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Offshores e o “socialismo” Chinês

Nos últimos dias, a divulgação de uma grande lista do que está sendo chamado de Panama Papers começou a chamar a atenção mundial com a destinação de bilhões de dólares para offshores, empresas utilizadas para “esconder” patrimônio e dinheiro obtido de operações ilícitas em diversos países.

A lista composta por multimilionários, capitalistas, banqueiros, e mesmo chefes de Estado, conta com a presença de diversas autoridades e lideranças chinesas, que respondem por aproximadamente 30% das offshores da Mossack Fonseca, num total de 16.300 a partir dos escritórios de Hong Kong e da China.

Mas, a China não é um país socialista?

A revolução chinesa de 1949 abriu os caminhos para a construção de uma nova nação. Apesar da sua política de alianças com a burguesia, conseguiu implementar uma série de medidas importantes como a coletivização da terra, nacionalização das riquezas e empresas estrangeiras e obteve sensíveis melhorias ao nível de vida da população.

Contudo, o período seguinte fortaleceu a construção de um regime que, passo a passo, modificou a economia e a sociedade para a lógica do mercado e os interesses privados frente os interesses coletivos. Nas palavras de Deng Xiaoping, que esteve na liderança do PC Chinês a partir de 1978, “enriquecer é glorioso”, o que sintetizava a nova orientação vivida no país.

Hoje, a China constitui-se como uma grande potência econômica capitalista, com forte controle estatal sobre a economia, com sua ênfase e resultados econômicos voltados para as grandes empresas privadas, que possuem, inclusive, membros na direção do Partido Comunista Chinês, que quase mais nada possui de comunista.

Altos dirigentes chineses na lista da Mossack

Como resultado dessa política, a corrupção e o enriquecimento dentro das empresas chinesas, do próprio governo e do partido vem novamente à tona com essa publicação. Parentes de membros da direção do PC Chinês, e mesmo do presidente Xi Jinping estão presentes na lista da Mossack. Mas para que a utilização de uma offshore, por parte de um “dirigente comunista” ou de seus familiares?

Esse envolvimento apenas retrata o caminho seguido pela China, da construção de um “socialismo de mercado”, que na prática nada tem a ver com socialismo. Trata-se de mais uma nação capitalista, voltada para o lucro e construída sobre a exploração da numerosa mão-de-obra proveniente de seu país, e de relações imperialistas com diversas nações.

A deturpação do socialismo, sem dúvidas, cumpre um papel decisivo na luta ideológica das classes, e precisamos deixar claro que nada existe de socialismo ou comunismo nessas medidas. O combate a corrupção tão propagandeado pelo governo chinês cai por terra com essas denúncias, e na verdade apenas evidencia a corrupção como filha “legítima” do capitalismo.

Rafael Pires é membro da Coordenação Nacional da UJR

Je Suis trabalhadores

“É insensatez teórica e política criticar o terrorismo sem criticar o imperialismo. A grande imprensa noticia a barbárie como se ela nascesse dos atos do terrorismo, mas esquece que esta é, também, […] produto da própria lógica da sociedade capitalista. O terrorismo internacional é, contemporaneamente, o filho bastardo do imperialismo. Parece ser a única forma que determinados grupos dissidentes do poder quase absoluto dos EUA encontram para enfrentá-lo no plano material, já que não têm condições de fazê-lo nem no plano político-diplomático, nem no econômico e, muito menos, no militar. O que faz ver, mais uma vez, guardadas as devidas proporções, que não é sustentável falar do terrorismo sem falar do imperialismo.” (Paulo Cézar Tiellet)

Há meses, o terrorismo tem ocupado as páginas dos principais jornais do mundo após ataques que mataram centenas de pessoas na Europa. Por mais que os grandes veículos de comunicação só tenham mobilizado agora suas câmeras para os casos, há muito tempo grupos terroristas dominam vastos territórios no oriente médio e na África.

Para compreender melhor essa situação é preciso entender a origem da disputa política e dos grupos extremistas que surgiram no Oriente médio durante os anos 70-80. Para frear o avanço do socialismo na região, os Estados Unidos, França e Inglaterra armaram grupos para combater os governos pró soviéticos, como a Al-Qaeda no Afeganistão e o Talibã no Paquistão. Hoje um dos principais grupos que praticam o terrorismo é o Estado Islâmico (EL), também conhecido como Daesh ou ISIS, é um grupo jihadista radical sunita (um dos ramos do islamismo), sendo uma cisão Al-Qaeda. Atualmente o EL controla parte da Síria e do Iraque.

Bin Laden

Enquanto o terrorismo esteve localizado em algumas regiões “isoladas” do ocidente, a comunidade europeia e  norte americana pouco se mobilizava para combatê-lo. Mas o feitiço voltou contra o feiticeiro: a Europa e os EUA estruturaram, financiaram e armaram os grupos terroristas e hoje, depois das relações diplomáticas rompidas, eles se veem vítimas do terrorismo. Quer dizer, os que hoje surgem como paladinos da democracia, da paz e esperança de um mundo melhor, foram os na verdade criadores destas bestas que espalham terror mundo à fora.

O terrorismo é uma tática usada para demonstrar força e impor medo aos inimigos, basta ver os bombardeios atômicos nas cidades de Hiroshima- Nagasaki e o ataque químico de agente laranja no Vietnã, ambos coordenados pelos Estados Unidos, ou os recentes ataques terroristas na França coordenados pelo Estado Islâmico. O terrorismo não é uma prática unilateral de grupos que assassinam em nome da religião: ele e o imperialismo andam juntos, pois suas ações se baseiam na condenação da população civil inocente à catástrofe, na disseminação da violência e do medo através de táticas de guerra. Ações terroristas não são praticadas apenas por pessoas de burca, mas mas por aqueles que coordenam invasões à países, instalam ditaduras ou condenam povos inteiros à miséria e ao desterro.

Como grupos terroristas conseguem comprar tanques de guerras, aviões, misseis, carros de guerra blindados, armas de longo alcance e etc.? Como o ISIS consegue contratar milícias armadas de 5 mil soldados? Por que os Estados ditos “democráticos” não proíbem as industrias bélicas de vender armas à grupos terroristas? A resposta é simples: o capitalismo em crise precisa destruir força produtiva, precisa destruir e redividir suas semi-colônias para reconstruir e movimentar a economia, além da indústria bélica ser uma das maiores do mundo.

Segundo a Councilon Foreign Relations (CFR), as áreas sírias e iraquianas dirigidas pelo EL rendem 48 mil barris de petróleo/dia (44 mil dos campos sírios e 4 mil dos iraquianos). A venda do combustível gera até US$ 3 milhões por dia. Mas afinal, esses grupos terroristas controlam um dos territórios mais ricos em petróleo do mundo, quem compra o petróleo das regiões dominadas pelo Estado Islâmico?

O terror promovido pelo Estado Islâmico e outros grupos não tem objetivos apenas religiosos, nem residem naquilo que alguns chamam de conflito de civilizações. A reivindicação fundamental desses grupos é geopolítica, e no caso específico do califado* tem a ver com o arranjo geopolítico que as potências imperialistas fizeram no Oriente Médio no pós I Guerra, dividindo zonas de influência cujos limites estabelecidos se mantém até hoje justamente na Síria e no Iraque (Acordo de SykesPicot).

Outro exemplo, é a criação do Estado de Israel em 1949 no pós II Guerra; o imperialismo ergue fronteiras artificiais, obrigando povos que historicamente viveram juntos, a viverem em diferentes regiões. Somado a isso, as condições de vidas são pioradas, esses países funcionam como fantoches do imperialismo russo ou americano, a pobreza se amplia, o resultado são guerras civis. A religião, como sempre, cumpre um papel superestrutural, mas os reais motivos da beligerância são geopolíticos e econômicas: manter uma guerra civil prolongada nos países detentores de petróleos e estratégicos na região.

Nenhuma das ações tomadas pelas forças imperialistas russas, norte americanas, israelenses, francesas ou chinesas serão capazes de combater em nome da paz, já que elas vivem de guerras e as fomentam de qualquer custo para vender armas. Os países imperialistas coadunam com o terrorismo. As tropas russas e seus aliados estratégicos: o Irã e o grupo libanês Hezbollah, em uma semana destruíram importantes bases do Estado Islâmico, enfrentam os jihadistas, senão por serem aliados de Bashar al-Assad, presidente sírio que aplica uma política que privilegia os ricos e joga o povo sírio na miséria.

Por sua vez, o governo norte americano e seus governos fantoches da região como como Israel, Arábia Saudita e as monarquias do Golfo, armam os rebeldes que lutam para a derrubada de Assad e instalação de um governo pró EUA.

Na Nigéria, o BokoHaram, o grupo que sequestrou 276 estudantes de uma escola, desde 2014 já sequestrou mais de 2 mil mulheres no país. Dados da pesquisa “Índice de Terrorismo Global”, realizada pelo Institute for Economicsand Peace, mostram que o grupo terrorista BokoHaram é mais mortal e tem práticas mais cruéis que o Estado Islâmico. Por que a comunidade europeia, norte americana e russa, tão defensores da democracia, ainda não organizaram ações contra o BokoHaram? Será por que os cidadãos africanos valem menos que os cidadãos europeus?

