalmente pelos bandos fascistas, com o pretexto de que a catedral voou por causa dos comunistas. Este ato de provocação foi organizado pela polícia búlgara. Ainda em 1920, o próprio Prutkin, chefe da polícia de Sófia, organizou uma explosão de dinamite durante a folga de ferroviários, como meio de provocar aos operários búlgaros.


O Presidente (interrompendo a Dimitrov): Isso não tem relação com o processo.


Dimitrov: O funcionário de polícia Séller falou aqui da incitação comunista ao incêndio, etc... Perguntei se conhecia casos nos que os incêndios foram realizados pelos patrões e depois imputados aos comunistas. No Völkischer Beobachter do 15 de outubro disse que a polícia de Settin...


O Presidente: Este artigo não forma parte do processo...


Dimitrov tenta continuar.


O Presidente: Você não tem direito de falar disso, já que o feito não se mencionou durante o processo.


Dimitrov: Toda uma série de incêndios...


O Presidente interrompe outra vez a Dimitrov.


Dimitrov: Isto foi objeto de um atentado, porque toda uma série de incêndios foram imputados aos comunistas. Depois, resultou que foram obra dos patrões “com fim de proporcionar trabalho!”.


Lembrarei outro feito: a falsificação de documentos. Há uma grande quantidade de falsificações que foram empregadas contra a classe operária. Estes casos são muito numerosos. Só lembrarei a pretendida carta de Zinoviev, que foi uma falsificação, empregada pelos conservadores ingleses contra a classe operária. Lembrarei uma série de falsificações feitas aqui, na Alemanha...


O Presidente: Isso excede os marcos da investigação judicial.


Dimitrov: Afirmou-se aqui que o incêndio do Reichstag serviria de sinal para a insurreição armada. Tratou-se de demonstrar do seguinte jeito:


Göring disse perante o Tribunal que o Partido Comunista alemão se vira obrigado, desde o momento em que Hitler assumiu o poder, a sublevar o estado de ânimo das suas massas e intentar algo. Disse: "Os comunistas não tinham mais remédio para fazer algo, agora ou nunca!". Disse que o Partido Comunista levava já anos e anos chamando a luta contra o nacional-socialismo e que, desde o momento da toma do poder pelos nacional-socialistas, o Partido Comunista da Alemanha não tinha mais saída que lançar-se à ação. Agora ou nunca! O Fiscal Geral tratou de formular esta mesma tese com maior exatidão e ainda “mais habilmente”.


O Presidente: Não permitirei que você ofenda ao Fiscal Geral.


Dimitrov: O Fiscal Geral ampliou aqui, como acusador público, o afirmado por Göring. O Fiscal Geral, senhor Werner, disse:


"O Partido Comunista estava numa situação que necessitava empreender a retirada, sem combate, ou passar a ação com os preparativos ainda sem rematar. Era a única carta que lhe ficava ao Partido Comunista naquelas circunstâncias. Ou renunciar sem luta ao seu objetivo, ou lançar-se a um ato de desespero, jogou tudo: era o único que, naquelas circunstâncias, podia salvar a situação podia fracassar, mas ainda que assim fosse, a situação não seria pior que se o Partido Comunista retrocedesse sem luta."


A tese, que se lança e se atribui ao Partido Comunista, não é uma tese comunista. Uma hipótese dessa natureza demonstra que os inimigos do Partido Comunista da Alemanha não o conhecem. Para lutar com acerto contra o inimigo temos que conhecê-lo. A proibição do Partido, a dissolução das organizações de massas, a perda da legalidade, tudo isso representa, naturalmente, um duro golpe para o movimento revolucionário. Porém está longe de significar que com isso tudo está perdido.


