Clodomir Morais: “Vícios (ou desvios ideológicos) determinados pelas formas artesanais de trabalho”

Toda empresa tem inimigos, seja a empresa agrícola, a industrial, a militar (um exército), a política (um partido ou um sindicato), a empresa de serviços (um ministério), a desportiva (uma equipe de futebol), etc.


Em toda empresa existem inimigos externos e internos. Na empresa de serviços, na empresa de produção, quer seja agrícola ou industrial, seus integrantes identificam facilmente os inimigos externos da empresa: o fazendeiro, algum político atrasado, um padre reacionário, um parceleiro individualista, o camioneiro, o agiota, etc.



Estes inimigos externos agem sempre no sentido de desintegrar e finalmente eliminar a empresa coletiva. A ação dos inimigos externos (igual à ação dos inimigos internos), está sempre dirigida contra dois elementos fundamentais de qualquer empresa: a unidade e a disciplina. São fundamentais porque a partir da ruptura da unidade e da disciplina começa a se desintegrar a empresa.


O que os associados de uma empresa coletiva ou associativa, geralmente não conseguem identificar facilmente é o inimigo interno, ou os inimigos internos da empresa, vez que esta identificação exige alguma análise e conhecimento de mecanismos apropriados.


Os inimigos internos de uma empresa associativa e mais ainda na empresa política se identificam nos vícios das formas artesanais de trabalho, que se manifestam minando pouco a pouco a unidade e a disciplina. Tais vícios são herdados das formas artesanais de trabalho predominante nas sociedades de desenvolvimento econômico incipiente, baseada em pequenas empresas ou em empresas de tipo familiar de pouca divisão social do trabalho.


Os vícios das formas artesanais de trabalho que incidem contra a unidade a disciplina dentro da empresa coletiva, quanto a seu caráter ou origem se classificam em oportunistas e subjetivistas. No primeiro caso, o caráter oportunista do vício se manifesta como um reflexo de uma sub ideologia gerada pela propriedade privada dos meios de produção. No segundo caso, o caráter subjetivista do vício se manifesta como um reflexo de uma sub ideologia gerada pela visão idealista determinada pelas formas artesanais de trabalho. É certo que, também existem vícios ou desvios ideológicos gerados pelas formas sociais de trabalhos inerentes ao Modo de Produção Capitalista e ao Modo de Produção Socialista, que no entanto, não estão previstos para serem tratados neste ensaio.


Mesmo quando se trata de pessoas integradas em Empresas de tipo Grande e de ampla Divisão Social do Processo Produtivo, elas não estão totalmente imunes ou preservadas dos vícios que definem o comportamento ideológico gerado pela Empresa de tipo Artesanal. É que notadamente nos países ou regiões de incipiente desenvolvimento econômico, predominam as Empresas Pequenas, de dimensão familiar; enquanto muitos países ou regiões desenvolvidas ainda guardam intactos os aspectos principais do comportamento ideológico imposto pela empresa artesã.


Trata-se do comportamento humano gerado em Empresas Pequenas de tamanho familiar (que evidentemente inclui a própria Empresa Doméstica - o Lar) os quais não desenvolvem fundamentalmente atividades econômicas racionais (em atividades lucrativas) senão que se reduz ao marco da atividade costumeira tradicional, alheia ao princípio básico da racionalidade econômica que busca maximizar os resultados econômicos mediante a quantificação do fim e dos meios da atividade de caráter lucrativo.


Por outro lado, nascida antes do aparecimento da Economia Mercantil, a Empresa Doméstica por seu caráter, e ainda por suas dimensões, comporta pouca Divisão Social do Trabalho e muito menos ainda a Divisão Técnica do Trabalho (Divisão Social do Processo Produtivo). O cabeça da família quase não difere do mestre artesão da Idade Média. Este se apropria do “produto a mais” de seus discípulos e o cabeça da família faz o mesmo, seja no marco da Economia Natural ou seja na Economia Mercantil Simples. Desse modo (no caso de estar situado na Economia Mercantil Capitalista) acrescenta à apropriação do sobreproduto do cônjuge e dos filhos que explora, a reposição social e biológica da força de trabalho que o capitalismo geralmente impõe à mulher.