Como produto direto da guerra vemsos migração, e de acordo com dados da ONU 300 mil pessoas já entraram na Europa, advindas principalmente da Síria, Líbia e Afeganistão, vindos de travessias em caminhões frigoríficos, balsas abarrotadas ou botes infláveis e condenando as pessoas a números de mortos que já chegam a 4 mil, uma média de 10 pessoas mortas por dia.

Independente se as ações terroristas vitimam franceses, nigerianos ou afegãos, uma característica entre eles é que todos esses ataques são contra trabalhadores e civis. A guerra e ações terroristas que assassinam e aterrorizam toda uma população mundial são produto senão do capitalismo, em sua fase mais avançada e apodrecida, o imperialismo.A solidariedade deve ser dada à todos os trabalhadores do mundo.

O Estado Islâmico, BokoHaram, o nazismo ou fascismo, nada mais são que o capitalismo em decomposição. Difícil saber em quanto tempo o ISIS será destruído ou se será; mas as ideias dos fundamentalistas e terroristas continuarão vivas se o terreno fértil de pobreza, autoritarismo, fome e violência em que ela se desenvolve não for tornado infrutífero. Contudo, dentro do capitalismo tais condições são impossíveis, já que para existir um país muito rico é preciso existir um continente inteiro muito pobre.

A União da Juventude Rebelião reafirma seu internacionalismo proletário e se coloca ao lado das forças progressistas que lutam por sua liberdade como os curdos no Iraque e na Síria. Somos todos trabalhadores do mundo!

* Califado – Um Estado-Nação regido pelas leis do Islã. O Estado Islâmico se reivindica um califado. “

Raphael Almeida é estudante de História da UFRJ e militante da UJR

Viva os 98 anos da Revolução Russa

A UJR saúda os 98 anos da vitoriosa Revolução Russa, e durante toda essa semana colocaremos e matérias e textos sobre o fato histórico mais importante do século XX, que abriu de forma irremidiável as possibilidades de ascensão da classe trabalhadora e a superação do sistema capitalista.

Nessa primeira matéria, temos um texto de autoria do companheiro Raphael Pena, estudante de história da UFRJ e militante da UJR .

Há 98 anos, no dia 7 de novembro de 1917 (25 de outubro no calendário juliano), o Partido Bolchevique dava início a um dos marcos da história da humanidade, a primeira experiência socialista vista no mundo. Depois da humanidade ter caminhado sobre sistemas extremamente desiguais como o escravagismo, o feudalismo e o capitalismo, em outubro de 1917, os comunistas russos tomavam o poder no maior país do mundo.

Nicolau II foi o último Czar (Imperador) da Rússia e tinha poder absoluto, ou seja, todos estavam submetidos a ele, inclusive a Igreja Católica Ortodoxa.O Czar conduzia o país de economia extremamente atrasada com mãos de ferro, reprimindo qualquer mobilização popular ou greve que ocorresse. Em 1914 a Rússia contava com 160 milhões de habitantes, com a taxa de natalidade altíssima nesse período, sua população aumenta em mais de dois milhões de pessoas por ano. Desse total de russos, 87 % russos viviam no campo e 81,5% é composto de pequenos agricultores. O espaço cultivável se concentrava na mão da igreja, do Czar ou dos latifundiários, sobrando poucas terras para o plantio dos pequenos produtores.

A I Guerra Mundial (1914-1918) cumpria um claro papel para o imperialismo, onde os membros da tríplice Aliança e Entente buscaram a divisão das colônias no mundo, formando novos protetorados e mercados, fazendo a redistribuição geopolítica do mundo. Essa disputa inter-imperialista teve como reflexo direto o aumento da exploração das camadas médias e pobres das populações, o aumento da miséria dos trabalhadores e a espoliação dos países. A insatisfação com a guerra no mundo inteiro era crescente.

Essa conjuntura possibilitou a ascensão do movimento democrático em todo mundo, principalmente na Rússia. Em fevereiro de 1917, a burguesia russa derruba o czar, o governo provisório assumiu o poder. Esse governo adotou algumas medidas, como: anistia para presos políticos, redução da jornada de trabalho para 8h. Estas medidas agradaram à burguesia, mas os reais interesses dos camponeses e dos operários ainda não haviam sido atendidos. Além do que o país continuara em guerra. Os bolcheviques, aos poucos, se tornaram os porta-vozes de todas essas reivindicações.

Os comunistas russos defendiam transformar a Guerra Imperialista em Guerra de Libertação Nacional como forma mais eficiente de ruptura com o capitalismo parasitário e, em outubro de 1917 a Revolução Bolchevique tomou forma concreta, onde os trabalhadores soviéticos sob direção do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e os lemas “Paz, Terra e Pão”, “Todo poder aos sovietes!”, “Nenhum apoio ao governo provisório!”, tomaram o poder na então Rússia Czarista. A primeira ação do PCUS foi convocar o II Congresso dos Sovietes de toda a Rússia que proclamou: “Apoiando-se na vontade da imensa maioria dos operários, soldados e camponeses e na insurreição triunfante levada a cabo pelos operários e a guarnição de Petrogrado, o Congresso toma em suas mãos o Poder” (A história do Partido Comunista (Bolchevique) da União Soviética, 1996, Edições Manoel Lisboa)

A primeira ação dos comunistas no poder foi propor a paz aos países em guerra, aprovaram também o decreto sobre a terra, no qual se declarava abolido o direito da propriedade privada, que passava a ser substituída pela propriedade de todo o povo. As terras dos latifundiários, da família imperial e da Igreja foram entregues para uso coletivo de todos os trabalhadores, e aos antigos proprietários, nenhuma indenização foi paga. Com essa resolução, a Revolução Bolchevique entregava aos camponeses mais de 150 milhões de hectares de terras. Todas as riquezas do subsolo, recursos hídricos, minerais (petróleo, carvão, diamante, etc.) e as matas passavam a ser propriedade do Povo soviético. Os bancos, as estradas de ferro, a marinha mercante, toda a indústria dos mais diversos ramos foram nacionalizadas. Todo os empréstimos exteriores contraídos pelo governo Czarista e pelo governo provisório foram anulados.

Enquanto medidas de coletivização eram tomadas como forma de suprir o rombo causado pela guerra, inúmeros capitalistas, latifundiários europeus em conjunto com os Estados da Alemanha, Inglaterra, França, Estados Unidos organizaram uma campanha com outros 10 países para derrubar a Revolução Socialista. A ação contava com bloqueios econômicos, financiamento à levantes contrarrevolucionários, boicote à produção, assassinato dos dirigentes do Partido e intervenção militar. Dentro da própria Rússia, os latifundiários e os czaristas formaram um exército que mais tarde viria se chamar Exército Branco contra a então Rússia Soviética. As ações contrarrevolucionárias duraram até 1921, quando a guerra civil e a invasão imperialista foi vencida pelas forças patrióticas socialistas.

Os Sovietes cresciam, Conselhos de Fábrica e Rurais eram criados como forma de poder popular, os números de militantes do Partido Comunista chegara em março de 1920 a 611.978.

Já a situação econômica russa em 1921 era desastrosa, o país estava em ruínas pelos 3 anos de participação na I Guerra Mundial, pelos quatro anos de guerra imperialista e os três anos de luta contra a intervenção armada do exército branco.

“Em 1920, a produção global da agricultura, comparada com a de antes da guerra, era somente a metade. E tenha-se em conta que o nível da produção agrícola de antes da guerra era o mísero nível próprio da aldeia russa dos tempos do czarismo. O ano de 1920 foi, além disso, em muitas províncias, um ano de má colheita. A Economia camponesa atravessava uma situação difícil.” (História do Partido Comunista (Bolchevique) da URSS – pág. 255, edições Manoel Lisboa)

A saída para o Estado Soviético foi a adoção da Nova Política Econômica –NEP-, que abria espaço para a pequena produção nos campos socialistas, rapidamente a NEP foi capaz de colocar a roda econômica soviética para girar, ainda que de modo muito tímida. Em 1924, o Partido a fim de aumentar e normalizar os salários, fez uma reforma monetária e ampliou o papel das cooperativas no mercado.

Com a industrialização, avançava também a eletrificação em todo o país, os salários se elevavam. Em 1926, depois de apenas nove anos sob direção do país, a economia já estava restaurada, mas as pretensões não eram de chegar a níveis de antes da guerra, haja vista que a Rússia Czarista era um país extremamente atrasado economicamente.

Um ano após a restauração da economia, a produção industrial crescia 18%. A cultura de cereais, ao contrário, apresentava um quadro muito enternecedor. Ainda que, em conjunto, a agricultura houvesse ultrapassado o nível de antes da guerra, a produção de cereais, só produzia 91% do nível de antes do conflito. Para dar resposta à fome que se avizinhava pela falta de cereais, o governo soviético decide combater a pequena burguesia agrária, os kulaks, coletivizando também suas terras aos camponeses pobres e aprofundando socialização da agricultura. Traçou-se um plano para desenvolver e consolidar uma rede de kolkoses (fazendas coletivas organizadas sob a forma de cooperativas de camponeses), sovkoses (fazenda estatal agrícola, baseada na propriedade estatal da terra e dos meios de produção). Deu início também a planificação da economia, o objetivo era desenvolver a produção industrial e agrícola do país para períodos de cinco anos, estes foram chamados de Planos Quinquenais. 