Em fevereiro de 1933, o Partido Comunista estava abaixo de uma ameaça da ilegalidade. A imprensa comunista estava suspensa e era esperado a suspensão do Partido Comunista. O Partido Comunista da Alemanha sabia muito bem que em muitos países estavam proibidos os partidos comunistas, mas que, apesar disso, continuavam trabalhando e lutando. O Partido Comunista estava proibido na Polônia, na Bulgária, na Itália e em outros países. Eu posso falar disso sobre a base da experiência do Partido Comunista Búlgaro. Depois do Levantamento de 1923, o Partido Comunista Búlgaro foi proibido; mas continuava trabalhando e, ainda que com grandes custos, acabou sendo mais forte que em 1923. Qualquer pessoa com senso crítico pode entender. O Partido Comunista da Alemanha, ainda sendo ilegal, numa situação apropriada pode realizar a revolução. Demonstrado pela experiência do Partido Comunista da Rússia. O Partido Comunista da Rússia era ilegal, sofria sangrentas perseguições, mas com o tempo, a classe trabalhadora, com o Partido Comunista na vanguarda, chegou ao Poder. Os dirigentes do Partido Comunista da Alemanha não podiam pensar que "tudo estava perdido", nem que estavam diante do dilema de "insurreição ou morte!". A direção do Partido Comunista da Alemanha sabia perfeitamente que o trabalho ilegal custaria numerosos sacrifícios e exigiria valor e abnegação, mas também sabia que as suas forças revolucionárias se fortificavam e que seriam capazes de cumprir as tarefas que tinham confiado. Por isso, está absolutamente descartado que o Partido Comunista da Alemanha queria, naqueles momentos, arriscar tudo. Os comunistas não são, felizmente, tão míopes como os seus inimigos, nem perdem a cabeça nas situações difíceis. A isto deve-se acrescentar que o Partido Comunista da Alemanha e os demais Partidos Comunistas são Seções da Internacional Comunista. Que é a Internacional Comunista? Permite-me citar os seus estatutos.


O primeiro parágrafo dos estatutos diz assim:


"A Internacional Comunista, associação internacional dos trabalhadores, é a unificação dos Partidos Comunistas dos distintos países num único Partido Comunista mundial.

Como guia e organizador do movimento revolucionário do proletariado e porta-voz dos princípios e dos objetivos do comunismo, a Internacional Comunista luta pela conquista da maioria da classe trabalhadora e das extensas massas dos campesinos pobres, pela instauração da ditadura do proletariado, pela criação da Federação Mundial de Repúblicas Socialistas Soviéticas, pela supressão total das classes e pela realização do socialismo, primeira etapa da sociedade comunista."


Neste Partido Mundial de milhões de homens, que é a Internacional Comunista, o Partido mais forte é o Partido Comunista da União Soviética. É o Partido que governa a União Soviética, no maior Estado do mundo. A Internacional Comunista, o Partido Comunista mundial, analisa a situação política conjuntamente com a direção dos Partidos Comunistas de todos os países. A Internacional Comunista, pela qual todas as seções são diretamente responsáveis, não é uma organização conspiratória, senão um Partido mundial. Semelhante Partido mundial não joga com a insurreição, nem com a revolução. Semelhante Partido mundial não pode dizer oficialmente aos seus milhões de membros uma coisa e, ao mesmo tempo, fazer secretamente o contrário. Semelhante Partido, queridíssimo Dr. Sack, não conhece a contabilidade por dupla entrada!


Dr. Sack: Muito bem, continue com a sua propaganda comunista.


Dimitrov: Semelhante Partido, ao se dirigir aos milhões de proletários, ao adotar as suas decisões sobre a táctica e sobre as tarefas imediatas, faz isso seriamente, com plena consciência da sua responsabilidade. Citarei a resolução do XII Pleno do Comitê Central da Internacional Comunista. Já que no processo se falou destas resoluções tenho direito a lê-las.


Segundo estas resoluções, a tarefa fundamental do Partido Comunista Alemanha era a seguinte:


"Mobilizar as grandes massas de trabalhadores para a defensa dos seus interesses mais vitais, contra a feroz espoliação pelo capital monopolista, contra o fascismo, contra os decretos-leis, contra o nacionalismo e o chauvinismo, lutando pelo internacionalismo proletário e desenvolvendo as folgas econômicas e políticas e as manifestações, conduzindo as massas a greve geral; conquistar as principais massas da socialdemocracia, liquidar os aspectos fracos do movimento sindical. A principal palavra de ordem que o Partido Comunista alemão deve se opor é à ditadura fascista (o "Terceiro Império"), assim como a palavra de ordem da socialdemocracia (a "Segunda República") deve ser a República Operário Campesina, é dizer, a Alemanha Socialista Soviética, assegurando assim a possibilidade da incorporação voluntária dos povos de Áustria e das demais regiões alemãs."


Trabalho de massas, luta de massas, resistência de massas, frente única e nada de aventuras! - este é o princípio e o fim da tática comunista. Foi encontrado entre os meus papéis um chamamento do Comitê Executivo da Internacional Comunista. Entendo que este documento também pode ser citado aqui. Neste chamamento há dois pontos extremamente importantes. Falam de manifestações nos distintos países por causa dos acontecimentos da Alemanha. Falam das tarefas do Partido Comunista na luta contra o terror nacional-socialista, assim como da defesa das organizações e da imprensa da classe operária. Neste chamamento disse, entre outras coisas:


"A principal falha no caminho da formação da frente única de luta dos operários comunistas e socialdemocratas foi, e continua sendo, a política de conciliação com a burguesia, levada a cabo pelos partidos socialdemocratas, que abandonam hoje ao proletariado internacional baixo os golpes do inimigo de classe. Esta política de conciliação com a burguesia, conhecida com o nome de política do "mal menor", conduziu na prática, na Alemanha, ao triunfo da reação fascista.