EXEMPLOS DE ALGUNS VÍCIOS DETERMINADOS PELAS FORMAS ARTESANAIS DE TRABALHO


Individualismo


O individualista é o tipo oportunista que acredita apenas no indivíduo e sempre o coloca em plano superior à organização. Sempre desconfia ou não acredita na ação organizada; age sozinho e não gosta de associar-se. Seu lema é “cada qual para si e Deus para todos”, ao contrário do lema “cada qual com seu Deus e todos por todos”.


Ao defender o indivíduo, o individualista tem presente a defesa de seu próprio interesse. Nas reuniões ou assembleias não ouve ninguém e se considera uma pessoa com direito de falar por longo tempo. Pelo fato da ação organizada implicar na distribuição equitativa de sacrifícios e prazeres, o individualista não gosta que se organizem as ações.


Nas reuniões em que se divide o tempo democraticamente, para que todos tenham direito de expressar suas opiniões, o individualista não tem muita oportunidade de usar muito tempo para conduzir as coisas conforme seu interesse pessoal, sobretudo se não as pode sintetizar para resumi-las em poucos minutos. Aqui é quando ele então, estrila injustamente contra a suposta falta de liberdade. É que para o individualista, a liberdade individual (sua liberdade pessoal de fazer o que lhe dá vontade) está acima da liberdade de todos os demais companheiros.


Como todo oportunista, o individualista busca que seu interesse esteja acima dos interesses dos demais.


Personalismo


O personalista está sempre defendendo ou cuidando de seus interesses pessoais.


Sempre atribui a si os êxitos conseguidos ou os frutos de um empreendimento ou de uma ação. Quase sempre diz: “Eu fiz”, ao invés de “nós fizemos”; ao invés de dizer “Tem-se conseguido melhorar a organização”, o personalista diz: “eu consegui melhorar, etc.”. Desse modo como todo oportunista, busca sempre o melhor e o mais vantajoso para si e por isso não deixa que seus companheiros tenham sucesso como representantes da empresa em postos, solenidades, reuniões ou entrevistas com pessoas importantes. “A empresa sou eu”: Ele procura ter mais prestígio, mais vantagens que os demais a fim de obter mais prazeres ou mais bens materiais.


O personalista quase sempre põe sua personalidade acima da empresa. Sua palavra ou sua atitude impensada, ele julga mais importante que as decisões ou normas da empresa. Visando não perder o prestígio pessoal (do qual ele vive) jamais diz não aos que lhe solicitam algo que contraria as decisões ou normas da empresa.


É pródigo, e como se fosse o único dono de tudo, o personalista fácil e irresponsavelmente distribui ou empresta os bens ou os serviços da empresa. Diga-se de passagem, que o personalista em geral é paternalista distribuindo pessoalmente atenções e favores. Pouco a pouco vai domesticando os associados mais acomodados da empresa, ou seja: aqueles que não se importam em fechar os olhos aos erros do personalista, sempre e quando continue podendo compartilhar das migalhas que sobram do “domesticador” o personalista.


O personalista centraliza todas as tarefas; não as distribui entre seus companheiros. Desse modo não forma quadros substitutos porque nunca dá chance para que outros exerçam o poder. É o mais desprezível dos artesãos. Quando morre, ninguém pode substituí-lo; deixa a empresa acéfala, ou seja, sem cabeça.


Quanto mais se eleva o nível de organização de uma empresa ou associação, maior é a ação coletiva de todos os associados tornando desse modo mais equitativa a participação de cada um. Isso cria um grande problema para o oportunista de tipo personalista, pois sente que vai ser eclipsado pela organização e sua pessoa vai desaparecendo no anonimato das ações coletivas.


Nestes casos para não perder sua posição, seu prestígio, o personalista apela para o grupismo e daí, não vacila em dividir a empresa, fracionando-a em dois pedaços.