Os Planos Quinquenais, kolkoses e sovkoses mudaram radicalmente toda face econômica União Soviética. De um país agrário, semifeudal, transformou-se num país industrial, possuindo grandes e modernas indústrias, havia também um sistema de agricultura mecanizada em larga escala. Dezenas de milhares de novas escolas, estabelecimentos de educação superior e institutos de pesquisas científicas foram criadas para dar condições de vida digna ao povo.

Economia soviética em meio à crise de 1929

Quando veio o colapso da Bolsa de Nova York em 29 de outubro de 1929, os bancos norte-americanos estavam sobrecarregados de dívidas não saldadas, as ações antes supervalorizadas agora entravam em queda. Dados da época calculam que cerca de mil hipotecas de casas foram executas por dia após 1929. A recessão causou efeito dominó e a quebradeira levou centenas de bancos de todo mundo à falência. Mas a devastação da economia mundial só estava começando. 

O historiador Eric Hobsbawn estima que, entre 1929 e 1931, a produção norte-americana de automóveis caiu pela metade. Entre 1929 e 1932, as exportações e importações tiveram profunda recessão e despencaram em taxas de 70%. O desemprego era crescente, em 1929, apenas nos EUA, 4,6 milhões de trabalhadores tinham perdido seus empregos; em e em 1933, esse numero chegara a 27% da população.

“A produção industrial americana caiu cerca de um terço entre 1929 e 1931, e a alemã mais ou menos o mesmo, mas essas são médias suavizadas. Houve uma crise na produção básica, tanto de alimentos como de matérias-primas, porque os preços, não mais mantidos pela formação de estoques como antes, entraram em queda livre. O preço do chá e do trigo caiu dois terços, o da seda bruta três quartos.” (A era dos extremos – Eric Hobsbawn)

Em 1933 a economia norte americana caiu 65% em relação ao nível de 1929, a da Inglaterra 86%, a da Alemanha 66% e a da França 77%. Os resultados para a população foram desastrosas, a pobreza se generalizou, houve uma drástica desvalorização e a aniquilação de capitais e mercadorias. No epicentro da crise, o tombo foi mais alto, mas a recessão se expandiu para todo o sistema capitalista. O comércio mundial caiu 60%. Tornou-se cotidiano a destruição de forças produtivas e dos produtos, para tentar frear a queda dos preços, caso conhecido foi a queima do estoques de café no Brasil em 1930.

A crise econômica do capitalismo teve seu pior período, entre 1932 e 1933, o desemprego na Inglaterra chegou aos 23%. Na Alemanha, a taxa de desemprego atingiu 44%. Com o fechamento das fábricas, 24 milhões de operários ficaram sem sustento. Com a falta de emprego, as famílias não tinham dinheiro para pagar suas dívidas, suas hipotecas, alugueis e nem dinheiro para comer. A miséria assolou os países capitalistas do mundo. A crise econômica, levou à crise agrária, milhões de os camponeses e pequenos agricultores perderam suas terras e empregos.

No começo dos anos 30, a economia soviética desenvolvia-se enormemente, sem crises e catástrofes. Nesse período, a União Soviética era o único país, que não conhecia as crises nem as demais contradições do capitalismo já que sua economia era fincada na socialização da riqueza. A indústria da URSS crescia a ritmos desconhecidos na história.

“Em 1938, a produção da grande indústria da URSS representava 911% em comparação com a produção de 1913, ao passo que a produção industrial dos Estados Unidos era somente 137,1%, a da Inglaterra, de 114,5%, e a da França, 105,8%.” (Manual de Economia Política Academia de Ciências da URSS -Capítulo XVIII)

A economia soviética registrou em 1930 um crescimento de 20%. Entre os anos de 1929 e 1940, a produção industrial e do maquinário soviético triplicou, enquanto no mesmo o período Inglaterra, França e EUA viram suas atividades industriais cair de 59% para 52%. Se naqueles anos o capitalismo condenava milhões ao desterro e pobreza, na União das Republicas Socialistas Soviéticas não havia desemprego.

O crescimento industrial soviético garantia que o país avançasse anos luz nas áreas sociais e eletrificação. Nos piores anos da crise para o capitalismo (1930-1933), o país do socialismo cresceu 201% comparando 1933 em relação a 1929.Enquanto inúmeros países iam à bancarrota e completa falência, na outra parte do planeta, a população não sentia os efeitos da crise. Na União Soviética, graças a sua economia planificada, seu modelo produtivo e de socialização de produção, sua economia crescia de modos nunca antes vistos e não abrindo mão do brutal investimento nas áreas sociais. A crise econômica que devastou o ocidente pouco foi sentida na terra dos bolcheviques.

Haja vista que as crises econômicas dentro do capitalismo não tem fim, compreender as crises passadas se torna fundamental para o futuro. Em 1929, uma das formas de segurar a quebradeira dos bancos foi a aplicação do New Deal, uma política do Estado socorrer a economia privada, através do salvamento dos bancos, indústrias e fábricas. Mas o que de fato guinou e ajustou a economia foi a II Guerra Mundial, pelos mesmos fatores já citados acima no tocante à primeira guerra mundial: a redivisão das colônias, destruição e reconstrução de países, etc.

Nos dias atuais, quando, diante da maior crise do capitalismo desde 1929, vemos o mundo cindir-se em dois grandes blocos imperialistas: os Estados Unidos/União Europeia e a China/Rússia; à estes, juntam-se países dependentes e vassalos do imperialismo. Esses blocos marcham, hora de maneira velada, hora de maneira escancarada, para um novo confronto de grandes proporções e consequências sem medidas.

Vivemos numa conjuntura de nítido acirramento inter-imperialista, a crise de 1929 possibilitou a ascensão de governos nazifascistas como Hitler na Alemanha, Salazar em Portugal, Franco na Espanha, além de Benito Mussolini que já era primeiro-ministro na Itália desde 1922. Após o baque de 2008, organizações de cunho semelhante ao fascismo se fortaleceram no mundo e ganharam mais destaque, como o BokoHaram, Estado Islâmico, Hezzbolah e o Al-Shabaab.

O mundo marcha para mais uma catástrofe, relembrando Einsten: “A terceira guerra mundial eu não sei como será mas a quarta será com paus e pedras.” Diante do aumento do fascismo do mundo e retrocesso dos direitos civis no Brasil, a frase de Rosa Luxemburgo -Socialismo ou barbárie- faz cada vez mais sentido. É preciso tomar como exemplo a vitoriosa Revolução Russa e pôr à baixo esse sistema podre e falido que é o capitalismo.

“Assim a luta contra o capitalismo se transforma cada vez mais em um combate decisivo entre o Capital e Trabalho. Perigo de guerra, penúria e capitalismo – ou paz, prosperidade para todos, socialismo; eis os termos da alternativa. A história se adianta às grandes decisões. O proletariado deve incansavelmente realizar sua tarefa histórica, reforçar a força de sua organização, a clareza de seu conhecimento. Desde já, aconteça o que possa acontecer, seja que, pela força que ele representa, consiga poupar à humanidade o pesadelo abominável de uma guerra mundial, seja que o mundo capitalista só possa perecer e afundar no abismo da história tal como nasceu, ou seja no sangue e na violência, na hora histórica a classe operária estará pronta.” (Extraído de: Imperialismo ou Socialismo – Partido Comunista Alemão, 1920)

 

Não ao racismo!

Nos últimos meses temos acompanhado diversas manifestações recentes da população negra norte-americana e de refundadores do Partido dos Panteras Negras contra casos de racismo realizados pela polícia, pessoas da grande mídia, organizações e militantes de extrema-direita e, até mesmo, um pré-candidato à presidência dos Estados Unidos da América.

O caso mais recente aconteceu no dia 18 de julho, quando vários confrontos aconteceram entre militantes negros(as) e membros remanescentes da KKK (Klu Klux Klan), que organizaram uma manifestação contra a retirada da bandeira confederada que ainda tremulava no Capitólio (prédio do parlamento) da cidade de Columbia, no estado da Carolina do Sul, nos Estados Unidos.

O que representa a bandeira confederada?

ChargeEUAbandeiraConfederadaBillDayA bandeira confederada foi utilizada durante quatro anos, ainda no século XIX (1861 a 1865), pelos chamados “Estados Confederados” como símbolo da confederação que não reconhecia o governo oficial.

Em 1861 os EUA elegeram como presidente Abraham Lincoln, que tinha como principal proposta de campanha a abolição da escravidão dos negros. Seis estados (posteriormente chegaram a somar treze estados) do sul dos Estados Unidos se uniram em uma confederação para combater as medidas progressistas adotadas e para defender a manutenção da escravidão e o regime agrário que vigorava no país as custas da exploração da população negra, principalmente nos campos de plantação de algodão.

A tal confederação foi declarada ilegal por Lincoln e respondeu à decisão do presidente com armas, dando início à Guerra Civil que dividiu os EUA entre o norte abolicionista e o sul escravista. Embora a guerra tenha durado quatro anos, com a derrota da confederação para o governo oficial, as marcas da segregação nos EUA se mantiveram por muito tempo, principalmente nos estados do sul, que tinham ideais enraizados de opressão contra os negros. E somente na década de 1960 o governo norte-americano aprovou leis que declararam a igualdade entre negros e brancos.

O passado no presente

Os EUA insistem em se proclamar como a maior democracia do mundo, mas tudo isso não passa de um discurso furado, que só cola para a grande mídia burguesa que tenta vender essa ideia e enganar a população de todo o mundo, valendo-se disso em filmes, músicas e programas de televisão.