A Internacional Comunista e os Partidos Comunistas de todos os países declararam repetidamente que estão dispostos a ir a luta conjunta com os operários socialdemocratas, contra a ofensiva do capital, contra a reação política e a ameaça de guerra. Os Partidos Comunistas foram os organizadores da luta conjunta dos operários comunistas, socialdemocratas e sem partido, apesar dos chefes socialdemocratas, sabotadores sistemáticos da frente única das massas operárias. Já em 20 de junho do último ano após a derrota do governo socialdemocrata prussiano por von Papen, o Partido Comunista da Alemanha contatou o Partido Socialdemocrata da Alemanha e com a sua Central Sindical Alemã para propor a organização de uma greve conjunta contra o fascismo. Mas o Partido Socialdemocrata e a Central Sindical Alemã, com a adesão de toda a Segunda Internacional, chamaram essa proposta de greve conjunta de provocação. O Partido Comunista da Alemanha formulou, de novo, ao subir Hitler ao poder, a proposta de organizar conjuntamente a resistência contra o fascismo, mas também obteve a negativa do Comitê Central do Partido Socialdemocrata e da diretiva da Central Sindical da Alemanha. Ainda mais, quando, em novembro do ano passado, os trabalhadores do transporte de Berlim declararam por unanimidade a greve contra a redução dos salários, a socialdemocracia sabotou a frente única de luta. A prática do movimento trabalhador internacional está cheia de exemplos semelhantes.


No chamamento lançado pelo Comitê da Internacional Trabalhadora Socialista, em 19 de fevereiro deste ano, figura a declaração de que os partidos socialdemocratas filiados a essa Internacional estão dispostos a estabelecer a frente única com os comunistas para lutar contra a reação fascista na Alemanha. Esta declaração é completamente contrária a todos os atos realizados até hoje pela Internacional Trabalhadora Socialista e pelos partidos socialdemocratas.


Toda a política e toda a atividade da Internacional Socialista até agora dão motivos a Internacional Comunistas e aos Partidos Comunistas para não acreditar na sinceridade da declaração do Comitê da Internacional Trabalhadora Socialista, que lança esta proposição em um momento em que uma série de países, e sobretudo na Alemanha, a mesma massa trabalhadora toma nas suas mãos a organização da frente única de luta.


Porém, frente ao fascismo, que ataca a classe operária alemã, que desencadeia todas as forças da reação mundial, o Comitê Executivo da Internacional Comunista incita a todos os Partidos Comunistas a que façam uma tentativa, mas para estabelecer por mediação dos Partidos Socialdemocratas a frente única com as massas operárias socialdemocratas. O Comitê Executivo da Internacional Comunista faz esta tentativa com a firme convicção de que a frente única da classe operária contra a burguesia rejeitaria a ofensiva do capital e do fascismo e aceleraria extraordinariamente o fim inevitável de toda exploração capitalista.


De acordo com as condições peculiares dos distintos países e a diferença das tarefas concretas das lutas formuladas frente a classe operária de cada um dos países, os acordos selados entre os Partidos Comunistas e os Partidos Socialdemocratas para traçar as ações contra a burguesia podem realizar com a máxima eficácia dentro do marco de cada país. Por isso, o Comitê Executivo da Internacional Comunista recomenda aos Partidos Comunistas que apresentem aos Comitês Centrais dos Partidos Socialdemocratas, que integram a Internacional Socialista, proposições congruentes, encaminhadas a realizar ações conjuntas contra o fascismo e contra a ofensiva do capital. Estas negociações devem ter como base as condições elementares da luta conjunta contra a ofensiva do capital e do fascismo. Sem um programa concreto de ações contra a burguesia, todo acordo entre os Partidos era dirigido contra os interesses da classe trabalhadora...


O Comitê Executivo da Internacional Comunista faz estas propostas frente a toda a classe trabalhadora internacional e incita a todos os Partidos Comunistas e, em primeiro lugar, ao Partido Comunista da Alemanha, a empreender imediatamente a organização de comitês conjuntos de luta, tanto com os trabalhadores social-democratas, como com os de todas as demais tendências, sem esperar os resultados das negociações e dos acordos com a socialdemocracia sobre a luta comum.


