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A violência contra a mulher, NÃO É O MUNDO QUE A GENTE QUER!

Entre os dias 25 a 27 de março se reuniram na UFF em Niterói – RJ, mais de 2 mil mulheres para o 7º Encontro de Mulheres Estudantes – EME da União Nacional dos Estudantes – UNE. Com o tema “A cultura feminista transformando o Brasil” mulheres de coletivos, opiniões e organizações diversas discutiram a conjuntura política do país, a violência, educação sexista, cultura, cyberfeminismo, aborto, políticas públicas para as mulheres, direito a cidade, feminismo antirracista, assistência estudantil, saúde, protagonismo feminino no movimento estudantil, LBT`s, entre outros…

O principal debate que permeou todos os outros foi a conjuntura política, na qual se tem observado muitos ataques aos direitos das mulheres e atrasado o avanço de suas bandeiras. A denúncia do golpe e a luta contra o retrocesso deram o tom do evento, considerando que esta é também uma luta das mulheres.

Exemplos como a aprovação do estatuto da família, do estatuto do nascituro, o PL5069 e a aprovação da reforma da previdência, provam o quanto as mulheres devem estar inseridas nos debates políticos do país. No geral, a avaliação da conjuntura foi que não se pode permitir o golpe da direita e do fascismo, bem como não se pode aceitar o corte de direitos e a diminuição dos investimentos nas áreas sociais como saúde, educação, moradia, etc. A saída deve ser pela esquerda!

A mesa sobre a violência contra as mulheres foi um espaço de intensa luta política contra o machismo, assédio e violência física e sexual dentro das universidades e dos movimentos sociais. Como a violência é uma das principais agressões sofridas pelas mulheres nesse sistema, tanto que cerca de 67% das universitárias reconhecem já terem sofrido algum tipo de violência dentro das universidades segundo a pesquisa do Instituto Avon 2015, esse foi um debate bastante procurado. Deste debate saiu uma moção de repúdio a violência nos espaços do movimento estudantil.

As estudantes e mulheres presentes no evento participaram ativamente dos debates, dos espaços culturais com conteúdos também feministas e com muita agitação puxaram palavras de ordem com as baterias de mulheres pelo fora Cunha, contra a violência e por mais direitos.

À convite da União da Juventude Rebelião- UJR/ Rebele-se e do Movimento de Mulheres Olga Benário mais de 120 meninas de coletivos e movimentos de várias universidades marcaram presença com a participação nas mesas, nos grupos de debates, nas intervenções, panfletagens, palavras de ordem e exemplos de que o feminismo deve ser prático e com caráter de classe.

Ao final do evento foi lida a “Carta de Niterói” que resume o que foi evento e suas decisões e foram lidos os documentos consensuados pelas estudantes. Entre as moções foram aprovadas uma em memória a estudante de biologia da UnB, Loise Ribeiro, de 20 anos, assassinada na semana do 8 de março; moção contra lei antiterrorismo; Carta a presidenta Dilma pela legalização do aborto, pela garantia dos nossos direitos sexuais e reprodutivos; Moção de apoio pela educação pública nas escolas; em memória a um ano do massacre dos professores no Paraná; Moção pelo Fora Cunha e Moção contra a violência das mulheres.

12891014_1032776966789899_3433240703684975460_oApós a plenária final as estudantes saíram em manifestação pelas ruas de São Domingos, bairro onde fica localizada a UFF, fazendo intervenções pela vida das mulheres, contra a violência, contra o golpe e contra a ditadura militar e qualquer retrocesso da democracia. Nesse momento foi realizado um importante ato em memória de Telma Regina, estudante de Geografia da UFF assassinada pela ditadura.

O encontro se caracteriza por um espaço de grande discussão feminista sobre vários aspectos, que abrange uma diversidade de defesas do feminismo e um espírito de solidariedade entre as mulheres. É também um espaço de formação e construção política das mulheres e de disputa de consciência. Várias estudantes demonstraram uma grande vontade de se aprofundar nesse debate e se engajar nos movimentos e nas organizações feministas. É um lugar de protagonismo das mulheres que mostra o quanto elas podem e devem ocupar os espaços públicos e de liderança e romper com a lógica patriarcal e machista da sociedade.

A revolução será feminista ou não será!

É pela vida das mulheres!!

Samara Martins – Militante da UJR e Diretora de Mulheres da UNE

Combater a cultura da violência dentro das universidades brasileiras

A reprodução da violência, do machismo e do conservadorismo nas universidades ocorre cotidianamente, mas a luta e o processo de conscientização de estudantes e de toda a comunidade universitária vem crescendo de norte a sul do país. No mês de junho, estudantes de diversos coletivos do movimento estudantil e centros/diretórios acadêmicos da Universidade Federal de Viçosa se uniram no combate a essa pauta dentro do campus.

O estopim da indignação ocorreu quando o professor Joaquim Lannes, do departamento de comunicação da UFV, publicou em seu perfil do facebook, na segunda feira do dia 15 de junho, uma noticia falsa do titulo: “Juiz solta ladrão e é assaltado por ele na saída do Fórum.”, seguido do seguinte comentário: “Bem feito. Tomara que futuramente este marginal entre na casa do juiz estupre a mulher dele, a filha e outras mulheres da família dele. Aí quem sabe ele possa ver quem merece ficar solto e quem merece ficar preso. Bem feito.”.

11657316_10204431107839099_1636595386_n(1)Mesmo diante de um apertado calendário acadêmico, o ato realizado no dia 19 de junho reuniu cerca de 70 estudantes dos diversos cursos da UFV que mostraram sua indignação com a omissão da universidade diante das denuncias de estupro, abuso, assédio e discriminação, que são frequentes no dia a dia da instituição.

Infelizmente casos como esse não são isolados. A naturalização da violência contra a mulher é cada dia mais presente na nossa sociedade. Mais de cinquenta mil mulheres são estupradas por ano e a cada cinco minutos, uma mulher é agredida.

As violências psicológicas, físicas e sexuais que ocorrem todos os dias estão diretamente ligadas a forma como a nossa sociedade se organiza e como entende as relações de poder. Vivemos em uma sociedade machista e patriarcal onde a mulher ocupa um lugar secundário e submisso ao homem.

As mulheres são retratadas diariamente como objetos sexuais e de domínio masculino. As mulheres são culpabilizadas por toda a violência que sofrem e em sua grande maioria não recebem qualquer tipo de amparo.

Posicionamentos como esse do professor reforçam a naturalização dessas ações. Ele, enquanto professor de uma universidade federal e chefe do Departamento de Comunicação da mesma influencia diretamente diversas pessoas dentro do ambiente universitário, e ao colocar o estupro como uma medida punitiva, legitimar a posse do homem sobre a mulher e todas as violências que a mesma sofre, naturaliza todas essas agressões reforçando esse entendimento entre as pessoas que o cercam.

 A universidade que queremos não pode servir como um mecanismo de reforço às violências, opressões e discriminações da nossa sociedade. Ela deve servir como um espaço de desconstrução de toda essa lógica.Quando a universidade e a comunidade acadêmica omitem de se posicionar diante desses casos elas consentem e compactuam como toda a violência existente no ambiente universitário.

 É preciso por fim a cultura da violência e do estupro dentro e fora das universidades brasileiras, que hoje são compostas em sua maioria por mulheres. É preciso manter a articulação e a unidade do movimento estudantil e de toda a comunidade acadêmica para que as mulheres vítimas de casos de violência sintam-se seguras para denunciar. É necessário que tenhamos mecanismos de denuncia que realmente funcionem e que tomem as medidas cabíveis e necessárias a esses casos.

Chega de impunidade nos casos de opressão e violência no campus universitário!

Machistas não passarão!

Shara Narde – Integrante do Movimento Rebele-se UFV e militante da UJR

UJR e o Dia Internacional da Mulher

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o site da Rebelião publica uma entrevista com cinco companheiras militantes da UJR. Vale a leitura e a reflexão sobre o papel de luta e resistência desenvolvido cotidianamente pelo fim do machismo, e pela emancipação da mulheres.

À todas as mulheres não apenas um dia em sua homenagem, mas toda uma vida de igualdade, oportunidades e felicidade!

REBELIÃO: As mulheres obtiveram nos últimos anos inúmeras conquistas, mas ainda há muito a ser feito. Quais os direitos negados aos jovens hoje no Brasil?