As manifestações protagonizadas pela organização racista Klu Klux Klan, mostram que a igualdade ainda está longe de ser alcançada na principal potência capitalista. Em tempos de crise, aqueles(as) que não são identificados com o perfil norte-americano: negros, latinos e imigrantes sofrem na pele a rejeição e perseguição dos setores mais reacionários.

A prova disso é que nos últimos anos tem se intensificado os crimes contra a população negra. Três casos recentes de assassinatos realizados pela polícia contra jovens negros desarmados e sem ficha criminal, tomaram repercussão em todo o mundo; há pouco menos de um mês um terrorista invadiu e matou nove pessoas em uma igreja, que era conhecida por ser frequentada pela população negra e como espaço de resistência nos tempos da segregação racial, na mesma cidade das manifestações da KKK. Agora, vemos a cobra do nazifascismo rastejando pelas ruas da cidade de Columbia e carregando bandeiras da confederação e com a suástica, saudando a ação deste terrorista.

O racismo deve ser denunciado e combatido

Precisamos analisar a questão racial sob a luz do marxismo, que nos leva ao materialismo histórico e ao caráter de classes dessa forma de preconceito. Uma sociedade construída sobre a exploração do povo negro, que se negou durante mais de 400 anos a dar o direito de que um negro pudesse sentar na mesma lanchonete que um branco, não vai eliminar o racismo de um dia para o outro, muito menos se tentarmos “esconder o problema” debaixo do tapete da Casa Branca.

cavaliers-nets-basket_franEnquanto algumas pessoas defendem que o racismo seja camuflado, a grande maioria, como os manifestantes de Ferguson, os militantes do New Panther Party (organização que tenta reconstruir o Partido dos Panteras Negras, famoso por defender os(as) negros(as) nos anos 60) e pessoas anônimas ou influentes da sociedade, denunciam todos os dias e combatem de forma ideológica e prática o racismo.

Devemos combater e denunciar no dia-a-dia qualquer atitude deste tipo dentro da sociedade. “NÃO PODEMOS RESPIRAR” enquanto jovens negros(as) morrerem assassinados na periferia ou enquanto qualquer negro(a) seja tratado de forma inferior por causa da cor da sua pele ou da sua cultura.

Coordenação Nacional da UJR

Guerra Civil Espanhola

guerra civil esConhecida também como previa da II Guerra Mundial, a Guerra Civil Espanhola que ocorreu entre 1936 e 1939 foi um marco na luta dos comunistas, anarquistas e democratas contra o fascismo a nível internacional. Antes de continuar o texto, é preciso se situar no contexto politico que a Espanha viveu e vive.

No começo do século XX, a Espanha ainda vivia num período monárquico absolutista. Enquanto outros países europeus já tinham aprofundado a Revolução Industrial e a burguesia tinha se constituído enquanto classe dominante, a Espanha ainda vivia no “latifundismo feudal”, sob mandos e desmandos da aristocracia, da Igreja Católica e dos latifundiários. Hoje este país é uma democracia organizada sob a forma de um governo parlamentar dentro de uma monarquia constitucional.

Durante a I Guerra Mundial (1915-1919) o país viveu o primeiro boom econômico e industrial. Os lucros cresceram enormemente e as fábricas também aumentaram em quantidade, assim, cada vez mais os trabalhadores do campo se tornavam trabalhadores fabris ou operários.

As fábricas da Catalunha (têxteis) – afirma Raymond Carr – supriam os soldados franceses. O desaparecimento do carvão galês barato estimulava uma atividade efervescente aos campos de carvão asturianos. Certamente muito desta atividade representava mais lucros rápidos do que uma expansão sadia… O segredo real da prosperidade do tempo de guerra da Espanha era a reversão dos termos de comércio de produtos primários e a alta dos preços que seus têxteis podiam impor… refletia-se, portanto, no preço em pesetas mais do que em uma explosão industrial.”

Contudo, o pós-guerra fez o mercado espanhol entrar em declínio. As minas de carvão foram fechadas, as Companhias donas de estaleiros estavam atoladas de dívida já que as taxas de frete caíram e os navios construídos já não tinham mais pedido de transporte. As usinas siderúrgicas não encontravam demandas para seus produtos. Os proprietários de terra, que tinham utilizado terras marginais para o cultivo, deixaram que elas voltassem a servir para o pastoreio. O subemprego agrícola agravou o desemprego nas cidades.

Frank Jellinek descreveu a situação espanhola daquele período na seguinte forma:

“A Espanha é um país de fome: principalmente da pura fome física, mas também da fome de terra. Uma população da qual aproximadamente 70% vive quase sem qualquer posse de terra. 65% detêm 6,3% da terra, enquanto 4% da população detêm 60% das terras cultiváveis.” ¹

Com o fechamento das fabricas, o número de demissões cresceu assustadoramente e os salários foram arrochados. Ocorreu, então, o que os historiadores chamam de Guerra Trabalhista. Esta guerra se caracterizou pelas gigantescas greves, pelos embates nas ruas de Barcelona entre operários e a policia e também pelo assassinato de dirigentes operários.

Em meio a tantos levantes dos trabalhadores e temendo uma revolta em defesa da república, as classes dirigentes (principalmente o latifúndio e a Igreja com a conivência do Rei Alfonso XIII) optam, em 1923 interromper a monarquia por uma ditadura militar chefiada pelo Coronel Antonio Primo de Rivera.

A passagem da monarquia para o regime militar não melhorou as coisas para as classes dominantes. Na prática, os militares eram marionetes na mão dos aristocratas e defensores da Monarquia. Antonio Primo de Rivera ordenou a suspensão do direito de julgamento por júri, da liberdade de imprensa,a repressão brutal aos levantes dos trabalhadores, impôs o exílio aos dirigentes camponeses e operários.

À medida que a repressão aumentava, acirrava o número de greves e levantes. Vendo que a ditadura militar tinha piorado a situação, a aristocracia ordena que o General renuncie do cargo, mas era tarde. Nesse momento a burguesia e os trabalhadores espanhóis defendiam o fim do golpe militar, o fim da monarquia e a convocação de eleições para o parlamento. As eleições municipais foram organizadas em abril 1931, elegendo: 117 socialistas, 93radicais, 59 socialistas radicais republicanos, 27 da Ação Republicana, 27 republicanosde direita, 33 nacionalistas catalães, 16 nacionalistas galicianos e outros 28 antimonarquistas. Os monarquistas conseguiram obter apenas 85 assentos.957733905_ec4882b082 (1)

Em Junho de 1931 eleições gerais são convocadas, apoiado na classe média, Manuel Azaña Díaz é eleito presidente. Com o resultado dessas eleições, o governo tinha elementos relativamente progressistas, entretanto, se mostrou extremamente incapaz de resolver os graves problemas que o povo vivia no período pós-crise econômica de 1929.

Nesse período, os anarquistas da Espanha dispunham de grande respeito entre as massas trabalhadoras, inclusive dirigiam a segunda maior central sindical do país, a Confederação Nacional do Trabalho (CNT).  No ano de 1933 novas eleições gerais foram convocadas, e os próprios anarquistas organizaram uma grande campanha de “Greve de voto”, orientando os trabalhadores (que provavelmente votariam em candidatos socialistas) a se abster do processo eleitoral. Com isso, tendo apoio da classe media e a burguesia espanhola, a Confederação Espanhola de Direitas Autônomas –CEDA- (Organização politica da direita) venceu as eleições, elegendo Alejandro Lerroux para a presidência da Espanha. Com a vitória da CEDA, a Falange Fascista que integrava a Confederação passa a ocupar cadeiras no parlamento.

O novo presidente atacou ainda mais o direito dos operários e camponeses: as propriedades da nobreza lhes foram devolvidas, os camponeses expropriados, os salários cortados. A resposta das duas maiores centrais sindicais do país, UGT e CNT, dirigidas por comunistas e anarquistas respectivamente foi imediata: Greve Geral. Lerroux, com isso, declarou guerra aos trabalhadores, bairros operários eram chacinados e greves reprimidas com violência bestial. David Mitchell escreve:

De cerca de 2.000 mortos ou feridos antes da rendição de 19 de outubro, todos menos dez por cento eram rebeldes: quase tantos outros rebeldes foram mortos na repressão sem piedade que se seguiu. Manuel Montequin recorda que em alguns lugares, mouros, legionários e guardas civis não pouparam sequer cachorros, cães, leitões ou vacas. Eles massacravam tudo que viam. Eu vi com meus próprios olhos quando lutei na aldeia de Villafria. Eles cortavam até as cabeças das bonecas das crianças. Trinta mil operários asturianos foram feitos prisioneiros e tiveram de ser confinados em campos de concentração, porque não havia mais lugar nas prisões.”

Quando em fevereiro de 1936 novas eleições presidenciais são convocadas,os comunistas do mundo lançam o seu grito de guerra: “Morte ao fascismo e à direita”. Os fascistas já tinham tomado o poder na Itália com Mussolini, em Portugal com Salazar, na Alemanha com Hitler e na Áustria com Kurt Schuschnigg.

Em meio ao crescimento desenfreado do fascismo desencadeado pela crise econômica capitalista de 1929, a Internacional Comunista² realiza o seu 7° Congresso em 1935. A orientação dada para os Partidos Comunistas de todo o mundo é a prioridade na luta contra o fascismo e o nazismo, daí surge a proposta da formação de frentes antifascistas, as chamadas Frentes Únicas ou Frentes Populares.