Com os seus muitos anos de luta, os comunistas demonstram que se encontram e se encontrarão sempre, não só em palavra, senão com atitudes, nas primeiras fileiras da luta pela frente única das ações de classe contra a burguesia.


O Comitê Executivo da Internacional Comunista está firmemente convencido de que os trabalhadores socialdemocratas e sem partidos, independentemente da atitude que os líderes da socialdemocracia mantenham em relação à criação da frente única, superarão todos os obstáculos e realizarão, juntamente com os comunistas, a frente única, não com palavras, mas com ações.


Hoje, precisamente, quando o fascismo alemão, com o objetivo de destruir o movimento operário na Alemanha, organizou uma provocação nunca vista (incêndio no Reichstag, falsificação de documentos de insurreição), todo trabalhador deve ter claro o seu dever de classe na luta contra a ofensiva do capital e contra a reação fascista.


Esse apelo não contém uma única palavra sobre a luta imediata pelo poder. Essa tarefa não foi formulada nem pelo Partido Comunista da Alemanha, nem pela Internacional Comunista, mas eu poderia dizer que o apelo da Internacional Comunista prevê a possibilidade de uma insurreição armada.


A partir disso, o Tribunal tirou a conclusão de que, já que o Partido Comunista tem como objetivo a insurreição armada, significa que isso estava sendo preparado e explodiria imediatamente. Mas isso é ilógico e errôneo, para não usar palavras mais fortes. Sim, lutar pela ditadura do proletariado é, naturalmente, a missão do Partido Comunista do mundo inteiro. Esse é o nosso princípio, o nosso objetivo, mas este é um programa concreto, cuja realização requer as forças não só da classe operária, mas também das outras camadas das massas trabalhadoras. Todo o mundo sabe que o Partido Comunista da Alemanha era um defensor da revolução proletária, mas não é essa a questão que precisa ser exibida nesse processo. O problema é se a insurreição foi realmente sinalizada para tomar o poder em 27 de fevereiro, em conexão com o incêndio do Reichstag.


Qual foi o resultado do resumo, senhores juízes? A lenda, segunda a qual o incêndio do Reichstag foi obra dos comunistas, foi diluída. Não citarei aqui as declarações das testemunhas, como fizeram os outros defensores. Porém, para toda pessoa que está em sã consciência, essa questão pode ser considerada completamente elucidada. O incêndio do Reichstag não está absolutamente ligado à atuação do Partido Comunista, nem com a insurreição, nem mesmo com as manifestações, greves ou outras ações de natureza semelhante. Isso é absolutamente demonstrado pelo resumo. O incêndio no Reichstag, não me refiro as afirmações de delinquentes ou anormais, não foi interpretado por ninguém como um sinal para a insurreição. Ninguém percebeu nenhum ato destinado à insurreição após o incêndio do Reichstag. Todas as lendas espalhadas nesse sentido nasceram depois. Os trabalhadores estavam na defensiva diante do avanço do fascismo. O Partido Comunista da Alemanha estava tentando organizar a resistência das massas, a sua defesa. E foi demonstrado que o incêndio do Reichstag era o pretexto, o limiar de uma ampla cruzada de aniquilação da classe operária e da sua vanguarda, o Partido Comunista da Alemanha. Demonstrou-se irrefutável que os representantes responsáveis do governo nem sequer pensaram, nos dias 27 e 28 de fevereiro, na possibilidade de que havia explodido uma insurreição comunista. A respeito disso, formulei muitas perguntas às testemunhas citadas neste processo. Interroguei principalmente a Seller, o famoso Karwahne (hilaridade na sala), a Frey, o conde de Helldorf, os policiais. Apesar das distintas versões, todos concordaram que não haviam ouvido nada sobre a iminente insurreição comunista. Isso significa que nenhuma ação foi tomada nos círculos governamentais.


O Presidente: Uma comunicação do chefe do Departamento de Polícia do Oeste sobre esse assunto foi apresentada ao Tribunal, no entanto.


Dimitrov: O chefe do Departamento da polícia do Oeste expõe na sua comunicação que Göring o chamou dando instruções verbais sobre a luta contra o Partido Comunista, ou seja, sobre a luta contra comícios, greves, manifestações, campanhas eleitorais comunistas, etc... Mas esta comunicação não fala de que se adotaram medidas contra uma insurreição comunista iminente.


O advogado Seuffert também falou aqui ontem sobre isso, e tirou a conclusão de que nos círculos do governo naquele momento ninguém esperava a insurreição. Seuffert referia-se a Göbbels, ao indicar que este, num primeiro momento, não havia dado crédito a notícia do incêndio no Reichstag. Não nos cabe saber se foi assim ou não.