10505209_695190807225356_6841193496898144027_oBia Martins – Coordenadora Geral da FENET: O Brasil é um país muito difícil de se viver para as mulheres jovens. Muitas jovens ao se tornarem mães por exemplo são obrigadas a sair das escola ou universidade pois não há creches para seus filhos. São ainda as mulheres jovens, as que mais sofrem assédio sexual tanto por homens nas ruas que diariamente fazem piadas, ou mesmo pelos namorados. Na última semana na minha cidade, um homem passou a mão por dentro do uniforme de uma garota que estava dormindo no ônibus a caminha da escola. As mulheres jovens ocupam ainda majoritariamente postos de trabalho mal remunerado, como no telemarketing ou nos serviços domésticos. Enfim, o direito de ir e vir sem medo de ser violentanda, de poder estudar quando mães e o de ocupar e ter salários iguais aos homens são os principais direitos negados.

REBELIÃO: Como a violência se expressa com as mulheres jovens? Qual a expressão mais comum dessa violência?

1370725_731310753562459_584961076_oSamara Martins – Coordenação Nacional da UJR: Acredito que a violência às mulheres jovens se expressa de várias formas, mas a violência sexual é uma das mais veementes contra elas. Ela se expressa através do estupro (uma das piores violências sofridas pela mulher, por carregar em si um caráter físico mas também altamente psicossocial), mas também pelo assédio sexual. As mulheres jovens são sempre sexualizadas. São as “ninfetas”, as “novinhas”, são objetos de prazer do homem.

A campanha “Chega de fiu-fiu” é uma das provas de que as mulheres, principalmente as jovens, sofrem assédio todos os dias. Por sua vez, o número de estupros é alarmante e só aumenta, passando dos 50 mil por ano.
As mulheres não estão livres desse tipo de violência em nenhum ambiente: sofrem assédio e estupro no trabalho, nas escolas e universidades, na rua, em festas, nos ônibus, etc.

As mulheres jovens, igualmente, sofrem com a violência doméstica, por parte do pai e/ou companheiro; com a violência psicológica, patrimonial, obstétrica, entre outras. E o feminicídio, por conta da alta quantidade de casos, se tornou crime hediondo. A crescente violência contra as mulheres é a prova da perpetuação do machismo, nessa sociedade do capital que desumaniza as pessoas. Basta de violência!!

REBELIÃO: Os meios de comunicação usam a todo momento a imagem e o corpo da mulher associados a venda de produtos. Essa mercantilização, traz quais consequências para o dia a dia das mulheres?

IMG_20150307_173214Luane Mota – Coordenção da UJR-CE:É frequente vermos as mulheres atuando em propagandas de carros, ferramentas de mecânica, cervejas, produtos de beleza e diversos outros produtos. Porém, o caráter ideológico que esse tipo de comercial e propaganda carrega, prejudica diretamente nossas vidas. Acredito que os comerciais de cervejas são as formas mais escrachadas de rebaixar o nosso nível na sociedade, eles nos colocam como se não passássemos de meros objetos sexuais. Quem nunca viu a propaganda da cerveja Itaipava que diz “Vem Verão”, e uma belíssima mulher, chamada de “Verão”, aparece com a cerveja na mão e entrega ao homem? Aquilo é um tremendo absurdo e um desrespeito as mulheres do nosso país. Esse tipo de mídia, desvaloriza a mulher, fortalece o machismo e forma uma consciência atrasada em todas as pessoas.

A mercantilização da mulher acontece de maneira bem rasteira pelo sistema capitalista e são graves as consequências. Temos a imposição às mulheres para aderir um padrão de beleza, por exemplo, apenas para os capitalistas venderes seus produtos de cosméticos, e isso causa a exclusão daquelas que não seguem o padrão de beleza imposto. O fato da mulher não ter o cabelo lisinho das meninas da TV ou não ter o corpinho de determinada famosa, gera preconceito e exclusão.

Há ainda os problemas mais graves causado pela mercantilização, a violência verbal e até mesmo física. Receber cantada de homens quando passamos na rua é um ato de violência, as mulheres não gostam, isso é constrangimento.  Não merecemos ser vistas apenas como um objeto a disposição dos homens, ou como meras consumistas. Como diz a palavra de ordem, “Somos Mulheres e não Mercadorias”. E aos que não sabem, merecemos e devemos sim, ser respeitadas!

REBELIÃO: Quais as principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres para conquistar sua formação universitária? A universidade é um ambiente igualitário para homens e mulheres?

1970421_865203696837803_6844605864768962705_nKaterine Oliveira – 1° Vice-presidente da UNE: Nem sempre as mulheres tiveram a oportunidade de estudar, isso foi uma grande conquista. Mas ainda não é realidade para todas, ainda existem países onde isso não é permitido, lembremos da paquistanesa, Malala Yosafzai, baleada por querer ter o direito de ir a escola. No Brasil, apesar de sermos a maioria nas universidades, ainda enfrentamos muitas dificuldades para conseguir nossos diplomas. Desde o machismo presente na estrutura universitária ao assédio moral e sexual nas instituições, como por exemplo os recentes casos de estupro denunciados na USP.

Esse tipo de violência faz com que muitas estudantes desistam da universidade. Além disso, para as estudantes trabalhadoras a jornada é ainda mais exaustiva, muitas também são mães, e as instituições não oferecem nenhum auxílio, o que dificulta vencer a barreira da tripla jornada que essas estudantes enfrentam diariamente.

REBELIÃO: Há uma serie de regras impostas na sociedade sobre o comportamento das mulheres: o que fazer, quando e como. Essas imposições sociais limitam a vida e a liberdade das mulheres?

1913304_10203614580115315_758974278_oLires Bastos – Coordenação UJR-RS: Essas imposições sempre possuem um propósito que tem ligação com misoginia. Como, por  exemplo, a mulher ter que ser educada, maternal, paciente,ter voz baixa. Como ser prendada, saber cozinhar, saber arrumar a casa. Como estar sempre depilada, maquiada, com aparência superficial, segundo a idéia dos homens de como mulheres devem ser.

Existem milhares de outros exemplos de como há feminilidade imposta a nós, sem citar também heterossexualidade compulsória, gravidez compulsória, monogamia, etc. Isso tudo existe porque o patriarcado considera o gênero feminino como um segundo sexo, uma sub-espécie. A luta feminista é contra esses estereótipos de gênero, contra essas imposições que fazem com que não tenhamos a sensação de que somos humanas e sim de que somos a ideia patriarcal do que é ser mulher.

Coordenação Nacional da UJR

Violência contra mulher é dura realidade no Brasil

Nessa sexta-feira a Secretaria de Políticas para Mulheres, órgão vinculado a Presidência da República, divulga relatório tratando dos índices de violência contra a mulher recebidos a partir do número 180, num total de 53 mil denúncias de agressão durante o ano de 2014.

Esse número representa apenas uma parcela da real violência vivida pela mulher, pois a normalização do comportamento agressivo contra as mulheres é algo bastante aceito socialmente, ocorrendo situações em que a mulher sequer se dá contra da agressão, em especial nos casos de assédio moral.

Seja no local de trabalho, nas ruas ou mesmo no ambiente familiar, o comportamento violento persegue milhões de mulheres cotidianamente, com xingamentos, imposições e determinações que ferem a possiblidade de uma vida livre e igualitária.

nao_se_caleDe acordo com o relatório, em 52% dos casos de agressão relatados, as mulheres declararam ter sido vítimas de violência física, com socos, pontapés, e até mesmo queimaduras, mostrando o quanto a cultura da dominação e violência por parte dos homens com as mulheres não está vencida na sociedade, mesmo que as mulheres tenham obtido uma série de conquistas e direitos nas últimas décadas.

A estrutura atualmente disponibilizada pelo Estado é extremamente insuficiente, e milhares de municípios continuam sem sequer possuírem as Delegacias das Mulheres, redes de apoio às mulheres vítimas de violência, e sequer políticas públicas que busquem oportunizar direitos iguais aos dos homens.

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, combater a violência contra a mulher é uma tarefa de toda a sociedade, pois não podemos conquistar a devida igualdade entre homens e mulheres compactuando com a agressão a que milhões de mulheres estão submetidas. É preciso tornar essa uma luta de todos, homens e mulheres unidos contra a violência, o machismo e a opressão.

Coordenação Nacional da UJR

Apenas junto com as mulheres proletárias o Socialismo será vitorioso

Texto da companheira Clara Zetkin, durante o Congresso do Partido da Social Democracia da Alemanha.