Espontaneísmo


O espontaneísta é resistente ao planejamento dos trabalhos ou de ações e muito menos age conforme um plano de trabalho. Ele prefere realizar as tarefas que lhe são agradáveis ou mais convenientes como também as realiza no momento que mais lhe agrada ou que mais lhe convém.


Não planeja nada, vive sempre o momento imediato conforme seus interesses pessoais, pois se ele se submete a um plano de trabalho não poderá atender a seus assuntos pessoais pendentes. Quando um associado propõe planejar uma ação qualquer, o espontaneísta se irrita e em seguida alega: “somos pessoas responsáveis e experientes. Já sabemos muito bem o que devemos fazer”.


O espontaneísta não tem horário. Para ele o relógio não passa de um simples objeto de adorno. Não tem hora nem data certa para nada. Se um associado lhe perguntar: quando vamos realizar tal coisa? ele responde: qualquer dia, qualquer hora. A menor unidade de tempo que conhece é “um momento”, a outra unidade de tempo é ainda mais imprecisa, está contida em “dentro de um instante”. As ações são marcadas para depois do almoço, para amanhã, para a próxima semana, próximo mês, próximo ano. Trata-se pois de datas imprecisas, indefinidas, que o espontaneísta propõe para que lhe sobre tempo para cuidar de seus problemas pessoais antes de cuidar das questões da empresa.


Desse modo, pelo seu caráter oportunista, o espontaneísta tem pavor da ação planejada e mais ainda, quando no planejamento se estabelecem um cronograma para os trabalhos.


Sabendo que os trabalhos planejados não lhe deixam espaço para dedicar-se a seus assuntos ou ao que mais lhe agrada em detrimento dos interesses da empresa, o espontaneísta começa logo a tachar de burocratismo à ação planejada. Quase sempre vomita frases como estas: “necessitamos de mais ações e de menos planos de organização: aquele que muito planeja e muito organiza, nada realiza”.


Anarquismo


O anarquista reage à organização das coisas ou das ações. Não controla nem contabiliza os recursos. É um homem desorganizado. Dirige uma empresa como se dirigisse uma bodega; dinheiro entra, dinheiro sai e ele não anota nada. O anarquista se irrita quando vê as coisas muito organizadas.


Uma reunião dirigida por alguém com tendência anarquista vira uma grande bagunça.

Em função da ausência de organização em que prima a tendência anarquista, os participantes agem como se fossem um grande grupo de “baratas tontas”.


O anarquista é um tipo de oportunista que repele qualquer plano organizado, pois receia estar metido “em uma camisa de força”, na qual não terá chances de dar prioridade a seus assuntos pessoais. Além disso, por experiência própria sabe que onde impera a anarquia, o indivíduo desorganizado, anárquico, sobrevive.


Desorganizar para reinar, enquanto reina, o anarquista salva seus interesses pessoais, deixando para trás os interesses da empresa. Por isso ele nunca reclama quando vê as coisas desorganizadas, pois é da desorganização, da confusão, que o indivíduo anarquista consegue satisfazer seus interesses pessoais.


Imobilismo


O imobilista é um tipo de oportunista que deliberadamente não se mexe para nada. Seu lema é não fazer onda para não afundar sua canoa de interesses pessoais. Quanto mais calado e quieto permanecer, menos trabalho lhe toca. Esse tipo de oportunista, o imobilista, fica feliz que ninguém se dê conta que ele prefere viver apagado. Nas reuniões convocadas para tomar decisões, o imobilista se comporta como um poste: não se move; ou como uma coruja, que apenas presta atenção, mas não fala, não propõe nada.


O imobilista sabe com certeza que quanto, mais crítica, mais discussões e mais proposições, maiores são as responsabilidades de todos os associados da empresa ou da organização que ele integra. Daí que, deliberadamente ou instintivamente este tipo de oportunista não se mexe e não quer que as coisas também se movam.