Nesse sentido, também constitui uma prova o decreto-lei do governo alemão, emitido em 28 de fevereiro de 1933. Esse decreto foi promulgado imediatamente depois do incêndio. Leia esse decreto. O que diz? Diz que ficam revogados alguns artigos, ou seja, os artigos que dizem respeito à liberdade de associação e de imprensa, a inviolabilidade do povo, dos domicílios, etc... Nisso consiste a essência do citado decreto-lei, do seu segundo artigo. A cruzada contra a classe trabalhadora.


O Presidente: Não contra a classe trabalhadora, sim contra os comunistas...


Dimitrov: Devo dizer que mediante este decreto-lei não só comunistas, mas também trabalhadores socialdemocratas e cristãos foram detidos e suas organizações foram dissolvidas. Gostaria de enfatizar que este decreto-lei não foi dirigido apenas contra o Partido Comunista da Alemanha, ainda que fosse principalmente contra ele, mas também contra os demais partidos e grupos da oposição. Esse decreto era necessário para implantar o estado de alarme e estava relacionado diretamente e organicamente com incêndio do Reichstag.


O Presidente: Se ataca o governo alemão, retirar-lhe-ei a palavra.


Dimitrov: Nesse processo, há um problema que ainda não foi tratado.


O Presidente: Você deve dirigir-se aos juízes e não ao público, caso contrário o seu discurso será considerado como propaganda.


Dimitrov: Uma questão permanece não resolvida pela promotoria e pelos defensores. Não me estranha que a consideraram desnecessária. Temem muito a essa questão. É a questão da situação política de Alemanha em fevereiro. Devo insistir um pouco nessa questão.

No final de fevereiro, a situação política era tal que, no campo da frente nacional estava a brotar uma luta...


O Presidente: Você entrou de novo num assunto que já lhe proibir de tratar mais de uma vez.


Dimitrov: Gostaria de recordar meu pedido ao juiz de citar uma série de testemunhas: Schleicher, Brünig, von Papel, Hugenberg, Düsterberg, o antigo vice-presidente da organização Stahlhelm, e outros.


O Presidente: Entretanto o Tribunal negou a citação destas testemunhas. Portanto, você não deve insistir nisto.


Dimitrov: Eu sei, e também sei a razão.


O Presidente: Incomoda-me ter que interrompê-lo constantemente nas suas palavras finais, mas você deve seguir minhas instruções.


Dimitrov: Esta luta interna dentro do campo nacionalista se desenvolve como consequência da luta travada nos bastidores nos círculos financeiros. Por uma lado, os círculos de Thyssen e Krupp (indústria da guerra), que durante muitos anos subsidiaram o movimento nacional-socialista, e, por outro, os seus concorrentes, que devem ser desprezados em um segundo plano. Thyssen e Krupp queriam implantar no país o princípio do poder pessoal e o regime absoluto baixo da sua direção prática, o princípio da franca redução do nível de vida da classe trabalhadora, pelo o qual eles tiveram que esmagar o proletariado revolucionário. Naquela época, o Partido Comunista estava pulando para criar a frente única, com o objetivo de unificar as forças para a defesa contra as tentativas dos nacional-socialistas de destruir o movimento operário. Uma parte dos operários socialdemocratas sentiam a necessidade da frente única da classe operária. Compreendi. Muitos milhares de operários socialdemocratas passaram para as fileiras dos comunistas. Mas, em fevereiro e março, a tarefa de estabelecer a frente única não significava totalmente em uma insurreição, nem a sua preparação; só significava a mobilização da classe operária contra a cruzada de espoliação dos capitalistas e contra a violência dos nacional socialistas.


O Presidente (interrompendo a Dimitrov): Você sempre disse que a sua única preocupação era a situação política de Bulgária, mas as suas manifestações atuais demonstra que sempre seguiu também com grande interesse os assuntos políticos alemães.


Dimitrov: Senhor Presidente! Você está me censurando. Posso objetar da seguinte maneira: me interesso, como revolucionário búlgaro, pelo movimento revolucionário de todos os países; me interesso, por exemplo, pelos problemas políticos da América do Sul, problemas que conheço talvez não, mas isso importa para a Alemanha, embora eu nunca estive na América. Aproveitarei para dizer que isso não significa que, na América do Sul algum parlamento veio a queimar, se eu fosse culpado. Durante o sumário desse processo conheci muitos detalhes. Na situação política daquele período havia dois fatores fundamentais: primeiro, a tendência dos nacional-socialistas a alcançar a dominação exclusiva; o segundo fator, ao contrário do primeiro, era a situação do Partido Comunista, encaminhada a criação da frente única dos operários. Ao meu entender, isso se revelou também durante o sumário deste processo. Os nacional-socialistas necessitavam uma manobra para distrair a atenção das dificuldades existentes no campo nacional e falhar a frente única dos operários. O "governo nacional", revogando a liberdade de imprensa a de inviolabilidade do povo e instaurando o sistema de repressão policial, de campos de concentração e outras medidas de luta contra os comunistas.