As investigações de Bachofen, Morgan e outros parecem provar que a repressão social das mulheres coincide com a criação da propriedade privada. O contraste na família entre o marido como proprietário e a mulher como não proprietária se tornou a base da dependência econômica e da ilegalidade social do sexo feminino. Essa ilegalidade social representa, de acordo com Engels, uma das primeiras e mais antigas formas da exploração de classes. Ele afirma:

“Na família, o marido representa a burguesia e a esposa o proletariado”.

clara_zetkinNo entanto, a questão das mulheres não era questionada neste sentido específico do mundo moderno. Somente o modo de produção capitalista, o modo de produção que criou a transformação social, que levantou a questão feminina destruindo o antigo sistema econômico e familiar, trazendo substância e sentido de vida para a grande massa de mulheres, durante o período pré-capitalista. Nós não devemos, entretanto, transferir para as atividades econômicas femininas antigas aqueles conceitos (como futilidade e mesquinhez) que são ligados às atividades femininas de nosso tempo. Desde que o antigo tipo de família existia, a mulher encontrará nas atividades produtivas, um sentido de vida, mesmo que ela não tenha consciência de sua ilegalidade social e de que seu desenvolvimento de seus potenciais enquanto indivíduo é limitado.

O período do Renascimento é tempestuoso e estressante, no sentido de despertar da individualidade moderna que era capaz de se desenvolver completamente em diversas direções. Encontramos indivíduos que eram gigantes bons e maus que rejeitam os mandamentos das religiões, das concepções morais e desprezam igualmente céu e inferno. Nós descobrimos as mulheres como centro da vida social, artística e política. E, ainda, não existe um traço de movimento feminino. Esta é a maior razão para o antigo sistema começar a ruir sob o impacto da divisão do trabalho. Milhares e milhares de mulheres não mais encontravam sentido na vida no interior da família, mas essa questão, de acordo com o que podemos analisar, foi resolvida na época com conventos, instituições de caridade e ordens religiosas.

As máquinas, o modo moderno de produção, lentamente acabaram com a produção doméstica e não apenas para milhares, mas para milhões de mulheres a pergunta era: Onde encontraremos nosso meio de vida? Onde nós encontraremos um sentido de vida assim como um trabalho que nos dê satisfação mental? Milhões estavam agora forçadas a encontrar seu meio e sentido de vida fora de suas famílias, na sociedade como um todo. Nesse momento, elas se tornaram conscientes do fato de que sua ilegalidade social esteve em oposição com a maioria de seus interesses básicos. A partir deste momento surgiram as modernas questões das mulheres. Aqui estão algumas estatísticas que mostram como o modo de produção moderno funciona para as questões das mulheres, mesmo as mais agudas. Durante 1882, 5,5 milhões das 23 milhões de mulheres e meninas na Alemanha estavam totalmente desempregadas, um quarto da população feminina não encontrava mais seu meio de vida na família. De acordo com o Censo de 1895, o número de mulheres empregadas na agricultura, no sentido mais amplo desse termo, havia crescido desde 1882 mais de 8% e no sentido estrito cerca de 6%, enquanto o número de homens empregados na agricultura decrescia cerca de 3% a 11%, por ano. Na área das indústrias e das minas, o número de empregadas cresceu cerca de 35% e o de homens cerca de 28%. No mercado de tecelagem, o número de mulheres empregadas cresceu mais de 94% e o de homens apenas 38%. Apenas esses números mostram muito mais a urgência em se resolver as questões das mulheres do que uma declamação inflamada.

O problema das mulheres, entretanto, está presente apenas entre aquelas classes da sociedade nas quais elas mesmas se tornaram produtos do modo capitalista de produção. Então, não encontraremos tais questões nos círculos camponeses, onde existe a economia natural (embora reduzida e puncionada). Mas, nós certamente encontraremos esses problemas naquelas classes da sociedade em que todas as crianças participam do modo moderno de produção. Existe um problema feminino para cada mulher do proletariado, da burguesia, da intelectualidade, etc. Assume uma forma diferente de acordo com a situação de classe de cada uma.

Como se entende um questionamento feminino na alta sociedade? As mulheres desta classe graças as suas propriedades, podem desenvolver sua individualidade e viver como desejam. Em toda sua vida, entretanto, ela ainda depende de seu marido. A guarda sobre o sexo mais frágil sobrevive na lei da família que afirma: “Ele deverá ser seu mestre”. E qual é a constituição da alta sociedade para que a mulher seja legalmente subjugada pelo marido? Em seus primórdios, essas famílias não seguiam pré-requisitos morais. Não era a individualidade, mas o dinheiro que decidia sobre o matrimonio. Seu mote é: No que o capital participa, moralidade sentimental não deve participar. Então, nessa forma de casamento, duas prostituições são tomadas como uma virtude. A eventual vida em família se desenvolve de acordo com os mesmos termos. Onde quer que a mulher não seja mais forçada a realizar seus deveres, ela transfere seus deveres de mulher, mãe e dona de casa para serviçais pagos. Se as mulheres destes círculos tem o desejo de dar a suas vidas um propósito sério, elas devem, primeiramente, aumentar a possibilidade de dispor de suas propriedades de forma independente e livre. Esta demanda representa o centro das demandas apresentadas pelo movimento feminino da alta sociedade. Estas mulheres, em sua luta pela realização de suas demandas contra o mundo masculino de suas classes, lutam exatamente a mesma batalha que a burguesia lutou contra as classes privilegiadas, ou seja, a batalha para remover todas as diferenças baseadas nas posses das propriedades.

clara_zetkin_011O fato de que esta demanda não lida com os direitos dos indivíduos está provado pela defesa de Herr Von Stumm no Reichstag. Mas quando ele defendeu os direitos de uma pessoa? Este homem, na Alemanha, significa mais do que uma personalidade, ele é o dinheiro em carne e osso e se este homem se apresenta com uma mascara barata pelos direitos das mulheres, então isso só aconteceu porque ele foi forçado a dançar diante da “Arca da Aliança do Capitalismo”. Este é o Herr Von Stumm que sempre está pronto para colocar um basta para seus trabalhadores se eles não dançarem conforme sua música e ele certamente receberia com um sorriso satisfeito se o Estado, enquanto empregador colocasse os professores e intelectuais que insistem em discutir políticas públicas sob suas rédeas também. Os esforços de Herr Von Stumm não almejam nada além do que instituir a posse dos bens móveis no caso da herança feminina, uma vez que existem pais que adquiriram posses, mas não tem como escolher seus filhos, deixando apenas as filhas como herdeiras. Assim, o capitalismo honra a poucas mulheres, permitindo que elas dispusessem de suas fortunas. Esta é a fase final da emancipação da propriedade privada.

Como se apresentam os problemas femininos nos círculos da pequena burguesia, da classe media e da burguesia intelectual? Nesse caso, não é a propriedade que dissolve a família, mas principalmente os sintomas concomitantes da produção capitalista. Neste grau, a produção completa sua marcha triunfal, a classe media e a pequena burguesia estão cada vez mais próximas de sua destruição. Entre a burguesia intelectual, outra circunstância leva à piora das condições de vida: o capitalismo precisa de força de trabalho inteligente e treinada cientificamente. Isso então favoreceu uma super produção de trabalhadores cientificamente qualificados e contribuiu para o fenômeno de que as posições de respeito entre essas classes de profissionais estão se erodindo.

No mesmo nível, entretanto, o número de casamentos está caindo; mesmo com bases materias piores, o aumento da expectativa de vida dos indivíduos, faz com que os homens pensem duas ou três vezes antes de entrar em um casamento. A idade limite para se formar uma família aumentou e o homem não sofre pressão para se casar, pois em nosso tempo existem bastantes instituições sociais que oferecem uma vida confortável a um velho bacharel sem uma esposa legítima. A exploração capitalista da força dos proletários até os níveis mais exaustivos, está ai um grande suprimento de prostitutas que correspondem às demandas desses homens. Então, dentro dos círculos da burguesia o número de mulheres solteiras sempre cresce.

As mulheres e filhas destes círculos são empurradas para dentro da sociedade, elas próprias precisam se estabelecer em suas vidas nas quais não se espera apenas que elas tenham seu sustento, mas também saúde mental. Nestes círculos, as mulheres não são iguais aos homens na forma de donas das propriedades privadas, como elas são nos altos círculos. As mulheres nestes círculos ainda precisam garantir sua igualdade econômica com os homens e elas podem fazer isso a partir de duas demandas: A demanda por treinamento profissional igualitário e a demanda por oportunidades iguais de trabalho para ambos os sexos. Em termos econômicos, isto significa nada menos do que a realização do livre acesso a todos os empregos e competição igualitária entre homens e mulheres. A realização disso desencadeia um conflito entre homens e mulheres da burguesia e da intelectualidade. A competição das mulheres dentro do mercado de trabalho é a força que move a resistência dos homens contra as demandas daqueles que advogam pelos direitos das mulheres burguesas. Pura e simplesmente, medo da competição. Todas as outras razões que são listadas contra o trabalho feminino qualificado, como o cérebro feminino ser menor e a tendência natural das mulheres a serem mães são apenas pretextos. Esta batalha coloca as mulheres deste estrato social diante da necessidade de exigir seus direitos políticos, lutando politicamente, derrubando todas as barreiras que foram criadas contra a sua atividade econômica.