Para ele tudo está bom. Não é preciso mudar nem acrescentar nada. Desse modo o imobilista manhosamente resguarda o tempo que dedica a seus interesses pessoais ou às atividades que mais gosta de realizar. Sempre está de acordo com toda medida que não signifique mais tempo de trabalho para a empresa e menos tempo para dedicar a seus assuntos pessoais.


Comodismo


O comodista é o tipo de oportunista que procura sempre se acomodar ou estar bem com todo mundo quando surgem situações conflitivas. É um invertebrado, um animal sem ossos que pode encolher-se, ajeitar-se para caber em qualquer situação limitada. É uma pessoa deliberadamente tímida; evita afirmar ou negar alguma coisa; ele já tirou de seu vocabulário as palavras sim ou não, a fim de não prejudicar seus interesses. Sempre está de acordo com todos aqueles que podem lhe beneficiar.


Em geral evita as oportunidades em que tem o dever de defender os interesses da empresa. Por trás dessa timidez está sempre seu proveito pessoal, seu posto, o posto de um parente ou de algum amigo. Além disso o oportunismo pode levar o comodista a submeter-se prazerosamente à domesticação propiciada pelo associado personalista. Os dois podem sobreviver em simbiose, ou seja: o comodista satisfaz seus interesses pessoais através da generosidade ou prodigalidade irresponsável do personalista e ao mesmo tempo, o personalista mais se afirma em seu prestígio pessoal e em seu paternalismo.


O comodista, em geral, nunca soluciona seus problemas pelos canais competentes, procura sempre fazê-lo diretamente através do indivíduo que ele supõe com mais prestígio pessoal - o personalista. Busca sempre o caminho ou a solução mais cômoda, mais fácil para alcançar resultados pessoais. Às vezes se comporta como um “gato” ou como outro animal domesticado que prefere viver comendo as sobras do dono a viver livremente no bosque.


Nas assembleias ou em reuniões menores, o comodista não apresenta seus problemas. Fica calado. Prefere apresentá-los diretamente ao “manda-chuva”. É um homem acomodado ao contexto. Deliberadamente não critica os erros de seus companheiros para que ninguém critique os seus. Em resumo, como o comodista tem telhado de vidro, evita atirar pedras no telhado do vizinho.


Sectarismo ou radicalismo


O indivíduo sectário ou radical é aquele tipo de oportunista que se sente torturado pela aparente lentidão com que amadurecem as condições necessárias para a realização das ações fundamentais e decisivas da empresa.


O atraso de alguns camponeses manifesta que eles ainda não querem ir mais além da empresa familiar, entretanto o sectário ou radical, se irrita por não poder transformar, da noite para o dia, o grupo de camponeses em uma empresa de propriedade e produção coletiva.


Para o sectário ou radical as coisas devem ser feitas imediatamente, não se importando se existem ou não condições para serem realizadas. O sectário deseja que as mudanças sejam provocadas do dia para noite e por conseguinte de maneira radical.


A angústia ou a tortura que o sectário sofre se origina de sua postura oportunista, o desejo de querer satisfazer imediatamente a coisa que mais lhe agrada, seu interesse pessoal.

Quando o sectário propõe a mudança da sociedade não é para o benefício de seus filhos ou de seus netos, e sim para que ele mesmo se beneficie dos resultados de tais mudanças. Suspeitando que possa morrer no próximo ano, o sectário deseja que tudo seja feito neste ano, antes que morra. Ele não quer ser o “peru de natal” que morre na véspera.


Na maioria dos casos, o sectário no dia que consiga ter um automóvel, um bom emprego ou seu pedaço de terra, deixa de ser um sectário; já conseguiu as mudanças que ele arduamente batalhava... a mudança de sua situação pessoal e não é de se estranhar que depois de conseguido seus objetivos se volte contra os próprios companheiros de luta.


O sectário que conduz seus companheiros a posições radicais ou sectárias quase sempre resulta em redundante fracasso, o que é o mesmo que fazer o jogo dos inimigos. Os operários franceses dizem que radical vem de “radis”, que quer dizer rabanete: “vermelho por fora e amarelo por dentro”. Desse modo, o indivíduo radical ou sectário, geralmente defende posições ou atitudes avançadíssimas no tempo, com o único objetivo de satisfazer seu interesse imediato. Sempre quer queimar etapas, mesmo quando as condições não estejam maduras para fazê-lo.


