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Março é mês de luta das mulheres

O dia 8 de março não é apenas um dia de comemorações, mas um dia para lembrar a luta histórica e cotidiana das mulheres por um mundo de igualdade, em que se destacam as grandes e heroicas combatentes pela causa do socialismo. Não existe ou existiu uma só revolução popular que não tenha entre os mais destacados exemplos de combatentes, mulheres de grande fibra e capacidade revolucionária.

Por isso, durante todo esse mês de março, a UJR está promovendo debates e atividades em homenagem a todas as companheiras de ontem e de hoje e, principalmente, aquelas que nos honram em dividir diariamente os postos de combate por um mundo mais justo e igualitário e pela revolução socialista.

Como exemplo, apresentamos a transcrição de um dos textos do grande revolucionário Che Guevara em que ele homenageia duas grandes combatentes do Exército Rebelde Cubano. Essa é mais uma prova de que as mulheres estão sempre na vanguarda da causa do socialismo.

sept12-lidia-y-clodomiraLídia e Clodomira

Conheci Lídia seis meses após o início da gesta revolucionária. Eu estava estreando como comandante da Quarta Coluna, quando descíamos, numa incursão rapidíssima, para procurar mantimentos no vilarejo de San Pablo de Yao, perto de Bayamo, nas imediação de Sierra Maestra. Uma das primeiras casas do vilarejo pertencia a uma família de padeiros. Lídia, mulher de uns 45 anos, era uma das donas da padaria. A partir do primeiro momento, ela, cujo único filho pertencera à nossa coluna, uniu-se entusiasticamente e com uma devoção exemplar, aos trabalhos da Revolução.

Quando evoco seu nome, existe algo mais que uma apreciação carinhos para a revolucionária sem mácula, pois ela tinha uma devoção particular por minha pessoa que a levava a trabalhar preferencialmente sob as minhas ordens, qualquer que fosse a frente de operações que me fosse designada. São incontáveis os fatos em que Lídia interveio na sua qualidade de mensageira especial, minha ou do Movimento. Levou a Santiago de Cuba e Havana os mais comprometedores papéis, todas as comunicações de nossa coluna, os exemplares do jornal El Cubano Libre; trazia também a papelada, medicamentos, enfim, tudo o que fosse preciso e todas as vezes que isso fosse necessário.

Sua audácia se, limites fazia com que os mensageiros homens evitassem sua companhia. Lembro sempre os comentários, entre admirativos e ofuscados, de um deles, que me dizia: “Essa mulher tem mais… que Maceo*, mas vai afundar todos nós; as coisas que ela faz são completamente malucas, e o momento não é para brincadeiras”. Lídia, no entanto, continuava atravessando uma e outra vez as linhas inimigas.

Fui transferido para a zona de Mina Del Frío, em Vegas Jibacoa, e para lá foi ela deixando o acampamento auxiliar de que fora chefe, durante um tempo, e os homens que comandou com galhardia e, até um pouco tiranicamente, provocando certa mágoa entre os cubanos não acostumados a estar sob o comando de uma mulher. Esse posto era o mais avançado da Revolução, localizado num lugar chamado La Cueva, entre Yao e Bayamo. Tirei-lhe o comando porque era uma posição demasiado perigosa e, depois de localizada, foram muitas as vezes em que os rapazes tiveram que sair atirando do lugar. Tentei tirá-la definitivamente dali, coisa que só consegui quando me seguiu para a nova frente de combate.

Dentre as histórias que demonstram o caráter de Lídia, lembro agora o dia em que morreu um grande combatente imberbe de sobrenome Geilín, de Cárdenas. Este rapaz integrava nossa avançada no acampamento quando Lídia estava lá. Quando ela se dirigia para aquele local, retornando de uma missão, viu os soldados que avançavam sigilosamente sobre a posição, avisados sem dúvida por algum alcaguete. A reação de Lídia foi imediata; sacou seu pequeno revólver 32 para dar o alarme com um par de tiros para o ar. Mãos amigas impediram-na em tempo, pois isso teria custado a vida de todos. Entretanto, os soldados avançaram e surpreenderam as sentinelas do acampamento. Guillermo Geilín defendeu-se bravamente até que, ferido duas vezes, sabendo o que lhe aconteceria depois se caísse vivo nas mãos dos soldados, suicidou-se.

Os soldados chegaram, queimaram o que havia para queimar, e foram embora. No dia seguinte encontrei Lídia. Seu rosto indicava o maior desespero pela morte do pequeno combatente e também a indignação contra a pessoa que a impedira de dar o alarme. “A mim eles matavam”, dizia, “mas o rapaz estaria salvo; eu já sou velha, ele não tinha nem vinte anos.” Esse era o tema central de suas conversas. Às vezes parecia que havia uma ponta de vaidade em seu continuo desprezo verbal pela morte, porém, todos os trabalhos que lhe encomendamos, foram cumpridos perfeitamente.

Ela sabia como eu gostava de cachorros e sempre me prometeu trazer um de Havana sem poder cumprir a promessa. Nos dias da grande ofensiva do exército, Lídia cumpriu exemplarmente sua missão. Entrou e saiu da Sierra, trouxe e levou documentos importantíssimos, estabelecendo nossas ligações com o mundo exterior. Acompanhava-a outra combatente da sua linhagem, de quem lembro apenas o nome, como quase todo o Exército Rebelde que a conhece e a venera: Clodomira. Lídia e Clodomira já eram inseparáveis companheiras no perigo; iam e vinham juntas de um lugar para o outro.

Eu ordenara a Lídia que, assim que chegasse a Las Villas, depois da invasão, entrasse em contato comigo, pois deveria ser o principal meio de comunicação com Havana e com a Comandância Geral de Sierra Maestra. Cheguei, e pouco depois encontramos sua carta em que me anunciava que tinha um cachorro pronto para me dar de presente, que iria trazer na próxima viagem. Essa foi a viagem que Lídia e Clodomira nunca realizaram. Pouco depois eu soube que a fraqueza de um homem, cem vezes inferior como homem, como combatente, como revolucionário ou como pessoa, permitira a localização de um grupo em que se encontravam Lídia e Clodomira. Nossos companheiros defenderam-se até à morte; Lídia estava feria quando foi levada. Seus corpos desapareceram. Dormem seu último sono, Lídia e Clodomira, sem dúvida juntas como juntas lutaram nos últimos dias da grande batalha pela liberdade.

Talvez algum dia sejam encontrados seus despojos em algum esgoto ou num campo solitário deste enorme cemitério que foi a ilha inteira. No entanto, dentro do Exército Rebelde, viverá eternamente a memória das mulheres que faziam possíveis, com seu risco cotidiano, as comunicações pela ilha toda e, dentre todas elas, para nós, para aqueles que participamos da Frente nº 1 e, pessoalmente, para mim, Lídia ocupa um lugar todo especial. Por isso venho hoje deixar, em sua homenagem, estas palavras de recordação, como uma modesta flor diante do túmulo multitudinário que abriu suas milhares de bocas em nossa ilha antigamente alegre.

*Antônio Maceo, famoso general da província de Oriente que lutou pela independência de Cuba na Guerra dos Dez Anos 1868-1878 e 1895.

(Publicado inicialmente na revista Humanismo, nº 53 e 54, em janeiro e abril de 1959. Republicado como apêndice no livro de memórias Sierra Maestra – da Guerrilha ao poder, escrito por Che Guevara).

Lucas Marcelino – Diretor de Relações Internacionais da UNE e militante da UJR-SP