Até então, me posicionei apenas diante da estrutura política básica e pura. Nós iremos, entretanto, cometer uma injustiça contra o movimento burguês pelos direitos das mulheres se nós atribuíssemos apenas motivações econômicas. Não, este movimento também contém um aspecto mais profundo. As mulheres da burguesia exigem não só seu sustento, mas também querem poder desenvolver sua individualidade. Exatamente junto a esse segmento encontramos esta trágica, porém psicologicamente interessante figura “Nora”, mulheres que estão cansadas de viver como bonecas, em casas de bonecas e que querem compartilhar do desenvolvimento da cultura moderna. A economia, bem como a intelectualidade empreendida pelos defensores dos direitos das mulheres da burguesia são completamente justificáveis.

No que diz respeito ao proletariado feminino, foi a necessidade do capitalismo de explorar e buscar incessantemente por uma força de trabalho barata que criou questão das mulheres. Essa também é a razão pela qual o proletariado feminino se tornou parte do mecanismo da vida econômica de nosso período e foi para as oficinas e para as máquinas. Elas saíram para a vida econômica para ajudar seus maridos na subsistência, mas o sistema capitalista as transformou em competidoras desleais. Elas queriam trazer prosperidade para a família, entretanto, a miséria se estabeleceu. As mulheres proletárias se empregaram porque queriam construir uma vida feliz e prazerosa para seus filhos, entretanto, elas ficaram totalmente separadas deles. Elas se tornaram iguais aos homens como trabalhadores; as máquinas davam as forças necessárias e em qualquer lugar o trabalho das mulheres gerava o mesmo resultado que o dos homens. E como as mulheres constituem uma força de trabalho barata e acima de tudo submissas, tanto que apenas raros casos se colocam contra a exploração do capitalismo, os capitalistas aumentaram as possibilidades de trabalho das mulheres na indústria. Como resultado, as mulheres proletárias alcançaram sua independência. Mas, verdadeiramente, o preço para isso foi muito alto e para o momento elas ganharam muito pouco. Se durante a Era da Família, o homem tinha o direito (pense na lei eleitoral da Bavária!) de domar sua mulher com um chicote, o capitalismo está, agora, domando-a ainda mais. Antigamente, o governo de um homem sobre sua mulher era amenizado por sua relação pessoal. Entre um empregador e um empregado, entretanto, existe apenas o vínculo financeiro. O proletariado feminino ganhou sua independência, mas nem como ser humano, nem como mulheres ou esposas elas tem a possibilidade de desenvolver sua individualidade. Para suas tarefas como esposa e mãe, restam apenas as migalhas que a produção capitalista deixa cair da mesa.International_Womens_Day_1917-1024x666

Então as lutas pela libertação das mulheres proletárias não podem ser comparadas às lutas que as mulheres da burguesia enfrentam contra os homens de sua classe. Ao contrário, elas devem empreender uma luta unitária com os homens de sua classe contra toda a classe capitalista. Elas não precisam lutar contra os homens de sua classe para derrubar as barreiras que foram erguidas contra sua participação no mercado da livre competição. A necessidade do capitalismo de explorar e desenvolver o modo moderno de produção as libera totalmente de travarem tal briga. Ao contrário, novas barreiras precisam ser erguidas contra a exploração do proletariado feminino. Seus direitos como esposa e mãe precisam ser restaurados e garantidos permanentemente. Seu clamor final não é a livre competição com os homens, mas o poder político nas mãos do proletariado. As mulheres operárias lutam lado a lado com os homens de sua classe contra a sociedade capitalista. Para se ter certeza, elas também concordam com as demandas do movimento feminino burguês, mas elas sabem que a simples realização dessas demandas é uma forma de impedir que o movimento entre na batalha, equipado com as mesmas armas, ao lado de todo o proletariado.

A sociedade burguesa não é fundamentalmente contra o movimento feminino burguês, o que pode ser provado pelo fato de que em vários estados foram iniciadas reformas das leis, em âmbito público e privado. Existem duas razões pelas quais a implementação dessas reformas parece demorar excepcionalmente na Alemanha: primeiramente, os homens temem a competição nas profissões liberais e precisa-se levar em consideração que o desenvolvimento da democracia burguesa é bastante lento e fraco na Alemanha, que não acompanha sua tarefa histórica porque sua classe dominante teme o proletariado. Temem que estas reformas só trarão vantagens para os social-democratas. Quanto menos a democracia burguesa se deixar levar pelo medo, mais estará preparada para realizar tais reformas. A Inglaterra é um bom exemplo. A Inglaterra é o único país que ainda tem uma burguesia verdadeiramente poderosa, enquanto a burguesia alemã, tremendo de medo do proletariado, se intimida em realizar reformas políticas e sociais. Assim como está a Alemanha, existe o fator adicional de visão Filistina ampla. A noção Filistina de prejuízo atinge profundamente a burguesia alemã. Para se ter certeza, este medo da burguesia alemã é muito raso. Garantir igualdade política para homens e mulheres não muda o atual balanço de forças. As mulheres proletárias acabam no proletariado e as da burguesia acabam no campo da burguesia. Não podemos nos deixar enganar pelas tendências socialistas no movimento de mulheres burguês, que só persistirá enquanto a burguesia feminina se sentir oprimida.

Quanto menos a democracia burguesa entende seu papel, mais importante é para a Social Democracia defender a igualdade política das mulheres. Não queremos parecer melhores do que somos. Não estamos reivindicando por um princípio, mas interessados na classe operária. Quanto mais o detrimento do trabalho feminino influenciar na vida dos homens, mais urgente se tornará a necessidade de incluí-las na batalha econômica. Quanto mais a batalha política afetar a existência de cada indivíduo, mais urgente será a participação das mulheres nessa luta. Foi a lei anti-socialista que deixou claro para as mulheres o que significava justiça de classe, Estado de classe e leis de classe. Foi esta lei que ensinou às mulheres a necessidade de aprender sobre a força que intervém tão brutalmente em suas famílias. A lei Anti-Socialista cumpriu com sucesso seu trabalho que não teria sido realizado por uma centena de agitadoras e, portanto, somos profundamente gratas a essa lei que como todos os órgãos do governo (desde o ministério até a polícia local) que participaram e contribuíram maravilhosamente com esses serviços involuntários de propaganda. Então, como podem acusar a nós, social democratas de ingratidão? (Risos) – sic.

Ainda existe outro evento que deve ser levado em consideração. Estou me referindo à publicação de Augusto Bebel, o livro “Mulheres e o Socialismo”. Este livro não deve ser julgado de acordo com seus aspectos positivos ou pelos seus atalhos. Deve ser julgado pelo contexto de quando foi escrito. Foi mais do que um livro, foi um evento – um maravilhoso tratado. (Bastante preciso). O livro apontou pela primeira vez a conexão entre a questão feminina e o desenvolvimento histórico. Pela primeira vez, deste livro soou um apelo: Nós apenas conquistaremos o futuro se persuadirmos as mulheres a se tornarem co-batalhadoras. Reconhecendo isso, não estou falando apenas como mulher, mas como uma camarada do partido.
Quais conclusões práticas nós podemos esboçar para nossa propaganda junto as mulheres? A tarefa que deste congresso do Partido não deve ser resumida a sugestões de detalhes práticos, mas desenhar diretrizes gerais para o movimento de mulheres.

Nossa linha de pensamento deve ser: não devemos conduzir propaganda especial para as mulheres, mas fazer agitação socialista entre as mulheres. Os interesses mesquinhos e momentâneos interesses do mundo feminino não podem ser permitidos nesse estágio. Nossa tarefa deve ser incorporar as trabalhadoras modernas na nossa luta de classes! Não temos tarefas especiais para a agitação junto às mulheres. Essas reformas para as mulheres que devem ser realizadas no âmbito da sociedade de hoje já são exigidas dentro do programa mínimo de nosso partido.

