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Rompendo os moldes

Texto extraído da revista Chispa, das companheiras e dos companheiros da Juventude Comunista Revolucionária da Argentina:

Apesar das Mulheres serem de diferentes “formas e cores”, o sistema em que vivemos nos impõe uma imagem de mulher que golpeia nossa auto-estima, nos promove como objetos e nos leva por caminhos que afetam nossa saúde. Na contramão do que nos propõe o sistema, somos milhares de jovens que nos rebelamos para sairmos desses moldes.

barbiesDesde pequenas, o sistema nos vai impondo os modelos de mulheres que devemos ser. Altas , magras, brancas, preocupadas com a moda, a maquiagem. Desde as princesas da Disney até as bonecas Barbie, passando por um variado menu de programas de televisão, nos oferecem exemplos para triunfar na vida que passam fundamentalmente pelas aparências e o gostar do outro fisicamente.

Reduzem assim nossa integridade como pessoas, a meros objetos de consumo. Entregue a esses modelos, a cultura dominante nos ensina também a ser submissas e nos vão colocando em um lugar de inferioridade frente aos homens.

O problema fundamental aparece porque a maioria de nos somos diferentes desses modelos. Somos altas, baixas, magras, gordas, morenas, brancas, loiras, negras.  Somos diferentes, e isso esse sistema não aceita. E como não podemos nos parecer com esses modelos, vão atacando nossa auto-estima e impondo os valores de concorrência. Então aí esta o sistema para atacar de novo; entre outras coisas, nos oferecem os caminhos da bulimia e da anorexia para alcançar as metas. Um beco sem saída em que cada vez entram jovens com menos idade.

Por que temos que seguir um molde?

Para que o capitalismo marche a passos firmes, necessita que cada uma das pessoas cumpra um papel que faça funcionar sua engrenagem de acumulação de lucros e garanta a dominação dos que estão abaixo. E esses papeis são desde o lugar que ocupamos na produção, até o lugar que ocupamos em casa, na família e outros espaços. Para as mulheres o sistema tem reservado dois lugares fundamentais: donas de casa e objetos sexuais. Donas de casa que preparam a comida, vestem as crianças, limpam a casa, satisfazem o marido. Objetos sexuais disponíveis para a apreciação masculina, ratificando nosso lugar de submissão aos homens.

Assim, a cultura dominante nos vai ensinando como ser e qual é nosso lugar desde pequenas. Alguma vez já se questionaram por que porque entre as brincadeiras preferidas das meninas então as cozinhas, a pá e a vassourinha ou o kit de beleza? E para os meninos: caminhões, armas, soldadinhos. Assim nos ensinam a ser obedientes e dedicadas a casa, e a eles a serem poderosos, dominantes e das tarefas de casa… nem falar.

Belezas que matam

Um dos principais instrumentos de que transmitem os modelos que devem ser seguidos pelas mulheres e pelos homens são os meios de comunicação. Por exemplo, na televisão, são poucos os programas que nos mostram em nossa diversidade e contextos reais: estudando, trabalhando, segurando os ritmos de produção nas fábricas, lutando por nossos direitos, criando nossos filhos. Assim as pressões cotidianas, somam-se as pressões de ter que ser magras, altas, brancas, meigas, suaves.

Para alcançar esse objetivo de beleza o mercado põe a nossa disposição uma grande variedade de produtos e tratamentos para “perder os quilinhos extras”, “acabar com os pneuzinhos”, “ter o cabelo que sempre sonhamos”, para “eliminar as manchas do rosto”. Produtos que estão ao alcance de uma minoria que podem pagar por eles. Claro que isso não significa que elas não são vítimas dos mesmos estereótipos. Os mandamentos das mulheres atravessam todas as classes sociais, mas como se  passa em todos os casos as que mais sofrem são as mulheres mais pobres.

Assim mesmo, esses estereótipos de beleza impactam fundamentalmente as crianças e adolescentes. Golpeiam nossa auto-estima e nos levam a becos sem saída como são a bulimia e a anorexia.

Segundo estudos realizados na Argentina, a bulimia e anorexia aumentaram significativamente nos últimos anos. A cada cinco meninas, uma tem problemas com a visão de seu corpo e quando chegam as estações de calor se agrava o problema. A relação entre mulheres e homens que sofrem transtornos na alimentação é de 20 para 1. Vinte meninas a cada um menino.

Essas doenças são mais freqüentes na adolescência, mas a novidade é atacar meninas cada vez mais jovens, de 11 e 12 anos. Não há estatísticas oficiais no país sobre que porcentagem da população sofre com esses problemas, se calcula que no mundo cerca de 70 milhões de pessoas sofre de patologia alimentar e que as mulheres são 85 por cento.

Os transtornos alimentares podem ser tratados de maneira exitosa quando se conta com atenção médica e psicológica necessárias. Esse é um grande vazio político nas políticas públicas. Não é uma prioridade do governo na hora de desenhar políticas públicas para os e as jovens. Nos hospitais públicos, são poucos os profissionais especialistas nesse tema.  A isso se deve somar a dificuldade que é exteriorizar, contar o que nos passa, reconhecer que temos um problema.

Lutando por outros modelos

Nós cremos na beleza de todas as pessoas com as suas diversidades, com a  capacidade de comover-se com a dor dos outros, capacidade de rir, de lutar e dos milhares de talentos que, em maior ou menor medida, cada um vai desenvolvendo na arte, na cultura, no esporte, nos estudos e no trabalho.

Temos modelos de mulheres a seguir e não precisamos buscá-los na televisão ou em revistas. São as tantas que dia a dia levantam e se deparam com a realidade da fome, da falta de trabalho, da grana que é insuficiente para chegar ao fim do mês. São as que se organizam e lutam para mudar essa realidade.

E cremos também que é possível lutar por outros modelos de beleza que não comprometam nossa saúde, ponham em risco nossas vidas e que, fundamentalmente, incluam a grande variedade de corpos, formas, cabelos e cores da pele. São modelos pelos quais temos que seguir lutando, porque os que o sistema impõem nos matam e geram violência.

Chispa