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UJR e o Dia Internacional da Mulher

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o site da Rebelião publica uma entrevista com cinco companheiras militantes da UJR. Vale a leitura e a reflexão sobre o papel de luta e resistência desenvolvido cotidianamente pelo fim do machismo, e pela emancipação da mulheres.

À todas as mulheres não apenas um dia em sua homenagem, mas toda uma vida de igualdade, oportunidades e felicidade!

REBELIÃO: As mulheres obtiveram nos últimos anos inúmeras conquistas, mas ainda há muito a ser feito. Quais os direitos negados aos jovens hoje no Brasil?

10505209_695190807225356_6841193496898144027_oBia Martins – Coordenadora Geral da FENET: O Brasil é um país muito difícil de se viver para as mulheres jovens. Muitas jovens ao se tornarem mães por exemplo são obrigadas a sair das escola ou universidade pois não há creches para seus filhos. São ainda as mulheres jovens, as que mais sofrem assédio sexual tanto por homens nas ruas que diariamente fazem piadas, ou mesmo pelos namorados. Na última semana na minha cidade, um homem passou a mão por dentro do uniforme de uma garota que estava dormindo no ônibus a caminha da escola. As mulheres jovens ocupam ainda majoritariamente postos de trabalho mal remunerado, como no telemarketing ou nos serviços domésticos. Enfim, o direito de ir e vir sem medo de ser violentanda, de poder estudar quando mães e o de ocupar e ter salários iguais aos homens são os principais direitos negados.

REBELIÃO: Como a violência se expressa com as mulheres jovens? Qual a expressão mais comum dessa violência?

1370725_731310753562459_584961076_oSamara Martins – Coordenação Nacional da UJR: Acredito que a violência às mulheres jovens se expressa de várias formas, mas a violência sexual é uma das mais veementes contra elas. Ela se expressa através do estupro (uma das piores violências sofridas pela mulher, por carregar em si um caráter físico mas também altamente psicossocial), mas também pelo assédio sexual. As mulheres jovens são sempre sexualizadas. São as “ninfetas”, as “novinhas”, são objetos de prazer do homem.

A campanha “Chega de fiu-fiu” é uma das provas de que as mulheres, principalmente as jovens, sofrem assédio todos os dias. Por sua vez, o número de estupros é alarmante e só aumenta, passando dos 50 mil por ano.
As mulheres não estão livres desse tipo de violência em nenhum ambiente: sofrem assédio e estupro no trabalho, nas escolas e universidades, na rua, em festas, nos ônibus, etc.

As mulheres jovens, igualmente, sofrem com a violência doméstica, por parte do pai e/ou companheiro; com a violência psicológica, patrimonial, obstétrica, entre outras. E o feminicídio, por conta da alta quantidade de casos, se tornou crime hediondo. A crescente violência contra as mulheres é a prova da perpetuação do machismo, nessa sociedade do capital que desumaniza as pessoas. Basta de violência!!

REBELIÃO: Os meios de comunicação usam a todo momento a imagem e o corpo da mulher associados a venda de produtos. Essa mercantilização, traz quais consequências para o dia a dia das mulheres?

IMG_20150307_173214Luane Mota – Coordenção da UJR-CE:É frequente vermos as mulheres atuando em propagandas de carros, ferramentas de mecânica, cervejas, produtos de beleza e diversos outros produtos. Porém, o caráter ideológico que esse tipo de comercial e propaganda carrega, prejudica diretamente nossas vidas. Acredito que os comerciais de cervejas são as formas mais escrachadas de rebaixar o nosso nível na sociedade, eles nos colocam como se não passássemos de meros objetos sexuais. Quem nunca viu a propaganda da cerveja Itaipava que diz “Vem Verão”, e uma belíssima mulher, chamada de “Verão”, aparece com a cerveja na mão e entrega ao homem? Aquilo é um tremendo absurdo e um desrespeito as mulheres do nosso país. Esse tipo de mídia, desvaloriza a mulher, fortalece o machismo e forma uma consciência atrasada em todas as pessoas.

A mercantilização da mulher acontece de maneira bem rasteira pelo sistema capitalista e são graves as consequências. Temos a imposição às mulheres para aderir um padrão de beleza, por exemplo, apenas para os capitalistas venderes seus produtos de cosméticos, e isso causa a exclusão daquelas que não seguem o padrão de beleza imposto. O fato da mulher não ter o cabelo lisinho das meninas da TV ou não ter o corpinho de determinada famosa, gera preconceito e exclusão.

Há ainda os problemas mais graves causado pela mercantilização, a violência verbal e até mesmo física. Receber cantada de homens quando passamos na rua é um ato de violência, as mulheres não gostam, isso é constrangimento.  Não merecemos ser vistas apenas como um objeto a disposição dos homens, ou como meras consumistas. Como diz a palavra de ordem, “Somos Mulheres e não Mercadorias”. E aos que não sabem, merecemos e devemos sim, ser respeitadas!

REBELIÃO: Quais as principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres para conquistar sua formação universitária? A universidade é um ambiente igualitário para homens e mulheres?

1970421_865203696837803_6844605864768962705_nKaterine Oliveira – 1° Vice-presidente da UNE: Nem sempre as mulheres tiveram a oportunidade de estudar, isso foi uma grande conquista. Mas ainda não é realidade para todas, ainda existem países onde isso não é permitido, lembremos da paquistanesa, Malala Yosafzai, baleada por querer ter o direito de ir a escola. No Brasil, apesar de sermos a maioria nas universidades, ainda enfrentamos muitas dificuldades para conseguir nossos diplomas. Desde o machismo presente na estrutura universitária ao assédio moral e sexual nas instituições, como por exemplo os recentes casos de estupro denunciados na USP.

Esse tipo de violência faz com que muitas estudantes desistam da universidade. Além disso, para as estudantes trabalhadoras a jornada é ainda mais exaustiva, muitas também são mães, e as instituições não oferecem nenhum auxílio, o que dificulta vencer a barreira da tripla jornada que essas estudantes enfrentam diariamente.

REBELIÃO: Há uma serie de regras impostas na sociedade sobre o comportamento das mulheres: o que fazer, quando e como. Essas imposições sociais limitam a vida e a liberdade das mulheres?

1913304_10203614580115315_758974278_oLires Bastos – Coordenação UJR-RS: Essas imposições sempre possuem um propósito que tem ligação com misoginia. Como, por  exemplo, a mulher ter que ser educada, maternal, paciente,ter voz baixa. Como ser prendada, saber cozinhar, saber arrumar a casa. Como estar sempre depilada, maquiada, com aparência superficial, segundo a idéia dos homens de como mulheres devem ser.

Existem milhares de outros exemplos de como há feminilidade imposta a nós, sem citar também heterossexualidade compulsória, gravidez compulsória, monogamia, etc. Isso tudo existe porque o patriarcado considera o gênero feminino como um segundo sexo, uma sub-espécie. A luta feminista é contra esses estereótipos de gênero, contra essas imposições que fazem com que não tenhamos a sensação de que somos humanas e sim de que somos a ideia patriarcal do que é ser mulher.

Coordenação Nacional da UJR