A propaganda das mulheres deve tocar naquelas questões que são de grande importância para todo o movimento operário. A principal tarefa, portanto, de acordar a consciência de classe das mulheres e incorporá-las à luta de classes vigente. A sindicalização das trabalhadoras é extremamente difícil. Durante os anos de 1892 a 1895, o número de trabalhadoras organizadas em centrais sindicais cresceu para cerca de 7000. Se adicionarmos a esse número as trabalhadoras organizadas em sindicatos locais e enxergarmos que ao menos 700.000 mulheres estão envolvidas ativamente nas grandes indústrias, então começaremos a entender o tamanho do trabalho de organização que ainda está a nossa frente. Nosso trabalho se torna mais difícil pelo fato de que muitas mulheres estão ativas na indústria caseira e podem, portanto, ser organizadas apenas com grande dificuldade. Também temos que lidar com a difundida crença entre as garotas jovens que seu trabalho industrial é apenas transitório e que terminará quando se casarem. Para muitas mulheres existe a dupla obrigação de ser ativa tanto na fábrica quanto em casa. O que é mais necessário para as trabalhadoras é obter uma jornada de trabalho legalmente fixada. Enquanto na Inglaterra todos concordam que a eliminação da indústria caseira, o estabelecimento de uma jornada de trabalho legal e o pagamento de salários mais altos são importantes requisitos para a sindicalização das trabalhadoras – na Alemanha, além desses obstáculos, enfrentamos também a obrigação da sindicalização e das assembléias. A completa liberdade de formar coalizões, que era garantida pela lei do Império, foi ilusoriamente retida pelas leis de cada estado federativo. Não quero discutir a forma como tal direito de formar um sindicato é tratado na Saxônia (mesmo que alguém possa falar de um direito lá). Mas em dois dos maiores estados federativos, a Bavária e a Prússia, as leis sindicais são tratadas de tal forma que a participação feminina nos sindicatos tem se tornado cada vez mais impossível. Mais recentemente na Prússia, o distrito do “liberal”, o eterno candidato a ministro, Herr Von Bennigsen tem feito o humanamente possível na interpretação da Lei da Sindicalização e das Assembléias. Na Bavária todas as mulheres são excluídas de reuniões públicas. Na Câmara de lá, Herr Von Freilitzsch declarou muito abertamente que ao lidar com a lei da sindicalização, não apenas o texto, mas também a intenção do legislador deve ser levada em consideração. Herr Von Freilitzsch está na melhor posição para saber exatamente as intenções dos legisladores, todos eles acabaram de morrer, antes deixando a Bavária com mais sorte do que qualquer um pudesse imaginar nos seus melhores sonhos, apontando Herr Von Freilitzsch como seu ministro da polícia. Isso não me surpreende por quem quer que receba um ofício de Deus também recebe a inteligência concomitante, e em nossa Era do Espiritualismo, Herr Von Freilitzsch obteve tanto sua inteligência oficial, como por meio da quarta dimensão, descobriu as intenções dos falecidos legisladores. (Risos.)

Esta situação, portanto, não dá possibilidade para que as trabalhadoras se organizem junto aos homens. Até agora, elas enfrentaram uma luta contra o poder policial e estratagemas jurídicos e, superficialmente, parecem ter sido derrotadas. Na realidade, entretanto, elas se tornaram vitoriosas porque todas as medidas usadas para esmagar a organização das trabalhadoras só serviram para despertar sua consciência de classe. Se quisermos ter uma poderosa organização de mulheres, tanto no aspecto econômico como político, devemos então, primeiramente, cuidar da possibilidade para um movimento feminino livre, lutando contra a indústria caseira, por jornadas de trabalho menores e, acima de tudo, contra o conceito de organização da classe dominante.

Não podemos determinar, neste congresso do Partido, qual forma nossa propaganda entre as mulheres deve tomar. Devemos, primeiramente, aprender como faremos nosso trabalho junto às mulheres. Na resolução que vos foi apresentada, propõe-se para eleger delegadas sindicais, cuja tarefa será a de estimular a união e organização econômica das mulheres e para consolidá-la de maneira uniforme e planejado. Esta proposta não é nova; foi adotada em princípio pelo Congresso do Partido de Frankfurt, e em algumas regiões foi implanado com sucesso. O tempo irá dizer se essa proposta, quando aplicada em maior escala, é adequada para colocar as mulheres em maior medida no movimento proletário.

Nossa propaganda não deve ser realizada apenas de maneira falada. Um grande número de pessoas passivas não estão em nossas reuniões e incontáveis esposas e mães não podem vir. Na verdade, não deve ser tarefa da propaganda socialista alienar a mulher trabalhadora de seus deveres como mãe e esposa. Ao contrário, ela deve ser encorajada a realizar essas tarefas melhor do que nunca. Quanto melhor suas condições em sua família, quanto mais eficiente for em casa, maior será sua capacidade de lutar. Quanto mais ela for modelo e educadora de seus filhos, mais hábil ela será para faze-los continuar na luta com o mesmo entusiasmo e sacrifício que tivemos para a libertação do proletariado. Quando um trabalhador disser: “Minha esposa!” ela pensará “camarada de meus ideais, companheira em minhas batalhas e mãe dos meus filhos, para as futuras batalhas.” Muitas mães e esposas que despertam a consciência de classe em seus maridos e filhos fazem tanto quanto as camaradas que nós vemos em nossas reuniões.

Se a montanha não vai a Maomé, Maomé deve ir à montanha: Nós devemos levar o Socialismo para as mulheres através de uma propaganda escrita planejada. Para tal campanha, eu sugiro a distribuição de panfletos e eu não quero dizer do tradicional panfleto no qual todo o programa socialista e todo o conhecimento científico do século estão condensados em um quarto de página. Não, nós devemos usar pequenos panfletos nos quais se discuta um problema prático de um ponto de vista, principalmente aquele da luta de classes, que é a tarefa principal. E não devemos assumir uma atitude indiferente para a produção técnica de panfletos. Não devemos usar, como é nossa tradição, o pior papel e o pior tipo de impressão. Tal panfleto miserável será amassado e jogado fora pelas trabalhadoras que não tem o mesmo respeito pela palavra impressa do que os trabalhadores. Devemos imitar os norte americanos e ingleses que faziam pequenos livretos de quatro a seis páginas. Pois mesmo uma trabalhadora é mulher suficiente para dizer para si mesma: “Isso é mesmo encantador. Terei que pegá-lo e mante-lo.” As frases que realmente importam devem ser impressas em letras grandes. Então as trabalhadoras não ficarão com medo de ler e sua atenção será estimulada.

Por causa de minhas experiências pessoais, não posso defender a fundação de um jornal especial para as mulheres. Minha experiência não é baseada na minha posição como editora do “Gleichheit” (que não é destinado à massa feminina, mas à sua vanguarda progressista), mas como distribuidora de literatura entre as trabalhadoras. Estimulada pelas ações de Frau Gnauck-Kuhne, eu distribui jornais por semanas em certa fábrica. Eu me convenci que as mulheres lá não só não aprenderam com aquele jornal o que era esclarecedor, mas o que era engraçado e de entretenimento. Dessa forma, os sacrifícios de se publicar um jornal barato não valeriam a pena.
Também criamos uma série de brochuras que traziam o Socialismo mais próximo das mulheres como trabalhadoras, esposas e mães. Exceto pela poderosa brochura de Frau Popp, não tivemos uma só que chegou ao número de requerimentos que precisávamos. Nossa imprensa diária, também, precisa realizar mais do que fez até então. Alguns jornais diários tiveram a intenção de esclarecer as mulheres adicionando o suplemento especial para mulheres. O “Magdeburger Volkstimme” é um exemplo e o camarada Goldstein no Zwickau tem estimulado habilidosamente e com sucesso. Mas até agora a imprensa diária manteve a trabalhadora como assinante, enaltecendo sua ignorância, seu gosto ruim e informe, no lugar de esclarecê-las.

Repito que estou apenas colocando sugestões para vossa consideração. Propaganda entre as mulheres é difícil e onerosa e requer grande devoção e sacrifício, mas este será recompensado e deve ser trazido à luz. O proletariado poderá se libertar apenas se lutar unido, sem diferenciar-se por nacionalidade ou profissão. No mesmo sentido, só se libertará sem a distinção por sexo. A incorporação de grandes massas de trabalhadoras na luta pela libertação do proletariado é um pré-requisito para a vitória do ideal socialista e para a construção da sociedade socialista.

Apenas a sociedade socialista irá resolver o conflito que hoje é gerado pela atividade profissional das mulheres. Uma vez que a família como uma unidade econômica irá desaparecer e seu lugar será tomado pela família como uma unidade moral, as mulheres terão igualdade em direitos, igual em criatividade, será companheira de frente de seu marido; sua individualidade poderá crescer no mesmo tempo e ela cumprirá suas tarefas de esposa e mãe da melhor forma possível.

Berlim, Outubro de 1896

Viva o Dia Internacional da Mulher

Dia de flores e chocolates?

Não é incomum no dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, que a mídia, o comércio, empresas, entidades e instituições incentivem a distribuição de flores, presentes e chocolates. As homenagens às mulheres são feitas por conta da sua beleza, meiguice, instinto maternal, etc. Quando se homenageiam mulheres “trabalhadoras”, estas são apresentadoras de TV, modelos e atrizes. E através delas se exalta a fictícia emancipação das mulheres.