“Camaradas: milhões de operários e trabalhadores nos países capitalistas perguntam a si mesmo como se pode impedir que o fascismo chegue ao poder e como derrota-lo onde triunfou? A Internacional Comunista responde: o que é preciso fazer primeiro, por onde se há de começar, écriar a Frente Única, estabelecer unidade de ação dos operários de cada empresa, em cada bairro, em cada região, em cada pais no mundo inteiro. A unidade de ação do proletariado sobre um plano nacional e internacional, eis ai a arma poderosa que capacita a classe operaria não só para a defesa eficaz como também para a contraofensiva eficaz contra o fascismo, contra o inimigo de classe.”(Informe de George Dimitrov, Secretario Geral da III Internacional Comunista – Unidade Operaria Contra o Fascismo – Edições Manoel Lisboa)

O Partido Comunista da Espanha, partido integrante da III Internacional Comunista, fez um chamado para a formação da Frente Popular com o Partido Socialista, os republicanos de esquerda, liberais radicais, sindicalistas e antifascistas. Essa frente não contou com a participação dos anarquistas, mas ao final estes fizeram campanha para ela. Já a burguesia espanhola aliada com os monarquistas, o exército, a Igreja, a maçonaria, o latifúndio e os fascistas, organizaram a Frente Nacional para disputar as eleições parlamentares.

A Guerra Civil se inicia

A Frente Popular vence as eleiçõese ocupa 60% do parlamento. Não aceitando a derrota, com menos de quatro meses após as eleições, no dia 18 de Julho de 1936, o General Francisco Franco, a burguesia espanhola e os componentes da Frente Nacional (monarquistas, exército, Igreja, maçonaria, latifúndio e os fascistas espanhóis), financiados pelos fascistas europeus, principalmente por Hitler, insurge o Exercito contra o governo republicano (como ficaram conhecidas as forças da esquerda). O golpe militar começou no Marrocos, em Córdoba e Sevilha. Nos três primeiros dias, os golpistas já haviam tomado 25 cidades.

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Os ditadores fascistas Hitler e Franco

Na madrugada de 19 de julho, as forças de Franco foram surpreendidas pela resistência popular em Barcelona, o Sindicato de Trabalhadores em Transportes tomou posse de armas encontradas em navios estacionados no porto e as entregou aos operários. As patrulhas eram feitas pelos trabalhadores circulando na cidade em carros marcados com a sigla CNT-FAI (Confederação Nacional do Trabalho – Federação Anarquista Ibérica). As cidades que não caíram no poderio fascista, foram as cidades onde as armas foram confiadas ao povo e entregue aos trabalhadores como em Madrid, Barcelona e Catalunha. Para melhor organizar a resistência, o Partido Comunista cria as Milícias Populares armadas que contaram com o forte adesão do povo espanhol.

O país em pouco tempo de Guerra Civil ficou dividido numa área fascista, dominada pelas forças de Franco e numa área republicana, controlada pela esquerda. O cenário de destruição tinha tomado a Espanha, os fascistas europeus forneceram a Franco aviões, tanques, navios, armas de artilharia e de infantaria em grande quantidade. Hitler entregou ao poder dos franquistas uma companhia de Tanques e duzentos instrutores de guerra, ordenou também que 10 mil homens da força aérea nazista bombardeasse os territórios republicanos. Inclusive, um dos maiores massacres da Guerra foi efetuado pelos aviões nazistas, no bombardeio a Guernica, onde um terço da população da cidade foi morta. Mussolini, o ditador italiano, ordenou que 50 mil homens das forças armadas italiana avançassem contra os defensores da República.

A Igreja Católica também teve um papel determinante para o resultado da guerra civil, o apoio tático, politico e financeiro foi dado para as forças fascistas. A Igreja e os latifundiários espanhóis levantaram recursos e contrataram 75 mil mercenários marroquinos para atuar no exercito franquista. No interior do país, os Padres foram acusados de entregar nomes de pessoas defensoras da República, segredos de confissão, tudo que pudesse ser utilizados a favor das tropas de Franco. O espaço físico das Igrejas eram, muitas vezes, usados como Quarteis Generais.

Já nas áreas republicanas ocorreu uma revolução social radical, as terras foram coletivizadas; as fábricas foram dirigidas pelos próprios trabalhadores e seus sindicatos, assim como os meios de comunicação; a jornada de trabalho foi reduzida; houve inicio ao modelo laico de educação (já que a educação na Espanha era de responsabilidade da Igreja).

Devido as grandes conquistas do governo republicano em prol da classe trabalhadora, uma parte considerável do povo saiu em sua defesa e organizaram trincheiras intransponíveis, um desses exemplos foi na Batalha de Guadalajara em 1937, quando Mussolini ordenou às forças italianas a assumirem o papel principal na tentativa de cerco de Madrid. A derrota é estrondosa e humilhante, enquanto a ofensiva italiana contava com 35 mil homens, a resistência tinha apenas 10 mil republicanos.

Os trabalhadores do mundo se unem na luta antifascista

“Para viver de joelhos, é melhor morrer de pé! Os fascistas não passarão!”

10409628_694940860575851_3386234843382836875_n (1)Sob norte da orientação da Internacional Comunista, uma das maiores formas de solidariedades já vistas na historia da humanidade foi colocada em pratica: as Brigadas Internacionais.Vindos de 53 países, mais de 45 mil combatentes, entre eles: médicos, operários, engenheiros, camponeses, estudantes, músicos, poetas, soldados, fotógrafos, dirigentes comunistas ingressaram nas milícias populares e pegaram em armas na defesa do governo republicano.Conforme escreveu o poeta inglês W. H. Auden: “Vieram ofertar as suas vidas.”

Devido à operacionalidade de comunicação, optou-se por agrupar os Brigadistas por nacionalidades, ou por língua. Estas unidades rapidamente se auto intitularam com nomes de relativos às lutas de seus países ou algum representante dela, os franceses criaram o batalhão “Comuna de Paris”, os italianoso“Garibaldi”, os Búlgaros criaram o batalhão “Dimitrov” e etc.

O país que mais colaborou com a resistência foi a França, enviando mais de 13.300 combatentes, o Brasil também participou e enviou cerca de trinta³ patriotas, entre militantes do Partido Comunista, da ANL e antifascistas, entre os mais conhecidos está Apolônio de Carvalho. Muitos homens e mulheres que foram lutar contra o fascismo na Espanha nunca haviam colocado as mãos em armas antes, mas foram fundamentais para a resistência e seus nomes entraram na história.

O Partido Comunista da Espanha constrói uma barreira ideológica fortíssima na luta contra os fascistas, Isidora Dolores Ibárruri Gómez (também conhecida como La Pasionaria4) uma das principais figuras públicas do Partido organiza comícios e agitações nas praças:

“Faremos todos os sacrifícios possíveis ante que consentir com as forças que significam um passado de opressão, um passado de tirania! Todos contra a reação! Todos contra o fascismo! Abaixo os mafiosos contra revolucionários!Viva as milícias populares! Viva as tropas leais que lutam ao lado dos trabalhadores! Viva a Republica! Viva a Democracia! Os fascistas não passarão!”

O massacre aos operários espanhóis

O governo Francês fechou as fronteiras com a Espanha, com isso os aeroplanos, as 500 peças de artilharia e os 10 mil canhões que o Partido Comunista da União Soviética enviou para os republicanos, nunca conseguiram atravessar a divisa e ser utilizados contra os fascistas.

Infelizmente, a derrota em Teruel (cidade espanhola) quebrou a moral de alguns batalhões dirigidos por pequeno-burgueses que apoiavam a Republica. A classe operária da Espanha, no entanto, não estava disposta a render-se. O desenrolar da guerra tinha mostrado aos trabalhadores o tratamento que Franco os daria caso se rendesse, e o sentimento era de que era melhor morrer lutando. 20 de abril de 1938, o governo republicano apresentou ao outro lado um acordo de paz – um programa com 13 pontos, como uma maneira de terminar a guerra sem represálias.EJERCITO POPULAR

Depois de três anos de guerra, qualquer negociação tinha que ser feita com muita habilidade, com isso, para tornar a oferta aceitável, o governo necessitava fazer mais pressão sobre Franco. Por isso, no dia 25 de julho de 1938, os republicanos outra vez foram à ofensiva, cruzando o rio Ebro nosilêncio da noite, para recapturar o território perdido ao sul da Catalunha. Os fascistas tinham forças muito superiores, superando os republicanos na proporção de 12-1 na artilharia pesada, 15-1 em aviões de combate e 10-1 em porta-aviões. Acerca disso, os republicanos alcançaram uma magnífica vitória e foram capazes de manter suas conquistas por três meses.Em outubro, os fascistas espanhóis lançaram um contra-ataque contra o Exército Republicano do Ebro que resultou na perda de 70 mil republicanos, 50.000 mortos, 20.000 prisioneiros.