Liquidacionismo


O liquidacionista é aquele tipo de oportunista que habilmente busca liquidar ou suprimir uma ação que possa prejudicar seu interesse pessoal. No dia em que uma reunião ou uma ação qualquer da empresa coincide com um encontro amoroso do liquidacionista, este rapidamente quer suprimir ou liquidar a reunião considerando-a sem maior importância ou adiando-a para qualquer outro dia.


Quando a empresa está caminhando para um ponto ou em uma direção que possa vir a prejudicar o interesse do oportunista, ele não vacila inclusive em liquidar ou suprimir a empresa sugerindo que a transformem em outra coisa. Por exemplo: se a ação combativa de uma subseccional da Central Camponesa ameaça os interesses do oportunista ou de seus parentes, ele não vacila em dividir ou em dissolver a organização camponesa para que não se realize a ação.


Outra forma sub reptícia ou sutil do liquidacionista para disfarçar seu oportunismo consiste no uso da crítica sistemática. Quando sente que seus interesses pessoais estão sendo ameaçados ele passa a criticar a tudo e a todos. Neste caso, para o liquidacionista tudo está andando mal. Tudo está errado e necessita-se destruir ou apagar tudo para se começar tudo de novo a partir do começo. A assembleia já tomou uma decisão por maioria, já vai começar a execução do projeto ou da ação que não convém ao oportunista. Rapidamente ele começa suas manobras liquidacionista através da crítica indiscriminada. Diz que tudo está mal feito, que é necessário reunir a assembleia outra vez, que a assembleia também está mal conduzida, propõe que se liquide a assembleia, enfim, que não se realize o projeto que contraria seus interesses.


Aventureirismo


O aventureiro, como todos os demais subjetivistas, nunca consulta a realidade na qual vai se basear a ação. Tampouco mede as consequências ou os resultados da ação. O aventureiro pensa e age dentro de um marco idealista. Jamais planeja com base na realidade e sim baseado no que pensa, ou supõe que é factível realizar. Geralmente o indivíduo com tendências ao aventureirismo atua isoladamente e facilmente rompe a unidade da empresa, dividindo-a. Quando o aventureiro não encontra resistência dos associados, acaba por conduzir a todos à aventura de consequências imprevisíveis.


A auto suficiência


A auto suficiência tem origem no subjetivismo do indivíduo com grande dose de ideologia artesã. O indivíduo auto suficiente tem resposta para tudo, não ignora nada, não pergunta nada nem pede nenhuma explicação, nunca tem nenhuma dúvida. Estando perdido em uma grande cidade, o indivíduo auto suficiente não reconhece que não sabe onde está e tenta, às cegas, encontrar sozinho a rua aonde vai. Quando discute não ouve ninguém. Quando participa de uma reunião não anota nada.


O auto suficiente se imagina com um gravador na cabeça. Em países cuja economia se baseia em empresas pequenas, artesanais, todos seus habitantes se metem em questões de medicina. Basta que alguém sinta uma dor, para que logo apareçam pessoas para diagnosticar a doença e recomendar-lhe o remédio. Todos se sentem médicos entendidos em medicina. E não apenas de medicina, também entendem de aviões, de eletrônica, de veterinária, cibernética, etc.


Se um automóvel tem um problema no meio da rua, imediatamente aparecem várias pessoas para dizer que se trata do carburador, de uma bateria, do distribuidor, etc. Todos se sentem auto suficientes, entendidos em mecânica de automóveis.


Se o auto suficiente é indagado sobre a população de Ulan Bator, capital da Mongólia, ele jamais admite que não sabe, o normal é que ele responda assim: não deve ser maior que tal ou qual cidade.