O Dia Internacional das Mulheres surgiu em um contexto de luta das mulheres trabalhadoras. E apesar dos avanços já conquistados pelas mulheres advindos da organização de movimentos feministas, essa luta ainda não acabou. A sociedade ainda é machista e esse machismo tem oprimido, discriminado e matado inúmeras mulheres todos os anos. Vários dados atuais da situação da mulher provam a necessidade da luta: as mulheres ainda recebem cerca de 30% menos que os homens cumprindo a mesma função, no mundo, 70% das pessoas que vivem em pobreza absoluta são mulheres. Entre as 774 milhões de pessoas analfabetas, 551 milhões são mulheres. Dos lares chefiados por mulheres 70% não tem água potável e esgoto sanitário e 75% dessas chefas- mulheres não são proprietárias de sua moradia.

violencia-contra-mulheresNo que se refere à violência a mulher, os casos só têm aumentado, e a lei Maria da Penha ainda é insuficiente. No Brasil pesquisas mostram que a cada 2 minutos, 15 mulheres são agredidas fisicamente, mortas ou mutiladas. Isto significa que, pelo menos, 7,2 milhões de brasileiras com mais de 15 anos já sofreram algum tipo de violência. São denunciados mais de 50 mil estupros por anos no país e cresce o número de estupros nas universidades do Brasil, bem como atitudes machistas e ofensivas às mulheres em trotes e festas universitárias, como exemplifica as recentes notícias dessa natureza, que repercutiram na mídia, ocorridas na USP, UFMG e Universidade de Columbia – EUA. Em um desses casos (UFMG), estudantes de direito cantavam a “musiquinha” com o seguinte refrão: “não é estupro, é sexo surpresa”.

As mulheres jovens, nessa sociedade capitalista, são hipersexualizadas. Esse fato se observa, por exemplo, no período do carnaval, onde a comercialização do corpo das mulheres negras e jovens se transforma em prática “normal” e aceitável. As “novinhas” do funk são objetos sexuais e dessa forma todas as mulheres estão “disponíveis” aos homens e se a roupa for considerada vulgar ela “merece ser estuprada”. As marcas de cerveja, carro, pneu, etc., usam a imagem da mulher para vender suas mercadorias, ou vender as próprias mulheres. E transformadas em um produto, um bem de consumo, se tornam propriedade de um homem.

Diante dessa realidade a luta das mulheres é urgente e inevitável. Nessa conjuntura, o dia 8 de março não deve ser um dia apenas de flores e doces, mas sim de luta. As mulheres não estão emancipadas, não estão livres de fato. O sistema político e econômico em que vivemos, o capitalismo, oprime, esmaga as mulheres, pois perpetua a ideologia do machismo, do patriarcado, a cultura do estupro.

Portanto, combater o capitalismo significa combater toda a sua ideologia, o machismo, o racismo, a homo e lesbofobia. No dia 8 de março, a União da Juventude Rebelião – UJR junto ao Movimento de Mulheres Olga Benário convoca todas as jovens mulheres, estudantes, trabalhadoras, donas de casa, a estarem nas ruas do país reivindicando a igualdade de direitos e de salário, o respeito, o fim da violência e da discriminação, o direito à maternidade, o direito ao seu próprio corpo, mais creches, mais casas – abrigo, delegacias da mulher 24 hs, etc.

A luta das mulheres avança! Lute você também! Viva o Dia Internacional das Mulheres! Viva as mulheres que lutam!

“São flores, são armas!
Mulheres em ação
Unidas na luta
Pela revolução!”

Samara Martins – UJR – RN

Nota de esclarecimento

A União da Juventude Rebelião (UJR) vem a público manifestar sua profunda indignação com as calúnias e ataques sofridos pelo companheiro Lincoln Emmanuel, por parte da União da Juventude Socialista (UJS), frente a fatos supostamente ocorridos na última semana na cidade de Belo Horizonte-MG.

Essa organização busca recorrentemente esconder suas manobras e outros artifícios, tão conhecidos de todos aqueles que militam ou já militaram no movimento estudantil, criando cortinas de fumaças diante da realidade dos fatos, em especial quando os mesmos são desmascarados frente à base do movimento.

No último dia 12 de novembro, na Escola Estadual Governador Milton Campos, mais conhecida como Estadual Central, esse grupo tentou promover uma “eleição” para o grêmio estudantil, sem que respeitasse nenhuma instância deliberativa da entidade, como conselho de representantes de turma ou assembleia dos estudantes, ou seja, sem nenhuma legitimidade frente aos estudantes daquela instituição.

lincolnDiante da denúncia promovida por representantes de diversos grêmios estudantis, da AMES-BH, e em especial pela negativa dos estudantes do Estadual Central em compactuar com tal manobra, promoveram uma confusão visando criar um fato político, acusando o então presidente da AMES-BH e militante da UJR, Lincoln Emmanuel, de agressão a uma militante da UJS, a estudante goiana Daiany Macedo.

A tentativa de desviar o foco para a verdadeira agressão cometida, contra os estudantes e sua representação no Estadual Central, é inadmissível. Violência contra mulher é crime, e o Estadual Central já foi palco de violência a mulheres, como quando PM´s e seguranças agrediram a ex-presidente do grêmio Júlia Raffo. No entanto, usar do expediente da mentira com essa pauta para tentar esconder seus atos é uma atitude covarde,  vergonhosa e machista, uma vez que instrumentaliza a pauta do combate à violência contra as mulheres!

Como organização política revolucionária, a União da Juventude Rebelião e sua militância estão envolvidas de norte a sul do país no combate a violência contra a mulher, por mais direitos e igualdade para todos em nossa sociedade. De público gostaríamos ainda de afirmar que não aceitaremos essas calúnias e difamação sobre o companheiro Lincoln, e aqueles que têm promovido essa campanha de mentiras fiquem certos que responderão na justiça por tais acusações.

União da Juventude Rebelião, novembro de 2014.

Violência Contra a Mulher: Uma Luta Cotidiana!

O caso que ficou conhecido como a “Barbárie de Queiimagesmadas” teve fim com a resolução do julgamento do réu Eduardo dos Santos Pereira, o idealizador e principal executor do estupro coletivo que aconteceu na cidade de Queimadas, Agreste paraibano. Levado a Júri Popular, após 19 horas de julgamento, a sentença foi anunciada pelo juiz Antônio Maroja Limeira Filho às 9h desta sexta-feira (26) no plenário do 1º Tribunal do Júri de João Pessoa, no Fórum Criminal. Eduardo foi condenado a 106 anos e quatro meses de reclusão, além de uma pena de 1 ano e 10 meses de detenção pelo crime de lesão corporal de um dos adolescentes envolvidos no crime, que somam 108 anos e dois meses.

O episódio aconteceu no dia 12 de fevereiro de 2012, em uma festa de aniversário no município, cinco mulheres foram violentadas sexualmente e duas delas mortas. O plano do estupro coletivo teria sido articulado pelos irmãos Luciano e Eduardo dos Santos Pereira, juntamente com outros oito acusados, dentre eles três adolescentes. Eles teriam simulado assalto a uma festa com objetivo de estuprar as vítimas. De acordo com as investigações, o crime foi planejado e seria um presente de aniversário para um dos irmãos, presente este que culminou com a morte da professora Izabella Pajuçara e da recepcionista Michelle Domingos. Conforme o inquérito, o grupo é responsável pelos crimes de estupro, homicídio, formação de quadrilha, cárcere privado, corrupção de menores e porte ilegal de armas.

Dos envolvidos no caso, três adolescentes permanecem cumprimento pena socioeducativa no Lar do Garoto, na cidade de Lagoa Seca e os outros cumprem pena em regime fechado que variam de 26 a 44 anos de prisão no presídio de segurança máxima PB1, em João Pessoa.

Hoje foi encerrado apenas um dos milhares de casos de estupro que acompanham cotidianamente a realidade de nós, mulheres. Apenas cinco terão justiça diante da crueldade do abuso que sofremos diariamente, das almas feridas, do sangue derramado e da vida roubada que tiveram. Segundo a 7ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2012 foram registrados 50.617 casos de estupro no país, número superior ao de homicídios dolosos (47.136). Isso significa que, a cada dia, 138 vítimas vão à polícia relatar um estupro, por hora, seis pessoas buscam o Estado para procurar justiça. A pesquisa comprova que houve um aumento de 18,17% nos casos de estupro registrados em relação ao ano anterior.