Depois da derrota em Ebro e a moral renovada dos fascistas, era apenas uma questão de tempo a tomada da Catalunha. Franco tinha 340.000 homens à sua disposição e armas abundantes sendo continuamente supridas por seus aliados. “Durante novembro e dezembro de 1938, comboios de navios italianos e alemães constantemente chegavam aos portos na zona de Franco, trazendo milhares de soldados e técnicos militares e milhares de toneladas de material de guerra”. Os republicanos tinham apenas 120.000 homens mal equipados, dos quais apenas 30.000 tinham rifles.O ataque fascista à Catalunha começou a 23 de dezembro. Graças à luta heroica doExército Republicano, o avanço foi retardado, porém não podia ser contido. Tarragona caiu a 14 de janeiro de 1939. O governo mudou-se de Barcelona para Gerona. Barcelona caiu a 26 de janeiro. Após a queda da Catalunha, a resistência da República se desfez, os socialistas e pequeno burgueses optaram por não continuar integrando a Frente Popular, preferindo a rendição às tropas de Franco.

Doze mil comunistas foram levados à prisão, os dirigentes foram entregues para Franco. Nesse ponto, a guerra estava perdida.Na terça-feira 28 de março de 1939, os fascistas entraram em Madri e, em 30 demarço, toda a Espanha tinha caído.

“A guerra estava terminada. Mas para a Espanha chegava a terrível paz do cadafalso, os pelotões ferozes nas madrugadas, as torturas inquisitoríais, o cruel extermínio dos comunistas – sim, e socialistas, anarquistas e republicanos também. Torrentes de sangue extinguiram o farol do heroísmo que tinha brilhado por dois anos e oito meses, iluminando o mundo e forjando o espírito de resistência entre os povos” (Sandóval e Azcárate)

“Lágrimas de noturno orvalho,

não de mágoa desiludida,

lágrimas que tão-só destilam desejo e ânsia

e certeza de que o dia amanhecerá.”

(Frederico Garcia Lorca- Famoso poeta espanhol assassinado pelas tropas de Franco na Guerra Civil Espahola)

A comunidade Internacional ligada a musica e cultura também se mobilizou em defesa da republica na Guerra Civil. Segue o link de um programa da EBCsobre a cultura na Guerra Civil Espanhola:

http://www.ebc.com.br/cultura/galeria/audios/2012/08/a-poesia-e-a-musica-na-guerra-civil-espanhola

Nota

¹-Citaçao do livro: “Trotskismo x Leninismo”, Cap. 16- O pano de fundo da Guerra Civil Espanhola.

2- Internacional Comunista, III Internacional ou Komintern, foi a reunião internacional dos Partidos Comunistas de diversos países. A III Internacional foi fundada pelo Partido Comunista Bolchevique e funcionou de 1919 até 1943. A fundação da Internacional Comunista significou a criação de um “Estado Maior” político-ideológico do movimento revolucionário do proletariado. Lênin foi o organizador e inspirador da Internacional, defendeu o marxismo revolucionário frente às deformações oportunistas e revisionistas de direita e de “esquerda”. A Internacional buscou a relação de camaradagementre os Partido Comunistas do mundo, com apoio econômico, politico, militar e ideológico, ela também desempenhou um papel fundamental na luta contra o fascismo e os nazistas na II Guerra Mundial. O Hino da Internacional Comunista se tornou o hino da maior parte dos Partidos Comunistas do mundo.

³- Numero oscila, as fontes históricas apontam de 18 a 41 militantes brasileiros nas brigadas internacionais.

4-Saiba mais sobre La Pasionaria em: http://averdade.org.br/2012/03/la-passionaria-os-fascistas-nao-passarao/

Fontes:

“O Cerco do Alcazar de Toledo – O Fascinante relato da Guerra Civil Espanhola” (Cecild. Eby)

“Um brasileiro na guerra civil espanhola” – (Jose Gay da Cunha)

“Metade da Espanha Morreu” (Herbert Matthews)

Raphael Pena é estudante do curso de História da UFRJ e militante da UJR

Rompendo os moldes

Texto extraído da revista Chispa, das companheiras e dos companheiros da Juventude Comunista Revolucionária da Argentina:

Apesar das Mulheres serem de diferentes “formas e cores”, o sistema em que vivemos nos impõe uma imagem de mulher que golpeia nossa auto-estima, nos promove como objetos e nos leva por caminhos que afetam nossa saúde. Na contramão do que nos propõe o sistema, somos milhares de jovens que nos rebelamos para sairmos desses moldes.

barbiesDesde pequenas, o sistema nos vai impondo os modelos de mulheres que devemos ser. Altas , magras, brancas, preocupadas com a moda, a maquiagem. Desde as princesas da Disney até as bonecas Barbie, passando por um variado menu de programas de televisão, nos oferecem exemplos para triunfar na vida que passam fundamentalmente pelas aparências e o gostar do outro fisicamente.

Reduzem assim nossa integridade como pessoas, a meros objetos de consumo. Entregue a esses modelos, a cultura dominante nos ensina também a ser submissas e nos vão colocando em um lugar de inferioridade frente aos homens.

O problema fundamental aparece porque a maioria de nos somos diferentes desses modelos. Somos altas, baixas, magras, gordas, morenas, brancas, loiras, negras.  Somos diferentes, e isso esse sistema não aceita. E como não podemos nos parecer com esses modelos, vão atacando nossa auto-estima e impondo os valores de concorrência. Então aí esta o sistema para atacar de novo; entre outras coisas, nos oferecem os caminhos da bulimia e da anorexia para alcançar as metas. Um beco sem saída em que cada vez entram jovens com menos idade.

Por que temos que seguir um molde?

Para que o capitalismo marche a passos firmes, necessita que cada uma das pessoas cumpra um papel que faça funcionar sua engrenagem de acumulação de lucros e garanta a dominação dos que estão abaixo. E esses papeis são desde o lugar que ocupamos na produção, até o lugar que ocupamos em casa, na família e outros espaços. Para as mulheres o sistema tem reservado dois lugares fundamentais: donas de casa e objetos sexuais. Donas de casa que preparam a comida, vestem as crianças, limpam a casa, satisfazem o marido. Objetos sexuais disponíveis para a apreciação masculina, ratificando nosso lugar de submissão aos homens.

Assim, a cultura dominante nos vai ensinando como ser e qual é nosso lugar desde pequenas. Alguma vez já se questionaram por que porque entre as brincadeiras preferidas das meninas então as cozinhas, a pá e a vassourinha ou o kit de beleza? E para os meninos: caminhões, armas, soldadinhos. Assim nos ensinam a ser obedientes e dedicadas a casa, e a eles a serem poderosos, dominantes e das tarefas de casa… nem falar.

Belezas que matam

Um dos principais instrumentos de que transmitem os modelos que devem ser seguidos pelas mulheres e pelos homens são os meios de comunicação. Por exemplo, na televisão, são poucos os programas que nos mostram em nossa diversidade e contextos reais: estudando, trabalhando, segurando os ritmos de produção nas fábricas, lutando por nossos direitos, criando nossos filhos. Assim as pressões cotidianas, somam-se as pressões de ter que ser magras, altas, brancas, meigas, suaves.

Para alcançar esse objetivo de beleza o mercado põe a nossa disposição uma grande variedade de produtos e tratamentos para “perder os quilinhos extras”, “acabar com os pneuzinhos”, “ter o cabelo que sempre sonhamos”, para “eliminar as manchas do rosto”. Produtos que estão ao alcance de uma minoria que podem pagar por eles. Claro que isso não significa que elas não são vítimas dos mesmos estereótipos. Os mandamentos das mulheres atravessam todas as classes sociais, mas como se  passa em todos os casos as que mais sofrem são as mulheres mais pobres.

Assim mesmo, esses estereótipos de beleza impactam fundamentalmente as crianças e adolescentes. Golpeiam nossa auto-estima e nos levam a becos sem saída como são a bulimia e a anorexia.

Segundo estudos realizados na Argentina, a bulimia e anorexia aumentaram significativamente nos últimos anos. A cada cinco meninas, uma tem problemas com a visão de seu corpo e quando chegam as estações de calor se agrava o problema. A relação entre mulheres e homens que sofrem transtornos na alimentação é de 20 para 1. Vinte meninas a cada um menino.

Essas doenças são mais freqüentes na adolescência, mas a novidade é atacar meninas cada vez mais jovens, de 11 e 12 anos. Não há estatísticas oficiais no país sobre que porcentagem da população sofre com esses problemas, se calcula que no mundo cerca de 70 milhões de pessoas sofre de patologia alimentar e que as mulheres são 85 por cento.

Os transtornos alimentares podem ser tratados de maneira exitosa quando se conta com atenção médica e psicológica necessárias. Esse é um grande vazio político nas políticas públicas. Não é uma prioridade do governo na hora de desenhar políticas públicas para os e as jovens. Nos hospitais públicos, são poucos os profissionais especialistas nesse tema.  A isso se deve somar a dificuldade que é exteriorizar, contar o que nos passa, reconhecer que temos um problema.

Lutando por outros modelos

Nós cremos na beleza de todas as pessoas com as suas diversidades, com a  capacidade de comover-se com a dor dos outros, capacidade de rir, de lutar e dos milhares de talentos que, em maior ou menor medida, cada um vai desenvolvendo na arte, na cultura, no esporte, nos estudos e no trabalho.

Temos modelos de mulheres a seguir e não precisamos buscá-los na televisão ou em revistas. São as tantas que dia a dia levantam e se deparam com a realidade da fome, da falta de trabalho, da grana que é insuficiente para chegar ao fim do mês. São as que se organizam e lutam para mudar essa realidade.

E cremos também que é possível lutar por outros modelos de beleza que não comprometam nossa saúde, ponham em risco nossas vidas e que, fundamentalmente, incluam a grande variedade de corpos, formas, cabelos e cores da pele. São modelos pelos quais temos que seguir lutando, porque os que o sistema impõem nos matam e geram violência.