O auto suficiente nunca se preocupa com a precisão dos dados, ele os calcula conforme sua própria ideia, de acordo com o que tem em sua cabeça, segundo sua subjetividade. Por isso, que os europeus denominam de “tropicalismo”, à tendência que nós, dos trópicos, temos de exagerar, ou de não ser exatos, ou de basear-nos em nossos próprios dados, cálculos ou apreciações. É que nos trópicos estão as sociedades de economia predominantemente artesanal, mais atrasadas e por conseguinte com maior incidência deste vício das formas artesanais de trabalho.


O auto suficiente tanto superestima como subestima a realidade e em qualquer desses casos ele age baseado na irrealidade de seu próprio subjetivismo. Uma empresa em que predominam os auto suficientes acaba tendo constantes fracassos e estes conduzem inevitavelmente à ruptura da unidade da empresa.


Os auto suficientes são mais frequentes entre os artesãos intelectuais e entre os camponeses. Há camponeses que contraem dívidas (empréstimos) para que sua empresa plante duzentos canteiros de melão, simplesmente por imaginar que nos Estados Unidos se consome muito esta fruta.


Não consultam os mecanismos de mercado, não consultam os meio e os custos de transporte. Para os auto suficientes, basta saber que vão fazer um grande negócio plantando melão para vender aos Estados Unidos.


Falta ao auto suficiente a humildade do operário, o qual pelo fato de sua ação depender de milhares de outros ou de algumas máquinas complicadas, nunca decide nem planeja sem consultar a realidade.


“MECANISMOS OU INSTRUMENTOS” PARA COMBATER OS VÍCIOS DAS FORMAS ARTESANAIS DE TRABALHO


Dentre os “instrumentos ou mecanismos” conhecidos, que se empregam para evitar ou combater os vícios gerados pelas formas artesanais de trabalho, se destacam os seguintes: a vigilância, a crítica e a reunião.


A vigilância


A vigilância tem o objetivo de manter a unidade e a disciplina dos grupos. Entretanto, não é uma vigilância exercida de forma primitiva, desconfiando de todos como fazem os policiais. Isso cria uma atmosfera destrutiva. A vigilância é exercida zelando-se pelo fiel cumprimento dos princípios da empresa, das técnicas organizativas e por meio da crítica. São três os níveis mais importantes em que se realiza a vigilância: ideológico, político e organizativo.


Entende-se por ideologia de uma empresa, o espírito ou o aspecto da empresa, que tanto pode ser o espírito usurário imediatista de um pequeno banco ou de uma cooperativa de crédito e poupança, como pode ser o aspecto paternalista de uma Junta de Desenvolvimento da Comunidade; tanto pode ser a mentalidade individualista de um grupo de parceleiros na qual prevalece o princípio de “cada um por si e Deus por todos”, como pode ser o aspecto solidário dos grêmios de artesãos, o espírito pseudo-cooperativista de uma sociedade anônima, como também o caráter coletivista de uma Empresa Comunitária, ou ainda a consciência da distribuição do trabalho social das empresas estatais da área de propriedade do povo.


Entende-se como política de uma empresa ou organização, o conjunto de teses e decisões que seus associados se propõem a aplicar, isto é: refere-se à ação consciente, a programática e o plano de trabalho aprovado pela Assembleia ou Congresso da Empresa.

Entende-se como organizativa, ao conjunto de normas ou de princípios que se busca aplicar objetivando que as ações dos associados correspondam ou sejam coerentes com a ideologia e a política da empresa.


A nível ideológico a vigilância se efetua fazendo ver (de forma organizada) aos associados que manifestam vícios que atentem contra a unidade e a disciplina, o dano que podem causar à empresa. Aqueles que transgridam inconscientemente os princípios da empresa, se comportam como inimigos ideológicos.


Sendo advertido de seu erro e de forma organizada voltam a cometer os mesmos erros, reiteradamente, convertem-se em inimigos políticos. O inimigo político deve ser afastado imediatamente da empresa.


A nível organizativo, a vigilância se exerce zelando pelo fiel cumprimento das técnicas organizativas e das disposições vigentes em matéria de organização.