Mas por que centenas de mulheres são abusadas diariamente num país com uma alta população de mulheres? O machismo! Além disso, a cultura do estupro, a qual dita meios para que as mulheres evitem o estupro, mas não ensina os homens a não estuprarem. As mulheres desde cedo são ensinadas a ter medo. Aprendemos a ter uma postura passiva, aprendemos que “Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”, que “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, que “Tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama”, aprendemos a evitar sair de casa, deixando de ocupar espaços que são nossos, que nos pertencem, que são necessários para a ampla participação na vida pública e política, aprendemos a não nos tornarmos “estupráveis”. Por um lado, os homens são ensinados que devem ter poder, inclusive sobre os corpos das mulheres.

A culpabilização da vítima, o ordenamento patriarcal permanece muito presente em nossa cultura, reforçado diariamente na desvalorização de todas as características que representam os femininos e a noção de que os homens não conseguem controlar seus instintos sexuais, legitimam o poder exercido pelos homens no dia a dia, institucionalizando-o por meio da lei, da religião, moral, cultura e da política. As violências cometidas contra mulheres são inúmeras e universais. Configuram todos os atos de violência acometidos contra os gêneros femininos, que causam ou que possam acarretar sofrimentos físicos, sexuais, morais, patrimoniais ou psicológicos às mulheres, seja na vida pública/política ou privada.

Combater a violência contra as mulheres é luta cotidiana e não se restringe apenas a violência sexual, física, psicológica, institucional e política, mulheres são agredidas a todo momento quando escutam que o estupro tem uma função: “colocar a mulher no seu devido lugar”; ao sentir-se uma vítima em potencial, quando discriminada por suas roupas ou comportamento, mostrando que, se ela quiser ocupar espaços públicos, sofrerá consequências negativas; quando é vítima da baixa representatividade política nos espaços de decisão, um reflexo de uma sociedade machista e patriarcal; quando necessita ser a “vítima perfeita”, que não bebe, se veste dos pés a cabeça, denuncia o agressor, desconhecido, imediatamente, para ser atendida com eficácia pelas Delegacias de Atendimento à Mulher, criadas justamente para casos delicados e de violência de gênero; é violentada quando tem o seu direito à vida questionado através de propostas como Projeto de Lei nº 478/2007, que visa estabelecer os direitos dos embriões (chamados, nascituros), projeto conhecido por Estatuto do Nascituro, o qual baseia-se na crença que a vida tem início desde a concepção, negando-a como cidadã plena de direitos; quando é parte integrante de um país cujo arcaico Código Penal, datado de 1940, tem o aborto como crime, permitindo-o apenas em casos de estupro, risco de morte para a gestante e anencefalia, entendendo-o como uma questão de crenças ou opiniões, deixando de tratá-lo enquanto uma questão de saúde pública; nos casos de violência obstetrícia, estupro marital ou quando são vítimas da invisibilidade lésbica e de manifestações lesbo e bifóbicas, além da hipersexualização e imposição de padrões ditados pelos meios de comunicação de massa.

Combater a violência contra a mulher deve ser nossa luta cotidiana, ponto chave para o fortalecimento e garantia da sororidade e da efetiva participação feminina nos espaços públicos/políticos, deliberativos ou não. Lutemos juntxs pela garantia da vida das mulheres, pela legalização do aborto, avanço na legislação e nas políticas públicas para erradicação da violência doméstica e de gênero; por uma real representatividade política nos espaços de decisão, pela liberdade de orientação sexual, por nós.  Lutemos por Olgas, Margaridas, Cláudias, Izabellas, Michelles.

Mayara Góes, estudante de Comunicação Social da Universidade Federal de Campina Grande. Diretora do DCE-UFCG, Sec. de Formação Política do Centro Acadêmico de Comunicação Social, membro da União Juventude e Rebelião, Movimento de Mulheres Olga Benário e Coletivo CONTIGOH (Coletivo de Combate às opressões a Negritude, Trabalhadorxs, Identidades de Gênero e à Ordem Heteronormativa).

Rompendo os moldes

Texto extraído da revista Chispa, das companheiras e dos companheiros da Juventude Comunista Revolucionária da Argentina:

Apesar das Mulheres serem de diferentes “formas e cores”, o sistema em que vivemos nos impõe uma imagem de mulher que golpeia nossa auto-estima, nos promove como objetos e nos leva por caminhos que afetam nossa saúde. Na contramão do que nos propõe o sistema, somos milhares de jovens que nos rebelamos para sairmos desses moldes.

barbiesDesde pequenas, o sistema nos vai impondo os modelos de mulheres que devemos ser. Altas , magras, brancas, preocupadas com a moda, a maquiagem. Desde as princesas da Disney até as bonecas Barbie, passando por um variado menu de programas de televisão, nos oferecem exemplos para triunfar na vida que passam fundamentalmente pelas aparências e o gostar do outro fisicamente.

Reduzem assim nossa integridade como pessoas, a meros objetos de consumo. Entregue a esses modelos, a cultura dominante nos ensina também a ser submissas e nos vão colocando em um lugar de inferioridade frente aos homens.

O problema fundamental aparece porque a maioria de nos somos diferentes desses modelos. Somos altas, baixas, magras, gordas, morenas, brancas, loiras, negras.  Somos diferentes, e isso esse sistema não aceita. E como não podemos nos parecer com esses modelos, vão atacando nossa auto-estima e impondo os valores de concorrência. Então aí esta o sistema para atacar de novo; entre outras coisas, nos oferecem os caminhos da bulimia e da anorexia para alcançar as metas. Um beco sem saída em que cada vez entram jovens com menos idade.

Por que temos que seguir um molde?

Para que o capitalismo marche a passos firmes, necessita que cada uma das pessoas cumpra um papel que faça funcionar sua engrenagem de acumulação de lucros e garanta a dominação dos que estão abaixo. E esses papeis são desde o lugar que ocupamos na produção, até o lugar que ocupamos em casa, na família e outros espaços. Para as mulheres o sistema tem reservado dois lugares fundamentais: donas de casa e objetos sexuais. Donas de casa que preparam a comida, vestem as crianças, limpam a casa, satisfazem o marido. Objetos sexuais disponíveis para a apreciação masculina, ratificando nosso lugar de submissão aos homens.

Assim, a cultura dominante nos vai ensinando como ser e qual é nosso lugar desde pequenas. Alguma vez já se questionaram por que porque entre as brincadeiras preferidas das meninas então as cozinhas, a pá e a vassourinha ou o kit de beleza? E para os meninos: caminhões, armas, soldadinhos. Assim nos ensinam a ser obedientes e dedicadas a casa, e a eles a serem poderosos, dominantes e das tarefas de casa… nem falar.

Belezas que matam

Um dos principais instrumentos de que transmitem os modelos que devem ser seguidos pelas mulheres e pelos homens são os meios de comunicação. Por exemplo, na televisão, são poucos os programas que nos mostram em nossa diversidade e contextos reais: estudando, trabalhando, segurando os ritmos de produção nas fábricas, lutando por nossos direitos, criando nossos filhos. Assim as pressões cotidianas, somam-se as pressões de ter que ser magras, altas, brancas, meigas, suaves.

Para alcançar esse objetivo de beleza o mercado põe a nossa disposição uma grande variedade de produtos e tratamentos para “perder os quilinhos extras”, “acabar com os pneuzinhos”, “ter o cabelo que sempre sonhamos”, para “eliminar as manchas do rosto”. Produtos que estão ao alcance de uma minoria que podem pagar por eles. Claro que isso não significa que elas não são vítimas dos mesmos estereótipos. Os mandamentos das mulheres atravessam todas as classes sociais, mas como se  passa em todos os casos as que mais sofrem são as mulheres mais pobres.

Assim mesmo, esses estereótipos de beleza impactam fundamentalmente as crianças e adolescentes. Golpeiam nossa auto-estima e nos levam a becos sem saída como são a bulimia e a anorexia.

Segundo estudos realizados na Argentina, a bulimia e anorexia aumentaram significativamente nos últimos anos. A cada cinco meninas, uma tem problemas com a visão de seu corpo e quando chegam as estações de calor se agrava o problema. A relação entre mulheres e homens que sofrem transtornos na alimentação é de 20 para 1. Vinte meninas a cada um menino.

Essas doenças são mais freqüentes na adolescência, mas a novidade é atacar meninas cada vez mais jovens, de 11 e 12 anos. Não há estatísticas oficiais no país sobre que porcentagem da população sofre com esses problemas, se calcula que no mundo cerca de 70 milhões de pessoas sofre de patologia alimentar e que as mulheres são 85 por cento.