O Presidente (interrompendo a Dimitrov): Você atingiu o máximo, fez alusões.


Dimitrov: Só quero examinar a situação política da Alemanha nas vésperas do incêndio do Reichstag, como entendo.


O Presidente: Não é este o lugar para fazer alusões referidas ao governo e para afirmações refutadas há muito.


Dimitrov: A classe operária tinha que se defender com todas as suas forças e, para este objetivo, o Partido Comunista tentava organizar a frente única, apesar da resistência de Wels e Breitscheid, que agora no exterior ouvem seus berros histéricos.


O Presidente: Se quer, você deve entrar na sua defesa; do contrário, não vai ficar tempo suficiente.


Dimitrov: Já declarei antes que num ponto estou de acordo com a ata de acusação. E agora vou confirmar. Se trata da questão de se Van der Lubbe cometeu o incêndio só ele ou teve cúmplices. O representante da acusação, Parisius, declarou aqui que a forma de resolver a questão de se Van der Lubbe teve ou não cúmplices determinaria a sorte dos acusados. E a isto, contexto: Não, mil vezes não! A conclusão do Fiscal não é lógica. Eu entendo, efetivamente, que Van der Lubbe não incendiou só ele o Reichstag. Com base nos relatórios de especialistas e nos dados resumidos, chego à conclusão de que o incêndio na sala de reuniões do Reichstag era um tipo diferente do restaurante no térreo, e assim por diante. A sala de reuniões foi incendiada por outras pessoas e por outros meios. O incêndio de Lubbe e o incêndio na sala de reuniões só coincidem no tempo; no resto são radicalmente distintos. O mais provável é que Lubbe fosse um instrumento inconsciente nas mãos desses homens, instrumento que estes abusaram. Van der Lubbe não diz aqui tudo o que sabe. Continua obstinado no seu silêncio. Como resolver esse problema não decide o destino dos réus. Van der Lubbe não estava sozinho, mas nem Torgler, nem Popov, nem Tanev, nem Dimitrov estavam com ele. Em 26 de fevereiro, Van der Lubbe encontraria na cidade de Hennigsdorf, com segurança, uma pessoa a quem confiasse seu objetivo de incendiar a prefeitura e o palácio. Essa pessoa sugeriu a ele que tais incêndios eram apenas "jogos de crianças", que o verdadeiro feito seria incendiar o Reichstag durante as eleições. E assim, de uma aliança misteriosa entre loucura política e provocação política, nasceu o incêndio do Reichstag. O aliado que representava loucura política está no banco dos réus. Aliados representando provocação política permanecem à solta. O tolo de Van der Lubbe não poderia saber, então, que, enquanto se divertia com suas tentativas desajeitadas de atear fogo no restaurante, no corredor e no primeiro andar, naquele exato momento, estranhos usando combustível líquido, (...) atearam fogo na sala de sessões.


(Van del Lubbe começa a rir. Uma risada contida sacode todo o corpo. A atenção de toda a câmara, dos juízes e dos réus está concentrada em Van der Lubbe)


Dimitrov (apontando para Van der Lubbe): O provocador desconhecido se preocupou com todos os preparativos para o incêndio. Este Mefistófeles sabia como desaparecer sem deixar rastros. E aqui só temos o estúpido "instrumento", pobre Faustus, mas Mefistófeles desapareceu... Mais provável que tenha sido em Hennigsdorf onde a ponte foi construída entre Lubbe e os representantes da provocação política, agentes dos inimigos da classe trabalhadora.


O procurador-geral da República, Werner, disse aqui que Van der Lubbe é comunista; ele também disse que, embora não fosse comunista, realizou seu trabalho no interesse do Partido Comunista ou manteve relações com ele. É uma afirmação falsa. Quem é Van der Lubbe? Comunista? De jeito nenhum! Anarquista? Não! Ele é um trabalhador degenerado, um lumpem rebelde, um ser que foi abusado, usado contra a classe trabalhadora. Mas Lubbe não é comunista! Ele não é um anarquista! Não existe um único comunista no mundo, um único anarquista, capaz de seguir no processo uma conduta como a que Van der Lubbe seguiu até agora. Os verdadeiros anarquistas podem cometer atos tolos, mas no tribunal eles respondem e explicam seus objetivos. Se um comunista pudesse realizar um ato semelhante, ele não permaneceria calado no processo, quando homens inocentes sentassem no banco dos réus. Não. Van der Lubbe não é comunista, nem é anarquista; é um instrumento que o fascismo abusou.