Finalmente, a vigilância só é eficiente quando é exercida simultaneamente nos três níveis e se torna definitivamente precária quando exclui o nível organizativo que juntamente com o nível político não comporta apreciações subjetivistas.


A crítica


A crítica é um elemento indispensável para combater os vícios das formas artesanais de trabalho. Desse modo, a crítica constitui um instrumento que permite capacitar às pessoas, harmonizar a ação das organizações, objetivando conseguir maior rendimento do trabalho e por estas razões deve ser estimulada e exercida com a frequência necessária.


Toda crítica deve ser fraternal e organizada, ou seja, só poderá ser feita em reunião e com o objetivo de ajudar aos indivíduos e à ação das organizações ou comitês, além disso a crítica só deve ser considerada sempre quando se apontam as causas dos erros e se sugere medidas para superá-las.


A crítica manifestada fora de uma reunião da organização ou comitê tem conotações de repreensão e desse modo, cria atritos pessoais e ressentimentos, que posteriormente afetarão a unidade e a disciplina da empresa.


A reunião


A reunião é um mecanismo por meio do qual se exercita o trabalho coletivo ou associativo em qualquer nível, quer seja de base, de assembleia ou de comitês dirigentes e intermediários da empresa. A reunião só alcança este objetivo, além daqueles para a qual foi programada, quando é realizada de maneira organizada. Uma reunião desorganizada não passa de um “bate-papo”, um encontro de amigos ou compadres. Toda reunião para ser produtiva terá que ser organizada. Entre os artesãos ou indivíduos de ideologia de caráter artesanal as reuniões não têm hora para começar nem para terminar, além disso, sempre se realiza da maneira mais anárquica possível. Os espontaneístas particularmente, se mostram felizes nestas reuniões que não têm hora para terminar. Se uma reunião não tem fixado previamente o tempo de sua duração, geralmente se realiza de maneira desorganizada.


Uma reunião séria de uma empresa ou de um comitê responsável é composta de quatro partes: preparação, informativo com balanço crítico, plano de trabalho, distribuição e controle.


Na preparação da reunião, o coordenador responsável pela organização, estabelece o local da reunião, a pauta, escreve o informativo e esboça um plano de trabalho para as tarefas decorrentes da reunião.


Uma vez reunidos todos os integrantes da organização que vão participar da reunião, discute-se então, o tempo em que vão estar reunidos. Se o tempo aprovado for de 120 minutos, as três partes seguintes da reunião terão seu tempo programado. Em 5 minutos deve-se ler o Informativo e Balanço Crítico. Em 45 minutos os integrantes da reunião terão que discutir o Informativo. Se os participantes, por exemplo, forem em número de nove, cada um terá 5 minutos para sua intervenção. Do mesmo modo deve-se proceder para a duração do Plano de Trabalho e os 20 ou 30 minutos restantes serão empregados para a distribuição de tarefas e para o estabelecimento das datas de controle, porque, já foi dito que tarefa sem controle não passa de boas intenções, ninguém as cumpre.


O Coordenador de uma Assembleia é responsável pelo cumprimento das normas organizativas da reunião. Desse modo, se seus companheiros aprovam os tempos para cada pessoa ou para cada parte da reunião, o coordenador deve fazer cumprir o estabelecido a fim de que a reunião não passe dos 120 minutos. Dilatar o horário, somente para satisfazer a um espontaneísta ou um anarquista que alega demagogicamente que não tem liberdade para expressar sua opinião, é desrespeitar a vontade da maioria que aprovou o tempo de 120 minutos e 5 minutos para cada pessoa.


Apenas se prolonga o tempo de uma reunião quando a maioria dos integrantes da mesma, decide modificar o tempo de duração. A utilização do tempo nas reuniões permite apurar a organização da mesma e desse modo permite a educação dos associados para que tratem exclusivamente de assuntos fundamentais, deixando de lado os assuntos secundários e de interesses puramente pessoais que não diz respeito à empresa. Desse modo, o respeito ao tempo estabelecido faz com que as pessoas ou cada qual organize sua intervenção tornando-a o mais racional possível.

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