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Offshores e o “socialismo” Chinês

Nos últimos dias, a divulgação de uma grande lista do que está sendo chamado de Panama Papers começou a chamar a atenção mundial com a destinação de bilhões de dólares para offshores, empresas utilizadas para “esconder” patrimônio e dinheiro obtido de operações ilícitas em diversos países.

A lista composta por multimilionários, capitalistas, banqueiros, e mesmo chefes de Estado, conta com a presença de diversas autoridades e lideranças chinesas, que respondem por aproximadamente 30% das offshores da Mossack Fonseca, num total de 16.300 a partir dos escritórios de Hong Kong e da China.

Mas, a China não é um país socialista?

A revolução chinesa de 1949 abriu os caminhos para a construção de uma nova nação. Apesar da sua política de alianças com a burguesia, conseguiu implementar uma série de medidas importantes como a coletivização da terra, nacionalização das riquezas e empresas estrangeiras e obteve sensíveis melhorias ao nível de vida da população.

Contudo, o período seguinte fortaleceu a construção de um regime que, passo a passo, modificou a economia e a sociedade para a lógica do mercado e os interesses privados frente os interesses coletivos. Nas palavras de Deng Xiaoping, que esteve na liderança do PC Chinês a partir de 1978, “enriquecer é glorioso”, o que sintetizava a nova orientação vivida no país.

Hoje, a China constitui-se como uma grande potência econômica capitalista, com forte controle estatal sobre a economia, com sua ênfase e resultados econômicos voltados para as grandes empresas privadas, que possuem, inclusive, membros na direção do Partido Comunista Chinês, que quase mais nada possui de comunista.

Altos dirigentes chineses na lista da Mossack

Como resultado dessa política, a corrupção e o enriquecimento dentro das empresas chinesas, do próprio governo e do partido vem novamente à tona com essa publicação. Parentes de membros da direção do PC Chinês, e mesmo do presidente Xi Jinping estão presentes na lista da Mossack. Mas para que a utilização de uma offshore, por parte de um “dirigente comunista” ou de seus familiares?

Esse envolvimento apenas retrata o caminho seguido pela China, da construção de um “socialismo de mercado”, que na prática nada tem a ver com socialismo. Trata-se de mais uma nação capitalista, voltada para o lucro e construída sobre a exploração da numerosa mão-de-obra proveniente de seu país, e de relações imperialistas com diversas nações.

A deturpação do socialismo, sem dúvidas, cumpre um papel decisivo na luta ideológica das classes, e precisamos deixar claro que nada existe de socialismo ou comunismo nessas medidas. O combate a corrupção tão propagandeado pelo governo chinês cai por terra com essas denúncias, e na verdade apenas evidencia a corrupção como filha “legítima” do capitalismo.

Rafael Pires é membro da Coordenação Nacional da UJR