Nem o presidente da fração comunista do Reichstag, nem os comunistas búlgaros podem ter algo em comum com este homem, com este instrumento que foi abusado, usado para prejudicar o comunismo. Devo lembrar aqui que, na manhã de 28 de fevereiro, Göring emitiu uma declaração sobre o incêndio, dizendo que Torgler e Koenen haviam fugido do prédio do Reichstag às dez horas da noite. Esta notícia foi espalhada por todo o país. O comunicado disse que o incêndio foi realizado por comunistas. Ao mesmo tempo, a trilha de Van der Lubbe em Hennigsdorf não foi seguida. O indivíduo que conheceu Van der Lubbe e passou a noite no asilo da polícia de Hennigsdorf não foi encontrado...


O Presidente (interrompendo Dimitrov): Quando você planeja terminar seu discurso?


Dimitrov: Proponho falar por mais uma meia hora. Eu tenho que declarar minha opinião sobre este ponto...


O Presidente: Mas você não pode falar indefinidamente.


Dimitrov: Durante os três meses em que o processo durou, você, Sr. Presidente, me obrigou inúmeras vezes a permanecer em silêncio, com a promessa de que no final eu poderia falar longamente em minha defesa. Esse momento chegou, mas, apesar de sua promessa, ele novamente restringe o direito de falar. A questão de Hennigsdorf é de extraordinária importância. Waschinski, o indivíduo que passou a noite com Van der Lubbe, não foi encontrado. Meu pedido para que o procurassem foi descrito como desnecessário. A alegação de que Lubbe havia cumprido em Hennigsdorf com os comunistas é uma mentira forjada por uma testemunha nacional-socialista, o barbeiro Grawe. Se Van der Lubbe tivesse se encontrado em Hennigsdorf com comunistas, esse ponto teria sido investigado há muito tempo, Senhor Presidente. Ninguém se preocupou em procurar Waschinski!


A pessoa que vestia a paisana e apareceu na delegacia de Brandemburgo com as primeiras notícias sobre o incêndio no Reichstag não foi revistada e permanece não identificada até hoje. A instrução sumária foi orientada em um sentido falso. O deputado nacional-socialista Dr. Albrecht, que deixou o Reichstag imediatamente após o incêndio, não foi questionado. Foi pesquisado nas fileiras do Partido Comunista, e isso é um erro. Isso deu a possibilidade de os incendiários reais desaparecerem. Já foi dito: como não capturamos nem ousamos capturar os verdadeiros culpados do incêndio, devemos capturar outros, os "incendiários substitutos", por assim dizer.


O Presidente: Proíbo que você se expresse dessa maneira. Ele só tem mais dez minutos.


Dimitrov: Tenho o direito de formular e motivar propostas sobre a decisão. Em seu discurso, o Procurador Geral estimou que as declarações dos comunistas não mereciam credibilidade. Eu não tomo uma posição semelhante. Não posso afirmar, por exemplo, que todas as testemunhas nacional-socialistas são mentirosas. Eu acho que entre os milhões de nacional-socialistas também existem pessoas honestas.


O Presidente: Proíbo ataques violentos.


Dimitrov: Não é significativo que todas as principais testemunhas sejam deputados nacional-socialistas e apoiadores do nacional-socialismo? O deputado nacional-socialista Karwahne disse que viu Torgler com Van der Lubbe no edifício do Reichstag. O deputado nacional-socialista Frey afirmou que tinha visto Popov com Torgler no prédio do Reichstag. O garçom nacional-socialista Hellmer afirmou ter visto Van der Lubbe com Dimitrov. O jornalista nacional-socialista Weberstedt disse ter visto Tanev com Lubbe. O que é isso? Uma coincidência? Ou de outro Dröscher, que se apresentou aqui como testemunha e, ao mesmo tempo, editor do Völkischer Beobachter, onde assina com o nome de Zimmermann...


O Presidente (interrompendo Dimitrov): Isso não foi provado.


Dimitrov: ...Ele alegou que Dimitrov foi o organizador do ataque à Catedral de Sófia, algo que foi desmentido, e que ele me viu, talvez, com Torgler no Reichstag. Ele declarou com absoluta certeza que Dröscher e Zimmermann são a mesma pessoa...


O Presidente: Isso não foi provado. Rejeito.