Chispa

Março é mês de luta das mulheres

O dia 8 de março não é apenas um dia de comemorações, mas um dia para lembrar a luta histórica e cotidiana das mulheres por um mundo de igualdade, em que se destacam as grandes e heroicas combatentes pela causa do socialismo. Não existe ou existiu uma só revolução popular que não tenha entre os mais destacados exemplos de combatentes, mulheres de grande fibra e capacidade revolucionária.

Por isso, durante todo esse mês de março, a UJR está promovendo debates e atividades em homenagem a todas as companheiras de ontem e de hoje e, principalmente, aquelas que nos honram em dividir diariamente os postos de combate por um mundo mais justo e igualitário e pela revolução socialista.

Como exemplo, apresentamos a transcrição de um dos textos do grande revolucionário Che Guevara em que ele homenageia duas grandes combatentes do Exército Rebelde Cubano. Essa é mais uma prova de que as mulheres estão sempre na vanguarda da causa do socialismo.

sept12-lidia-y-clodomiraLídia e Clodomira

Conheci Lídia seis meses após o início da gesta revolucionária. Eu estava estreando como comandante da Quarta Coluna, quando descíamos, numa incursão rapidíssima, para procurar mantimentos no vilarejo de San Pablo de Yao, perto de Bayamo, nas imediação de Sierra Maestra. Uma das primeiras casas do vilarejo pertencia a uma família de padeiros. Lídia, mulher de uns 45 anos, era uma das donas da padaria. A partir do primeiro momento, ela, cujo único filho pertencera à nossa coluna, uniu-se entusiasticamente e com uma devoção exemplar, aos trabalhos da Revolução.

Quando evoco seu nome, existe algo mais que uma apreciação carinhos para a revolucionária sem mácula, pois ela tinha uma devoção particular por minha pessoa que a levava a trabalhar preferencialmente sob as minhas ordens, qualquer que fosse a frente de operações que me fosse designada. São incontáveis os fatos em que Lídia interveio na sua qualidade de mensageira especial, minha ou do Movimento. Levou a Santiago de Cuba e Havana os mais comprometedores papéis, todas as comunicações de nossa coluna, os exemplares do jornal El Cubano Libre; trazia também a papelada, medicamentos, enfim, tudo o que fosse preciso e todas as vezes que isso fosse necessário.

Sua audácia se, limites fazia com que os mensageiros homens evitassem sua companhia. Lembro sempre os comentários, entre admirativos e ofuscados, de um deles, que me dizia: “Essa mulher tem mais… que Maceo*, mas vai afundar todos nós; as coisas que ela faz são completamente malucas, e o momento não é para brincadeiras”. Lídia, no entanto, continuava atravessando uma e outra vez as linhas inimigas.

Fui transferido para a zona de Mina Del Frío, em Vegas Jibacoa, e para lá foi ela deixando o acampamento auxiliar de que fora chefe, durante um tempo, e os homens que comandou com galhardia e, até um pouco tiranicamente, provocando certa mágoa entre os cubanos não acostumados a estar sob o comando de uma mulher. Esse posto era o mais avançado da Revolução, localizado num lugar chamado La Cueva, entre Yao e Bayamo. Tirei-lhe o comando porque era uma posição demasiado perigosa e, depois de localizada, foram muitas as vezes em que os rapazes tiveram que sair atirando do lugar. Tentei tirá-la definitivamente dali, coisa que só consegui quando me seguiu para a nova frente de combate.

Dentre as histórias que demonstram o caráter de Lídia, lembro agora o dia em que morreu um grande combatente imberbe de sobrenome Geilín, de Cárdenas. Este rapaz integrava nossa avançada no acampamento quando Lídia estava lá. Quando ela se dirigia para aquele local, retornando de uma missão, viu os soldados que avançavam sigilosamente sobre a posição, avisados sem dúvida por algum alcaguete. A reação de Lídia foi imediata; sacou seu pequeno revólver 32 para dar o alarme com um par de tiros para o ar. Mãos amigas impediram-na em tempo, pois isso teria custado a vida de todos. Entretanto, os soldados avançaram e surpreenderam as sentinelas do acampamento. Guillermo Geilín defendeu-se bravamente até que, ferido duas vezes, sabendo o que lhe aconteceria depois se caísse vivo nas mãos dos soldados, suicidou-se.

Os soldados chegaram, queimaram o que havia para queimar, e foram embora. No dia seguinte encontrei Lídia. Seu rosto indicava o maior desespero pela morte do pequeno combatente e também a indignação contra a pessoa que a impedira de dar o alarme. “A mim eles matavam”, dizia, “mas o rapaz estaria salvo; eu já sou velha, ele não tinha nem vinte anos.” Esse era o tema central de suas conversas. Às vezes parecia que havia uma ponta de vaidade em seu continuo desprezo verbal pela morte, porém, todos os trabalhos que lhe encomendamos, foram cumpridos perfeitamente.

Ela sabia como eu gostava de cachorros e sempre me prometeu trazer um de Havana sem poder cumprir a promessa. Nos dias da grande ofensiva do exército, Lídia cumpriu exemplarmente sua missão. Entrou e saiu da Sierra, trouxe e levou documentos importantíssimos, estabelecendo nossas ligações com o mundo exterior. Acompanhava-a outra combatente da sua linhagem, de quem lembro apenas o nome, como quase todo o Exército Rebelde que a conhece e a venera: Clodomira. Lídia e Clodomira já eram inseparáveis companheiras no perigo; iam e vinham juntas de um lugar para o outro.

Eu ordenara a Lídia que, assim que chegasse a Las Villas, depois da invasão, entrasse em contato comigo, pois deveria ser o principal meio de comunicação com Havana e com a Comandância Geral de Sierra Maestra. Cheguei, e pouco depois encontramos sua carta em que me anunciava que tinha um cachorro pronto para me dar de presente, que iria trazer na próxima viagem. Essa foi a viagem que Lídia e Clodomira nunca realizaram. Pouco depois eu soube que a fraqueza de um homem, cem vezes inferior como homem, como combatente, como revolucionário ou como pessoa, permitira a localização de um grupo em que se encontravam Lídia e Clodomira. Nossos companheiros defenderam-se até à morte; Lídia estava feria quando foi levada. Seus corpos desapareceram. Dormem seu último sono, Lídia e Clodomira, sem dúvida juntas como juntas lutaram nos últimos dias da grande batalha pela liberdade.

Talvez algum dia sejam encontrados seus despojos em algum esgoto ou num campo solitário deste enorme cemitério que foi a ilha inteira. No entanto, dentro do Exército Rebelde, viverá eternamente a memória das mulheres que faziam possíveis, com seu risco cotidiano, as comunicações pela ilha toda e, dentre todas elas, para nós, para aqueles que participamos da Frente nº 1 e, pessoalmente, para mim, Lídia ocupa um lugar todo especial. Por isso venho hoje deixar, em sua homenagem, estas palavras de recordação, como uma modesta flor diante do túmulo multitudinário que abriu suas milhares de bocas em nossa ilha antigamente alegre.

*Antônio Maceo, famoso general da província de Oriente que lutou pela independência de Cuba na Guerra dos Dez Anos 1868-1878 e 1895.

(Publicado inicialmente na revista Humanismo, nº 53 e 54, em janeiro e abril de 1959. Republicado como apêndice no livro de memórias Sierra Maestra – da Guerrilha ao poder, escrito por Che Guevara).

Lucas Marcelino – Diretor de Relações Internacionais da UNE e militante da UJR-SP

“BRUXA DO 71”: DA GUERRILHA ÀS TELAS DE TV

bruxa do 71 . 2Quem nunca teve momentos da vida assistindo o seriado Chaves? São várias gerações que se divertiram e ainda se divertem assistindo as trapalhadas dos moradores da vila onde Chaves, Kiko, Chiquinha, Seu Madruga e muitos outros personagens viviam. Recentemente uma nova revelação sobre a vida de uma das atrizes do seriado foi publicada no site do jornal chileno El Ciudadano. Angelines Fernandéz, a “Bruxa do 71”, em sua juventude na Espanha, foi uma guerrilheira que combateu a ditadura de Francisco Franco.

Angelines Fernandéz nasceu em 1922, na cidade de Madrid. Como muitos jovens espanhóis, não aceitou as condições de miséria em que o seu povo vivia, por isso participou da luta armada durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), que tinha por objetivo impedir o avanço do fascismo de Franco no país. Após a derrota das forças antifascistas ela permaneceu na luta para derrubar o governo que reprimiu os movimentos sociais, atacou os direito civis e políticos e matou milhares de pessoas na Espanha, além de aumentar a opressão sobre os povos das colônias espanholas na África, como o Marrocos e o Saara Ocidental.

angelines nova

Em 1947, devido à repressão da ditadura franquista, Angelines foi para o México, onde desenvolveu sua carreira artística. Ela atuou no teatro, em telenovelas e foi pioneira do cinema mexicano, mas foi no papel de “Dona Clotilde” que obteve reconhecimento mundial.  Com sua contribuição para um humor crítico e irreverente, através do seriado Chaves, e sua luta antifascista, a figura de Fernandéz é para toda a juventude um exemplo de grande artista e reforça a importância das mulheres na luta revolucionária.

Katerine Oliveira – 1ª vice-presidente da UNE e Felipe Annunziata – Estudante de História da UFRJ. 