Os transtornos alimentares podem ser tratados de maneira exitosa quando se conta com atenção médica e psicológica necessárias. Esse é um grande vazio político nas políticas públicas. Não é uma prioridade do governo na hora de desenhar políticas públicas para os e as jovens. Nos hospitais públicos, são poucos os profissionais especialistas nesse tema.  A isso se deve somar a dificuldade que é exteriorizar, contar o que nos passa, reconhecer que temos um problema.

Lutando por outros modelos

Nós cremos na beleza de todas as pessoas com as suas diversidades, com a  capacidade de comover-se com a dor dos outros, capacidade de rir, de lutar e dos milhares de talentos que, em maior ou menor medida, cada um vai desenvolvendo na arte, na cultura, no esporte, nos estudos e no trabalho.

Temos modelos de mulheres a seguir e não precisamos buscá-los na televisão ou em revistas. São as tantas que dia a dia levantam e se deparam com a realidade da fome, da falta de trabalho, da grana que é insuficiente para chegar ao fim do mês. São as que se organizam e lutam para mudar essa realidade.

E cremos também que é possível lutar por outros modelos de beleza que não comprometam nossa saúde, ponham em risco nossas vidas e que, fundamentalmente, incluam a grande variedade de corpos, formas, cabelos e cores da pele. São modelos pelos quais temos que seguir lutando, porque os que o sistema impõem nos matam e geram violência.

Chispa

Março é mês de luta das mulheres

O dia 8 de março não é apenas um dia de comemorações, mas um dia para lembrar a luta histórica e cotidiana das mulheres por um mundo de igualdade, em que se destacam as grandes e heroicas combatentes pela causa do socialismo. Não existe ou existiu uma só revolução popular que não tenha entre os mais destacados exemplos de combatentes, mulheres de grande fibra e capacidade revolucionária.

Por isso, durante todo esse mês de março, a UJR está promovendo debates e atividades em homenagem a todas as companheiras de ontem e de hoje e, principalmente, aquelas que nos honram em dividir diariamente os postos de combate por um mundo mais justo e igualitário e pela revolução socialista.

Como exemplo, apresentamos a transcrição de um dos textos do grande revolucionário Che Guevara em que ele homenageia duas grandes combatentes do Exército Rebelde Cubano. Essa é mais uma prova de que as mulheres estão sempre na vanguarda da causa do socialismo.

sept12-lidia-y-clodomiraLídia e Clodomira

Conheci Lídia seis meses após o início da gesta revolucionária. Eu estava estreando como comandante da Quarta Coluna, quando descíamos, numa incursão rapidíssima, para procurar mantimentos no vilarejo de San Pablo de Yao, perto de Bayamo, nas imediação de Sierra Maestra. Uma das primeiras casas do vilarejo pertencia a uma família de padeiros. Lídia, mulher de uns 45 anos, era uma das donas da padaria. A partir do primeiro momento, ela, cujo único filho pertencera à nossa coluna, uniu-se entusiasticamente e com uma devoção exemplar, aos trabalhos da Revolução.

Quando evoco seu nome, existe algo mais que uma apreciação carinhos para a revolucionária sem mácula, pois ela tinha uma devoção particular por minha pessoa que a levava a trabalhar preferencialmente sob as minhas ordens, qualquer que fosse a frente de operações que me fosse designada. São incontáveis os fatos em que Lídia interveio na sua qualidade de mensageira especial, minha ou do Movimento. Levou a Santiago de Cuba e Havana os mais comprometedores papéis, todas as comunicações de nossa coluna, os exemplares do jornal El Cubano Libre; trazia também a papelada, medicamentos, enfim, tudo o que fosse preciso e todas as vezes que isso fosse necessário.

Sua audácia se, limites fazia com que os mensageiros homens evitassem sua companhia. Lembro sempre os comentários, entre admirativos e ofuscados, de um deles, que me dizia: “Essa mulher tem mais… que Maceo*, mas vai afundar todos nós; as coisas que ela faz são completamente malucas, e o momento não é para brincadeiras”. Lídia, no entanto, continuava atravessando uma e outra vez as linhas inimigas.

Fui transferido para a zona de Mina Del Frío, em Vegas Jibacoa, e para lá foi ela deixando o acampamento auxiliar de que fora chefe, durante um tempo, e os homens que comandou com galhardia e, até um pouco tiranicamente, provocando certa mágoa entre os cubanos não acostumados a estar sob o comando de uma mulher. Esse posto era o mais avançado da Revolução, localizado num lugar chamado La Cueva, entre Yao e Bayamo. Tirei-lhe o comando porque era uma posição demasiado perigosa e, depois de localizada, foram muitas as vezes em que os rapazes tiveram que sair atirando do lugar. Tentei tirá-la definitivamente dali, coisa que só consegui quando me seguiu para a nova frente de combate.

Dentre as histórias que demonstram o caráter de Lídia, lembro agora o dia em que morreu um grande combatente imberbe de sobrenome Geilín, de Cárdenas. Este rapaz integrava nossa avançada no acampamento quando Lídia estava lá. Quando ela se dirigia para aquele local, retornando de uma missão, viu os soldados que avançavam sigilosamente sobre a posição, avisados sem dúvida por algum alcaguete. A reação de Lídia foi imediata; sacou seu pequeno revólver 32 para dar o alarme com um par de tiros para o ar. Mãos amigas impediram-na em tempo, pois isso teria custado a vida de todos. Entretanto, os soldados avançaram e surpreenderam as sentinelas do acampamento. Guillermo Geilín defendeu-se bravamente até que, ferido duas vezes, sabendo o que lhe aconteceria depois se caísse vivo nas mãos dos soldados, suicidou-se.

Os soldados chegaram, queimaram o que havia para queimar, e foram embora. No dia seguinte encontrei Lídia. Seu rosto indicava o maior desespero pela morte do pequeno combatente e também a indignação contra a pessoa que a impedira de dar o alarme. “A mim eles matavam”, dizia, “mas o rapaz estaria salvo; eu já sou velha, ele não tinha nem vinte anos.” Esse era o tema central de suas conversas. Às vezes parecia que havia uma ponta de vaidade em seu continuo desprezo verbal pela morte, porém, todos os trabalhos que lhe encomendamos, foram cumpridos perfeitamente.

Ela sabia como eu gostava de cachorros e sempre me prometeu trazer um de Havana sem poder cumprir a promessa. Nos dias da grande ofensiva do exército, Lídia cumpriu exemplarmente sua missão. Entrou e saiu da Sierra, trouxe e levou documentos importantíssimos, estabelecendo nossas ligações com o mundo exterior. Acompanhava-a outra combatente da sua linhagem, de quem lembro apenas o nome, como quase todo o Exército Rebelde que a conhece e a venera: Clodomira. Lídia e Clodomira já eram inseparáveis companheiras no perigo; iam e vinham juntas de um lugar para o outro.

Eu ordenara a Lídia que, assim que chegasse a Las Villas, depois da invasão, entrasse em contato comigo, pois deveria ser o principal meio de comunicação com Havana e com a Comandância Geral de Sierra Maestra. Cheguei, e pouco depois encontramos sua carta em que me anunciava que tinha um cachorro pronto para me dar de presente, que iria trazer na próxima viagem. Essa foi a viagem que Lídia e Clodomira nunca realizaram. Pouco depois eu soube que a fraqueza de um homem, cem vezes inferior como homem, como combatente, como revolucionário ou como pessoa, permitira a localização de um grupo em que se encontravam Lídia e Clodomira. Nossos companheiros defenderam-se até à morte; Lídia estava feria quando foi levada. Seus corpos desapareceram. Dormem seu último sono, Lídia e Clodomira, sem dúvida juntas como juntas lutaram nos últimos dias da grande batalha pela liberdade.

Talvez algum dia sejam encontrados seus despojos em algum esgoto ou num campo solitário deste enorme cemitério que foi a ilha inteira. No entanto, dentro do Exército Rebelde, viverá eternamente a memória das mulheres que faziam possíveis, com seu risco cotidiano, as comunicações pela ilha toda e, dentre todas elas, para nós, para aqueles que participamos da Frente nº 1 e, pessoalmente, para mim, Lídia ocupa um lugar todo especial. Por isso venho hoje deixar, em sua homenagem, estas palavras de recordação, como uma modesta flor diante do túmulo multitudinário que abriu suas milhares de bocas em nossa ilha antigamente alegre.

*Antônio Maceo, famoso general da província de Oriente que lutou pela independência de Cuba na Guerra dos Dez Anos 1868-1878 e 1895.

(Publicado inicialmente na revista Humanismo, nº 53 e 54, em janeiro e abril de 1959. Republicado como apêndice no livro de memórias Sierra Maestra – da Guerrilha ao poder, escrito por Che Guevara).

Lucas Marcelino – Diretor de Relações Internacionais da UNE e militante da UJR-SP

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