Dimitrov: O policial von Seller citou aqui um poema comunista de um livro publicado em 1925, para mostrar que em 1933 os comunistas incendiaram o Reichstag. Permitam-me também citar um verso do maior poeta da Alemanha, Göthe:


"Abra seus olhos a tempo!

A grande roda do dedo

Ele raramente para; ou ganhar ou perder;

vencer é comandar, ou submeter e perder,

seja colhido ou martelado!

Se ele não quer ser colhido, ele precisa ser martelado."


A classe trabalhadora alemã, como um todo, não entendeu essa verdade, nem em 1918, nem em 1923, nem em 20 de julho de 1932, nem em janeiro de 1933. Os culpados disso são os líderes socialdemocratas, os Wels, os Severing, os Brauns, os Leiparts, os Grassmans. É claro que agora os trabalhadores alemães poderão entender ou entenderão. Houve muita conversa aqui sobre o direito e as leis alemãs e eu queria expor minha opinião. Não há dúvida de que as combinações políticas do momento e as tendências políticas dominantes estão sempre latentes nos erros de justiça. O ministro da Justiça Kerl, que é uma testemunha competente deste Tribunal, diz o seguinte:


“O preconceito da lei formalmente liberal é afirmar que o culto à justiça deve ser objetividade. Agora também descobrimos a fonte do divórcio entre o povo e a justiça. O que é objetividade? Nos tempos em que os povos lutam por sua existência, eles conhecem objetivamente o soldado lutando na guerra ou o oponente? Soldados e exércitos sabem apenas uma coisa, têm apenas um pensamento, sabem apenas uma preocupação: como salvar a liberdade e a honra, como salvar a nação. É evidente, então, que a justiça de um povo que luta com a vida ou a morte não pode se prostrar diante de uma objetividade morta. As medidas da Tribunal, da acusação e da defesa devem ser inspiradas exclusivamente por uma única consideração: o que isso implica para a vida da nação? O que salvará as pessoas? Mas a objetividade dos invertebrados, que significa estagnação e, portanto, divórcio com o povo, não. Todos os atos, todas as medidas da comunidade como um todo, e de cada pessoa separadamente, devem estar subordinados às necessidades vitais do povo, da nação."


Portanto, lei é um conceito relativo...


O Presidente: Isso não tem nada a ver com o assunto. Faça seus próprios pedidos.


Dimitrov: O Procurador-Geral pediu a absolvição dos acusados búlgaros por falta de provas. Mas para mim não é suficiente, por qualquer meio. A questão está longe de ser tão simples. Isso não descartaria suspeitas. Não, durante o processo foi demonstrado que não temos nada a ver com o incêndio do Reichstag. Por isso, não há espaço para qualquer tipo de suspeita. Nós búlgaros, como Torgler, também devemos ser absolvidos, não por falta de provas, mas porque nós, como comunistas, tínhamos e não podíamos ter nada a ver com esse ato anticomunista. Peço que a decisão seja a seguinte:


1) O Supremo Tribunal deve reconhecer nossa inocência e a acusação deve ser julgada improcedente como falso, em relação a Torgler, Popov, Tanev e eu.

2) Que Van der Lubbe seja considerado um instrumento usado contra a classe

trabalhadora.

3) Os autores da acusação injustificada contra nós serão responsabilizados por esta

tribunais.

4) Que os culpados sejam compensados pela perda de tempo, falhas de saúde e

os sofrimentos sofridos por nós.


O Presidente: O Tribunal considerará essas que você chama de petições ao discutir a decisão.


Dimitrov: Chegará o dia em que essas solicitações serão mais do que atendidas. Quanto ao esclarecimento concreto do incêndio no Reichstag e à identificação dos incendiários reais, isso permanecerá, é claro, no Tribunal Popular da futura ditadura do proletariado.


No século XVII, o fundador da física científica, Galileu, compareceu ao Tribunal da Inquisição, que o condenaria à morte por heresia. Galileu exclamou perante seus juízes com profunda convicção: "No entanto ela se move!". E com o tempo, essa tese científica tornou-se patrimônio de toda a humanidade.


O presidente, interrompendo Dimitrov, levanta-se, pega os papéis e se prepara para se retirar.


Dimitrov: Nós, comunistas, podemos dizer hoje, não menos convencidos do que o velho Galileu: "No entanto ela se move!"


A roda da história gira, avança em direção à Europa soviética. E ninguém será capaz de parar esta roda empurrada pelo proletariado, sob a liderança da Internacional Comunista. Nem com medidas de extermínio, nem com sentenças ao trabalho forçado, nem com sentenças de morte. A roda gira, continuará girando até o triunfo final do comunismo!

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