Viva os 55 anos da Revolução Cubana

No aniversário da Revolução Cubana, uma homenagem de rebeliao.org com os fragmentos do texto “Celia Sánchez: a flor mais autóctone da revolução”, do historiador José Levino, publicado no Jornal A Verdade em setembro de 2011, relatando a vida de uma das grandes mulheres combatentes da América Latina.

celia_2Seu nome está nas ruas, nas praças, escolas e, principalmente em inúmeras meninas que, em todo o país, levam seu nome, numa homenagem das suas mães à heroína do povo cubano.

Ela, que amava a natureza, cultivava belos jardins floridos, foi denominada por Fidel como “A flor mais autóctone da revolução”.

Celia Sánchez Manduley, fundadora e dirigente do Movimento 26 de Julho na Província do Oriente, nasceu no dia 9 de maio de 1920, na localidade de Media Luna, Província Oriental de Cuba. Foi uma dos(as) nove filhos (as) de doutor Manuel Sánchez e Acácia Manduley. Seu pai era médico e atendia os camponeses com muita eficiência e solicitude; era muito querido na região. Pertencia ao Partido do Povo Cubano, mais conhecido como Partido Ortodoxo. Ainda adolescente, Célia ingressou no setor jovem do Partido ao qual pertencia Fidel Castro, então estudante de Direito em Havana.

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Com sua simpatia, dedicação, conhecimento da região e do seu povo, Célia organizou o movimento na região oriental, juntamente com Frank País e criou uma rede humana para apoiar a guerrilha libertadora. É esse trabalho de mobilização, organização e conscientização popular, que explica a proeza de doze homens, sobreviventes do desembarque do Granma, terem, em pouco tempo, se tornado um invencível Exército Rebelde, que tomou o poder apenas 25 meses após o episódio sobre o qual Che Guevara costumava dizer: “Não foi um desembarque, foi um naufrágio”. Se tivessem desembarcado no local combinado, teriam encontrado dezenas de homens liderados por Celia, com caminhões, caminhonetes, toda a infraestrutura necessária para conduzi-los a Sierra Maestra.

Quando espalharam o boato da morte de Fidel nos primeiros ataques após o desembarque (70 expedicionários mortos), a angústia foi generalizada. Celia, entretanto, embora extremamente abalada, manteve o ânimo e levantou o moral dos companheiros, afirmando: “É mentira de Batista, Fidel Vive”! Estava certa. “Foi Norma quem nos deu o alento necessário, quem nos ajudou a manter viva a esperança”, relata Julio M. Llanes em Celia, nossa e das flores.

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celiaFoi a primeira guerrilheira da Sierra. Depois, outras mulheres seguiram o caminho aberto por ela, que demonstrou ser a mulher capaz de assumir as mesmas tarefas dos homens. Prova disso foi sua participação em pé de igualdade no ataque ao Quartel Uvero, a primeira grande vitória da guerrilha sobre o Exército de Batista.

Em Sierra Maestra, além de combater, Célia atuou como secretária e memória viva da guerrilha, pois guardava todos os documentos, papéis, anotações, palavras e discursos de Fidel, até as piadas que o Comandante contava em momentos de descontração. A quem considerava um exagero guardar tudo, ela afirmava: “Há muitos papéis sem importância hoje, mas para o futuro e para a história, serão de grande valor”. Todos os detalhes e o dia-a-dia da guerra são conhecidos graças ao Diário de Che Guevara e à documentação de Célia.

Secretária, conselheira, defensora da cultura e das flores

Célia integrava o Comitê Central do Partido Comunista Cubano, fundado em 1965, que unificou o Movimento 26 de Julho e o Partido Socialista Popular. No Governo, foi secretária do Conselho de Estado e destacou-se como defensora e difusora da história, das artes, da moda, da comida e de todas as formas de manifestação da nacionalidade cubana, assistiu o Comandante como amiga e conselheira, além de defender a natureza e cuidar das flores. Morreu, vitimada por um câncer, no dia 11 de janeiro de 1980.

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Nada melhor para concluir estas linhas sobre Celia Sánchez que as palavras pronunciadas por Armando Hart, presidente do Centro de Estudos Martianos: “Para medir quem foi esta nossa irmã, basta sublinhar que é impossível escrever a história de Fidel Castro sem relacioná-la à vida de Célia Sánchez Manduley”.

José Levino, historiador (fragmentos)

Asilo para Edward Snowden já!

Snowden (1)“Não quero viver em um mundo em que tudo o que digo, tudo o que faço, todos com quem falo, cada expressão de criatividade, de amor ou amizade seja registrado. Não é algo que estou disposto a apoiar, não é algo que estou disposto a construir e não é algo sob o qual estou disposto a viver.” (Edward Snowden em Carta Aberta ao Povo Brasileiro)

Em dezembro o ex-técnico da Agência Nacional de Segurança dos EUA, Edward Snowden enviou uma carta ao povo brasileiro relatando sua importante luta contra o sistema em que vivemos por meio de suas denúncias contra os crimes cometidos pelo governo norte-americano, que vigia todos os habitantes através da espionagem em massa.

Na véspera de Natal, na Inglaterra, após a tradicional mensagem de Natal da Rainha, foi transmitida em uma das emissoras uma mensagem de Natal de Snowden (aqui) em que ele defende a importância da privacidade para o desenvolvimento pessoal, principalmente das gerações futuras. Privacidade perdida – conscientemente – com as redes sociais e – inconscientemente – com a espionagem dos governos capitalistas.

Edward Snowden é mais um lutador contra o sistema capitalista, embora não diga diretamente. Mas sua decisão de romper com a doutrinação que seguem os funcionários dos sistemas de defesa do país mais capitalista do mundo, pode – respeitando as diferenças – ser comparado com militares que se negaram a apoiar o golpe que instituiu a Ditadura Militar no Brasil em 1964 ou com os jovens recrutas que se negaram a ir ao Vietnam defender a guerra criminosa realizada pelos mesmos Estados Unidos.

Como o próprio Snowden cita em sua carta ele foi “para diante daquela câmera [onde gravou o vídeo de denúncia] de olhos abertos, com a consciência de que a decisão custaria minha família e meu lar e colocaria minha vida em risco”.

Sem dúvida hoje Snowden é um perseguido político e que poderia, e ainda pode, se tornar mais um morto político caso algum governo do mundo não decida enfrentar o governo norte-americano para garantir a defesa de sua vida.

É evidente para todos que o asilo concedido pela Rússia, além de temporário, é apenas uma forma de demonstrar força entre países imperialistas. Uma forma de dizer que não tem medo do seu maior rival. Uma leve lembrança da Guerra Fria (quando EUA e a ex-URSS trocavam ameaças de uma guerra nuclear sem chegar às vias de fato). Snowden acaba sendo uma peça involuntária na luta por demonstração de poder entre a Rússia e os EUA.

Por que o Brasil deve dar asilo a Snowden?

Fica claro que Snowden é um combatente pela causa dos povos oprimidos, vigiados dia e noite pelo governo norte-americano. Suas denúncias de que os americanos vigiaram a presidenta Dilma, a Petrobrás e outras empresas brasileiras foi como tirar uma venda que cegava os defensores da liberdade e da democracia dentro do capitalismo.

Ainda mais poderosa foi sua denúncia de que cada cidadão do Brasil e do mundo que tenha acesso à internet – quase toda a população com um padrão básico de vida urbana – ou ao celular, está sendo vigiado ininterruptamente e tem cada passo gravado pela NSA para fins de perseguição, difamação ou uso como provas em processos políticos.

Isso representa um grande problema para os(as) combatentes da democracia e da causa do socialismo e para todos(as) que defendem uma revolução liderada pelos trabalhadores! Essa denúncia só veio confirmar o que a UJR já defendia sobre as medidas de segurança com as mensagens de celular e e-mails e que muitas pessoas e organizações achavam exageros. Mas os revolucionários jamais podem vacilar. Ou como disse Che Guevara em um discurso: “Não se pode confiar no Imperialismo um tiquinho que seja”.

Por isso e por vários outros motivos, sejam ideológicos (a luta contra a dominação dos EUA na América Latina), sejam econômicos (entender como funciona a vigilância a empresas nacionais), políticos, históricos, etc.; o Brasil deve defender a honra e a história do seu povo que jamais abriu mão da luta pela defesa da liberdade e da democracia e conceder imediatamente asilo a Edward Snowden!

Assim como os Cinco Patriotas Cubanos, presos sem julgamento nos Estados Unidos ao fazerem um trabalho de contraespionagem e desmascararem um plano de ataque contra Cuba, Edward Snowden também merece nosso apoio pela defesa de sua vida.

Asilo político para Edward Snowden já!

Lucas Marcelino, diretor da UNE e militante da UJR em SP.

Obs – Recomendo a leitura de alguns materiais:
A carta de Edward Snowden na íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/12/1386291-leia-integra-da-carta-de-snowden-ao-brasil.shtml
Os últimos soldados da Guerra Fria – Livro do escritor Fernando Morais sobre os Cinco Patriotas Cubanos. (Disponível em pdf em: http://kickass.to/os-%C3%9Altimos-soldados-da-guerra-fria-fernando-morais-t7082529.html)
Matéria do jornal “A Verdade” sobre a espionagem norte-americana: http://averdade.org.br/2013/09/eua-vigiam-povos-mundo/

 

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